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A bem da Nação

POR ESSA PICADA ALÉM… - 14

Para quem não conheça, explico que a Maxixe é a localidade na Estrada Nacional 1 (a longitudinal que já então vinha de Porto Amélia até Lourenço Marques e que nós vimos percorrendo desde Nampula) que se situa frente à enseada existente entre o continente e a cidade de Inhambane (a terra da boa gente como lhe chamaram os nossos navegadores primevos) localizada no quase extremo da restinga que, de Sul para Norte, forma a dita enseada.

E se Inhambane, geograficamente isolada lá na ponta da restinga, se debatia com problemas de sustentabilidade económica, a Maxixe, por sua vez, crescia a olhos vistos. E um dos motivos desse crescimento era uma Pousada (de sul africanos ou rodesianos, já não me lembro – só me lembro de que eram «bifes») que apostara no «big game fishing» (naqueles tempos, por ali, ainda não se falava de «seafary»), ou seja, a pesca grossa, nomeadamente ao espadarte, o marlin para eles, os da estranja.

É claro que apontámos à Estalagem para saber se tinham um quarto com três camas para aquela noite. É claro que não tinham. Nem com três camas, nem com duas, nem sequer com uma só. Estavam cheios e com «overbooking» (se não foi a primeira vez que ouvi a expressão, é porque me tinha esquecido de a ter ouvido antes). - E há por aí mais onde passar a noite? Duvidavam porque eles próprios tinham preenchido tudo para colmatarem o tal «overbooking». E tinham chegado a Inhambane. Não me recordo se naquela época já existia a expressão de «estarmos feitos ao bife» mas, na realidade, era o que apetecia dizer. O «bife» com que falávamos não resolveu o nosso problema.

MAXIXE-a baía, vista da estalagem.jpg

Maxixe - a baía vista da Estalagem

- E agora?

- Agora temos cerca de 500 quilómetros até Lourenço Marques.

Cá está nova ocasião em que silencio as expressões «protocolares» que os meus companheiros proferiram.

- Se formos a ver, é praticamente a mesma distância de Estremoz a Madrid.

- Sim, claro! Ou de Roma a Bari para irmos visitar o Pai Natal.

- O Pai Natal em Bari? Então, não é na Finlândia?

- Isso da Finlândia e das renas é conversa da «Coca Cola». O Pai Natal era Bispo de Mira, na actual Turquia, onde morreu e foi enterrado. Mas durante a ocupação romana foi trasladado para Bari. Mas isso agora não interessa. O que fazemos? Vamos até Lourenço Marques ou ficamos a meio caminho? – perorei eu.

- Vamos em direcção a Bari e se nos fartarmos a meio caminho, paramos e dormimos. – disse o Tó.

- Muito bem, mas há particularidades nesta «estrada para Bari». Pode não haver uma estalagem, pode não haver sequer um parque fechado ao estilo do campismo, haverá certamente campo aberto e, aí, pode haver um ou outro «leanito» ou um cornúpeto qualquer de mau feitio. A irmos, é «non stop».

A minha audiência votou por unanimidade que eu guiasse mais 500 quilómetros non stop e não bufasse sob pena de se queixarem ao Kaulza.

Verificados os níveis de satisfação do nosso «herói» e aprovisionadas algumas vitualhas para nós, os bípedes, eis-nos feitos à estrada rumo a Lourenço Marques mas passando obrigatoriamente por várias terras importantes onde eu, sem avisar, haveria de encostar a uma box qualquer que se apresentasse capaz de me deixar passar pelas brasas. Dividindo psicologicamente o esticão nos primeiros 255 quilómetros a João Belo (Xai Xai) e os 220 seguintes a Lourenço Marques, tudo se faria mais tranquilamente do que pensando numa vezada só.

Foi então que me lembrei do meu primo Luís que nasceu no Xai Xai quando o pai dele, Oficial da Marinha, ali fazia uma comissão de serviço. E lembrei-me do progresso enorme que foi para toda aquela região quando em meados dos anos 60 do séc. XX os batelões foram substituídos pela ponte sobre o Limpopo. Toda aquela região se passou a sentir como fazendo parte do progresso e não mais como uma parte esquecida do Império. E lá voltei à mesma, tudo uma manta de retalhos, sem tessitura contínua. O mesmo que estava agora a acontecer com a barragem de Cabora Bassa, isolada no meio de nenhures e que por certo demoraria muito tempo a criar riqueza de proximidade ou sequer em relação à cidade mais próxima, Tete. Felizmente, o tempo fora de algum modo vencido pela DETA, o serviço aéreo que havia agora que promover a empresa mas que, entretanto, ligava as «ilhas» que constituíam Moçambique. E lembrei-me de que, naqueles primeiros dois meses da minha comissão militar em Lourenço Marques (foi depois desse curto período que fui transferido para Nampula donde estava agora a ser retransferido) o Secretário Provincial dos Transportes e Comunicações, Eng. Vilar Queiroz, me tinha dito que, à falta de estradas operacionais ao longo do ano, o transporte aéreo era prioritário e que tudo começava pela escolha de um local próximo de uma localidade considerada prioritária onde se pudesse terraplanar uma pista. Seguia-se, à medida que ia havendo dinheiro, a compra do espaço, se fazia a terraplanagem, se consolidava o piso para a pista poder ser usada o ano todo, se construía a torre de controle, se equipava essa mesma torre, se improvisava uma protecção para os aviões que tivessem que pernoitar no local e só no fim é que se pensava, sobrando algum dinheiro, na aerogare para os passageiros.

Foi também nesse primeiro período da minha presença em Lourenço Marques que um companheiro de equitações – entretanto proprietário de algumas empresas industriais - me contou que a primeira noite que ele e a mulher dormiram em Moçambique foi na garagem do Governo Geral cujo titular (não me disse o nome) se interessou pela determinação daquele jovem casal de ficar em Moçambique em vez de seguir viagem para alguma colónia francesa na rota do navio que os trazia de Toulon. Sim, nesses idos de 50, havia uma política de obstrução à imigração de portugueses em Moçambique e só o empenho pessoal do Governador Geral foi capaz de furar essa proibição. E já que estou a referir um casal luso-francês, pergunto: «à quoi bon?».

Chagámos a João Belo um pouco antes do pôr do Sol e, sem pedir opiniões, encostei o «herói» por ali e declarei que ia descansar um pouco.

O que faço agora também neste ponto da escrita. Até logo.

Julho de 2019

Henrique Salles da Fonseca

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