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A bem da Nação

POR ESSA PICADA ALÉM… - 12

O Save é em Moçambique o que o São Francisco é no Brasil, uma fronteira entre uma terra relativamente fácil e uma difícil. A diferença ainda é muito grande no caso moçambicano porque o rio-fronteira ainda não está trabalhado com os caudais regularizados, com as margens consolidadas, com represas, drenagens e irrigações circundantes que melhorem os lençóis subjacentes, etc. E porque o rio está ao abandono, o lado pobre, o da margem esquerda, é pobre e o da direita está à vontade de Deus Pai todo poderoso. Só lá mais para a frente, a caminho do Sul, é que a «coisa» agro-pecuária e florestal melhora. E é nessa melhoria que volta a aparecer o «pé-de-meia» das populações, o amigo cajueiro.

Estrada boa, alcatroada há muitos anos mas com piso recentemente melhorado, deu para continuarmos uma viagem turística sem problemas. A diferença, agora, estava na presença humana muito mais assídua e à vista, do gado doméstico a pastar próximo, das machambas por ali fora, quase a esmo para os nossos olhos mas de certeza que com lógica para os respectivos proprietários, agricultura de subsistência. E que mal há nisso? Mal nenhum do lado de quem a pratica; muito mal dos Serviços Públicos que a deixam ao «Deus dará». E disto tudo me fui lembrando… das populações que vivem e deixam viver. E nesta decisão que tomara ontem de voltar para Moçambique depois de ir a Lisboa passar à disponibilidade militar, lembrei-me de que uma das coisas em falta na corrida contra o tempo pelo desenvolvimento, era a de um verdadeiro Serviço de Extensão Rural que apoiasse as populações abandonadas. E isso implicaria não só as condições de habitação, educação e saúde mas sobretudo no melhoramento da produção agrícola e das condições sanitárias do gado doméstico, as desparasitações veterinárias.

Moçambique-aldeia no sul.pngE assim fui meditando… até que me dei conta de que não sou engenheiro para poder melhorar as condições de saneamento básico nem habitacionais daquela gente habituada aos melhores materiais de construção que por ali existem, devidamente adaptados às condições naturais, não sou médico nem sequer enfermeiro para poder ajudar às condições sanitárias, não sou professor para os poder habilitar ao abrigo do ensino oficial, não sou veterinário para lhes tratar do gado, não sou agrónomo para os ajudar a melhorar a qualidade agrícola. Ou seja, não sou nada que lhes possa ser de alguma utilidade. Um zero à esquerda. Apenas um especialista em assuntos gerais que, se munido de humildade, ainda há-de aprender umas «coisas» com aqueles a quem pensava ensinar. E lembrei-me dos peace corps do Kennedy que tanto bem fizeram por tanta parte até que foram corrompidos pelas maquinações da CIA.

E, depois, lembrei-me da dicotomia entre esta gente viver assim há séculos, não saber viver de outros modos e virmos nós, extra-terrestres, ensinar-lhes coisas com que eles não sabem (e eventualmente, não querem) lidar. Levá-los a defecar num único local junto da aldeia? Muito civilizado, sim Senhor. E onde fica a linha de água a que vamos aplicar a bomba para lhes fazer um chafariz? Eventualmente, será a maneira mais apropriada de lançar uma epidemia de cólera. E quanto ao aumento da produção agrícola, como se fará o escoamento dos excedentes e a que preço numa economia desmonetarizada? E se a moeda não circula, para que querem eles a moeda? Ah! Mas querem a Justiça. Para os mandar para a prisão conforme os critérios duma Lei que desconhecem? Não! Para isso têm os Conselhos de Velhos cuja autoridade reconhecem. Então, como fazer para ajudar esta gente? E a grande pergunta é: - Será que eles querem a nossa ajuda? Sim, creio que sim, querem a nossa ajuda para lhes tirar a dor de dentes, as cataratas dos olhos, a dor do apêndice... Mas só depois de lhes ganharmos a confiança. Então, serão eles a pedir que os ajudemos e isso pode demorar tanto tempo quanto o tempo que está por vir. Como são importantes esses quase anónimos Chefes de Posto que se amantizam com as «flores da savana», legalizam as decisões dos Conselhos de Velhos, recebem honradamente os viajantes com avarias mecânicas… Afinal, esses que estão na base da Administração Ultramarina, muito mais do que os que estão pela hierarquia acima, é que são A chave da porta do diálogo, A ferramenta do desenvolvimento. E se nós, lisboetas, estamos com pressa, não os atrapalhemos a esses que vivem, sabem viver e, sobretudo, que deixam viver.

Chagámos a Vilanculos, o Tó e o Miguel que procurem solução para a noite do nosso «herói» e, já agora, para a nossa também. Eu estou cansado, não faço mais nada para além de um duche e um jantar.

- Miguel, vai pensando nas horas da alvorada. Amanhã são 205 quilómetros até à Maxixe.

Julho de 2019

Henrique Salles da Fonseca

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