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A bem da Nação

POR ESSA PICADA ALÉM… - 10

Eis-nos no «Acampamento Central» do Parque Nacional da Gorongosa, centro de Moçambique.

Por louvável iniciativa do nosso «desempregado», entrámos na posse de um mapa do Parque com as estradas recomendadas para observação das várias espécies; o Miguel e eu deambulámos por ali a esmo mais a observar rodesianas do que postais ilustrados com outras espécies. Naqueles tempos, as rodesianas eram inglesas tropicais. Naqueles tempos também, a Rodésia estava unilateralmente independente pois a Velha queria entrega-la aos movimentos controlados por Moscovo tais como o ZANU e o ZAPU. Aliás, nem sei mesmo se naqueles tempos esses movimentos não eram só um e o spin off do ZANU não terá sido depois. Talvez. Mas agora não vou estudar isso porque está ali um macaco a espreitar para dentro do carro.

Gorongosa-zebras.jpg

Naquele dia, àquela hora matinal, nós eramos os únicos turistas portugueses denotando que os nossos já sabiam o suficiente de macacadas. Ou então, que os portugueses não gostavam de se levantar tão cedo. Portanto, ou por falta de interesse (pecha grave) ou por mândria (pecha gravíssima), nós eramos a excepção que confirmava a regra de que a Gorongosa era para o proveito de estrangeiros.

[Num saltinho ao futuro, sabemos agora, 47 anos depois, que assim continua a ser: o turismo de portugueses na Gorongosa é diminuto a provar que continuamos a ter de macacadas o suficiente]

Com o Tó de mapa na mão, lá fomos ver a bicharada… e eu fui-me lembrando de que nós, portugueses, estávamos a ter uma importância capital na salvaguarda da «fronteira» do Ocidente naquela região de África. Enquanto nós por ali mandássemos, Moscovo não meteria o dente. Por nós e pela ajuda que estávamos a dar aos rodesianos. E lembrei-me do tabaco rodesiano que chegava aos mercados internacionais como se fosse português assim driblando o boicote que a ONU impusera a todo o comércio internacional da Rodésia. E lembrei-me do oleoduto Beira-Umtali que deveria passar não muito longe daquele sítio em que nos encontrávamos naquele preciso momento. E lembrei-me da «teoria» que dizia que se a África do Norte era árabe, por que é que a África do Sul não haveria de ser branca? Que os brancos estavam naquela região há mais tempo que os pretos… e outras deturpações da História que ignoravam o Império do Monomotapa, as ruínas do Zimbabwe, o Império Zulu, o próprio Shaka dito e tantas outras realidades que naquele momento não me ocorreram… O que, pelo nosso lado, estava em causa não era saber se os regimes futuros eram brancos, pretos ou rosés, o que interessava era que fossem ocidentalizados, não comunas. E lastimei para com os meus botões que nós, portugueses, tivéssemos sido tão desleixados com o desenvolvimento integrado de Moçambique em que só naquela altura estávamos a construir uma grande estrada longitudinal pois até então só havia comunicações transversais por imposição inglesa relativamente ao Transvaal (caminho de ferro de Lourenço Marques) e relativamente à Rodésia (comboios da Beira). E o prolongamento da linha férrea de Nacala até Vila Cabral (Lixinga, hoje), tinha sido muito recente. Uma vergonha tão vergonhosa como termos chegado ao 5 de Outubro de 1910 com 90% de analfabetos adultos. Agora, era uma corrida contra o tempo, a ver se conseguíamos em meia dúzia de anos fazer o que os nossos antepassados não tinham feito em séculos. E seria que os «ultras» de Américo Tomás deixariam esta corrida pelo desenvolvimento ser feita sustentadamente? Como é que eu, economista, poderia ajudar neste processo? Para já, cumprindo na íntegra a comissão de serviço militar e depois logo se haveria de ver… mas não se me daria qualquer cuidado voltar para Moçambique depois de passar à disponibilidade e trabalhar durante meia dúzia de anos a ajudar a puxar este processo de desenvolvimento para a frente. E o tempo perdido com o ensino superior. Por que é que a Beira e mesmo Nampula não tinham polos da Universidade de Lourenço Marques? Caramba, eram tantos os temas de desenvolvimento que me ocorriam que até já nem me lembrava da macacada. Mas, afinal, só me lembrava de temas relacionados com o investimento público. E os privados, por que não chamá-los para a corrida?

Até que dei por mim a passar pela terceira vez frente à «casa dos leões» e a constatar que eles deviam ter ido encomendar o jantar algures, lá para as bandas em que pastam as gazelas. E foi nesse caminho que vimos um hipopótamo em seco a trotar na savana ao nosso lado à mesma velocidade que o «herói». Felizmente, ao desviar a rota, fê-lo para o lado de fora e não contra nós. Um pouco à frente, já em terreno arborizado, um elefante (viemos a saber que se tratava da matriarca daquela manada), a bloquear-nos o caminho. Parei de imediato e engatei a marcha-a-trás mas deixei-me ficar o mais silencioso que era possível. Foi então que o resto da manada começou a cruzar a estrada com as outras fêmeas a protegerem a criançada. A matriarca só baixou a sua guarda quando a última «senhora» passou. Deixei que todas desaparecessem no mato e só então avancei. Sem dramas, a história acaba aqui. E quanto aos leões, nem vê-los.

Estava na hora de sairmos do Parque. Dirigimo-nos ao portão da saída (não me lembro se era o mesmo da entrada) e fomos até ao Inchope, a terra mais próxima e que era donde partia a estrada em vias de construção até Vila Franca do Save, 311 quilómetros lá para baixo.

Mas isso fica para amanhã.

Julho de 2019

Henrique Salles da Fonseca

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