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A bem da Nação

PONTES E AEROPORTOS

 

1 – O Dr. António da Cunha Duarte Justo (que cumprimento) assina texto (28.2.15) em que refere a intenção da CML atribuir o nome de Humberto Delgado (HD) ao Aeroporto da Portela. Para os mais novos que nos “espreitam”, o general Delgado foi tenente de Maio de 1926 e, depois de muita água correr debaixo das pontes, feroz opositor de António de Oliveira Salazar (AOS). E esta seria uma forma de homenagear aquele, que desafiou a referência máxima do Estado Novo (EN).

 

2 – E no texto registe-se dois cuidados: Um primeiro em que “tenha-se todo o respeito por HD mas poupem-nos de mais esta vassalagem à esquerda” e num segundo “…e verificar se os proponentes são acreditáveis”.

 

3 – E sobre isto gostaria de acrescentar mais alguma coisinha. Isto se o DDB (Dono Do Blogue. Nada de confusões) o permitir, não vá ele ter simpatias por novos aeroportos. Antes de mais, fico com “arrepios”, quando se fazem homenagens a figuras que, pela sua dimensão, abrem sempre novas polémicas. Bem andava Salazar, quando não queria que o seu nome fosse dado à Ponte sobre o Tejo. No fundo, no fundo, ele sabia que seria sol de pouca dura. Estado Novo borda fora, e Ponte nova de um dia para o outro. E lá nasceu a de 25 de Abril.

 

4 – E com os tempos a caminharem em “ziguezague” temo que, de um dia para o outro, aconteça o mesmo ao “velho novo” aeroporto da Portela caso passe a HD. O outro, que acabo de ver na CNN, Fareed Zakaria, decretou o fim da História e da “guerra fria” com a queda do muro de Berlim. Já deve estar arrependido das suas previsões. Uma não acabou e a outra está cada vez mais “quente”.

 

Salazar e Craveiro Lopes

 Salazar e Craveiro Lopes

 

5 – Vamos a 1958. O presidente da República, general Craveiro Lopes (CL) poderia de novo ser candidato. E não foi. AOS apercebe-se que, desta vez, existe sobre o assunto clivagem acentuada, entre os oficiais das Forças Armadas. Uns apoiavam a reeleição de CL e outros entendiam que o mesmo deveria ser afastado. Nos primeiros estavam quem começava a contestar a figura de Salazar mas não o EN, e sabiam que tinham um ponto de apoio em CL, que dava sinais de distanciamento, em relação à figura do Presidente do Conselho. Nos outros estavam todos aqueles que entendiam que tempestades se aproximavam, muito em especial, depois de termos entrado para a ONU em 1955, e aí, o Leste e o 3º Mundo, não nos davam descanso. Nestes, o seu ponto de apoio era o ministro da Defesa Nacional coronel Santos Costa que acompanhava AOS desde há 22 anos. E não era homem para ser desafiado. Como diria ministro democrático (de colheita recente): quem se metesse com ele levava (o ministro referia-se ao PS).

 

6 – Foi então decidido que, face a esta clivagem nos meios militares, o general Craveiro Lopes receberia “guia de marcha”. Era necessário arranjar novo candidato. A escolha ia recair no ministro da Marinha, almirante Américo Thomaz, que ocupava a pasta desde 1944. O Exército não gostou lá muito, habituado que estava a ocupar o lugar. A Marinha, sempre contestatária, desta vez ficou feliz, primeiro porque era um deles e segundo o Almirante tinha feito trabalho de grande modernização no sector.

 

7 – Para o enfrentar, a Oposição apoiava em peso o general Delgado, em especial depois do célebre “obviamente demito-o”. E é aqui que estão muitas das minhas dúvidas. Querem santificar, quem não pode ser elevado aos altares. Nem um nem outro. Um com a queda do EN foi logo retirado dos altares e, quanto a mim, o outro não sei se deve ser elevado a essa categoria.

 

8 – 8 de Junho de 1958. Eleições realizadas. Américo Thomaz chega a PR. Mas, ao contrário do seu opositor não vai votar. Não. Não foi birra. Disse apenas, que não fazia sentido, votar nele próprio. E nem AOS e os coordenadores da campanha o demoveram (AT, Últimas Décadas de Portugal, vol. 3, p.14). Agora chamem-lhe corta-fitas e pau mandado. Quem votou foi o general Delgado. E perdeu. Mas, confesso, que não fui eu que contei os votos.

 

9 – 14 de Agosto de 1958. AOS com habilidade política vai, em remodelação ministerial, levar para o governo os militares contestatários moderados. Botelho Moniz para a Defesa Nacional, o coronel Almeida Fernandes para o Exército, Beleza Ferraz para CEMGFA e cereja em cima do bolo um jovem “turco” Costa Gomes para subsecretário do Exército. Voltarei mais tarde, a todos eles, em próximo Abril. Não o de 25 de 1974. Mas o de 13 de 1961. E estes nutriam uma certa simpatia por Humberto Delgado. Agora não sei é se o aguentariam muito tempo. E davam-lhe o destino que teve o general Gomes da Costa que fez o 28 de Maio, mas levou “guia de marcha” e sob prisão para Angra do Heroísmo, onde ficou com residência fixa. Ele que tinha uma figura imponente. E quem lha deu foi o general Óscar Carmona que, ao pé dele, era bem franzino. Só que manda ou mandava naqueles tempos, quem tropa tinha. É a vida.

 

10- E escrevo: “não sei se aguentariam HD muito tempo”. Porque em depoimento feito, o chefe de gabinete de Botelho Moniz, o coronel Viana de Lemos (ao tempo jovem “turco”, e capitão) refere que “não me parecia que o futuro democrático do País pudesse ser assegurado por um oficial tão impulsivo, que carecia nitidamente de serenidade e do espírito frio que seriam necessários para bater o candidato do Professor Oliveira Salazar (Viana de Lemos, Duas Crises, p. 17).

 

11 - Mas o outro “turco” na altura (Costa Gomes) diz que “considera, no entanto, que, apesar das muitas qualidades, lhe faltava aquela dose mínima de bom senso para se refrear quando necessário e controlar as emoções” (sobre HD, “Costa Gomes – O último Marechal” de Maria Manuela Cruzeiro, 1998, 1ª edição). E José Pacheco Pereira em texto titulado “ E agora, alguma coisa completamente diferente” refere muita da actividade do general Delgado em Argel, em especial em Agosto de 1964. E entre situações de muito interesse para analisar o “feitio” de HD relata uma cena presenciada pelo médico pessoal do general, o Dr. Marcelo Fernandes, em que este assiste ao encontro do general com o Dr. Álvaro Cunhal. Assim: “Sr. General, dá-me licença que o abrace? – perguntou Álvaro Cunhal. (…) Está muito calor para abraços… Mas Álvaro Cunhal tanto insistiu que HD acabou por lhe satisfazer a vontade: Ó homem, quer abraços, abrace. Abrace lá duma vez e pronto” (J. Pacheco Pereira, Público, 10.01.2015). Portanto, feitio difícil. E aqui, talvez se compreenda, porque no exílio. Mas antes do exílio era a mesma coisa. Também se poderá dizer que são apenas duas ou três opiniões.

 

12 – Com esta maneira de ser, penso que Humberto Delgado, ou se modificava, ou então os generais moderados, modificavam de um momento para o outro, o inquilino de Belém. E não estaríamos agora a falar de aeroportos. Mas certezas, não tenho. Quanto à homenagem, se a quiserem fazer, desta ou doutra forma, nada tenho contra. Mas, sempre foi, aeroporto da Portela. Para mim, a melhor homenagem que se pode prestar a todos estes homens e mulheres, que estiveram num ou noutro lado da barricada, é ensinar aos nossos jovens nas Escolas o que foi a vida deste País. Para que escolhas, que em breve vão ser feitas para Belém, possam conter a dose necessária de equilíbrio e bom senso. Como em tudo na vida.

 

José Augusto Fonseca José Augusto Fonseca 

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