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A bem da Nação

POLÍTICOS SOMOS TODOS NÓS

 

ANKARA - Parlamento.jpg

 

 Há dias, num diálogo animado sobre as próximas eleições de 4 de Outubro, um amigo meu dizia-me que só não voltará a abster-se se alguém, integrando uma força política, lhe garantir a observância escrupulosa dos seguintes requisitos: Ética; Integridade; Responsabilidade; Respeito pela lei; Respeito pelos direitos do próximo; Transparência. Em suma, ele queria ver rostos humanos que incarnassem a expressão inequívoca daqueles princípios. E poder-se-ia até adiantar mais alguns princípios, mas o risco seria o de se acotovelarem, tal a largura da ética que deve presidir ao exercício da política.

 

Retorqui-lhe que há momentos na vida em que temos de largar o balão da utopia para aterrar no chão firme da realidade, já que esta é inevitavelmente o resultado daquilo que somos e construímos. Percebi que o desencanto do meu amigo se deve em parte ao sistema eleitoral vigente, que nos impede de votar directamente em quem nos representa, circunstância ainda mais perniciosa quando o comum das pessoas vota num programa eleitoral sem sequer o ler e, portanto, sem conhecer o seu conteúdo concreto. No entanto, a descrença do meu amigo tem um fundamento mais amplo que, diga-se de passagem, é comum à generalidade dos cidadãos: o pouco crédito da nossa classe política, tida como inepta, incompetente e corrupta.

 

Mas deve tal situação ser encarada como uma fatalidade, a ponto de afrouxar o engajamento dos cidadãos nas causas públicas, desviando-os até do elementar dever do exercício do voto? Penso seguramente que não.

 

Deduzi que para esse amigo aqueles requisitos que considera essenciais para o merecimento do seu voto só podem habitar no espírito de homens providenciais ou predestinados. Homens que flutuem acima do comum dos cidadãos, que vivam numa redoma que os mantenha imunes às contaminações da vida real. E então perguntei-lhe se temos de imitar Diógenes e andar por aí em pleno dia com uma candeia acesa à procura de um “Homem” para nos guiar. Saber se é mesmo imperioso descobrir um “Homem”, que o mais certo é não existir, para revitalizarmos as nossas esperanças de arrumar condignamente a casa comum.

 

Ora, é a história do fenómeno político que demonstra que o caminho não pode ser esse, porque não leva a parte alguma. Tempo houve em que se acreditou que Salazar era conjunturalmente esse “Homem”. Hoje sabemos bem no que isso deu. Salazar arrumou as contas públicas e acumulou ouro, é certo, mas deixou um país pobre, atrasado, desindustrializado, analfabeto, privado de liberdades cívicas e isolado internacionalmente. Mais recentemente, outros terão visto no Cavaco Silva um homem providencial em determinado momento, ainda que poucas provas públicas tenha dado antes para merecer semelhante crédito. Hoje, sabemos o que verdadeiramente vale Cavaco Silva como político. Governou em tempo de vacas gordas, mas não teve rasgo, sequer coragem política, para ousar empreender as grandes reformas do Estado que poderiam ter carrilado o país para um futuro de maior progresso social e estabilidade das contas públicas. Fora do poder, apareceria mais tarde a criticar o “monstro da despesa pública”, quando foi ele o seu criador e o principal responsável pelo esbanjamento perdulário dos fundos comunitários. No actual cargo de presidente da república, a máscara caiu-lhe de forma tão flagrante que ele acaba por ser um perfeito paradigma da falácia do homem providencial.

 

Sucede que a maioria dos votos dos portugueses tem sido canalizada para aquilo que alguns designam por “Centrão”, constituído pelos partidos do arco do poder. Não será uma grande descoberta sociológica concluir que os que normalmente votam no “Centrão” são os mesmos que apoiaram Salazar ou votaram maioritariamente em Cavaco Silva. De resto, convém recordar aos esquecidos que cerca de uma semana antes do golpe militar do 25 de Abril, o chefe do governo, Marcelo Caetano, foi alvo de uma mega manifestação de apoio popular na Praça do Comércio. Terá certamente incorporado muitos dos que consagraram a Revolução de Abril no primeiro de Maio seguinte. Não há que iludir, há uma maioria sociológica que pendularmente oscila entre o PSD e o PS, maioria que, para o bem e para o mal, espelha o que somos e o que queremos, o que permite inferir que os defeitos genéricos dos nossos políticos mais representativos só podem provir do húmus nacional.

 

Em 2007, o filósofo José Gil publicou o seu ensaio intitulado “O Medo de Existir” em que denuncia as características negativas da sociedade portuguesa, considerando-nos imersos num nevoeiro existencial que não nos liberta para a “Inscrição” nas grandes causas colectivas. É a sua teoria da “Não Inscrição”. É de uma evidência inegável que todos nós padecemos dos mesmos defeitos que não queremos ver nos nossos políticos, como se fosse possível aos genes reconverterem-se em função do estatuto social e cultural. A inveja, o queixume, a insídia, o despeito, o conformismo, a fuga à responsabilidade e aos deveres cívicos elementares (abstencionismo eleitoral), a atitude emotiva e superficial, tudo isto é o que nos aprisiona efectivamente no círculo de uma distopia que não conseguimos esconjurar nem com o arranque daquele “dia inicial inteiro e limpo” em que acreditou piamente a Sophia Mello Breyner. Antes de questionarmos a ausência de virtudes em quem nos representa, temos de indagar em que medida podemos ver legitimadas as nossas queixas, se afinal de contas é a nação no seu todo, sem exclusões elitistas, que padece do vício da “Não Inscrição”. Muitos se referem depreciativamente ao “Centrão”, mas não se lembram de que essa construção sociológica traduz uma vontade maioritária e fideliza uma escolha de meridiana identificação ideológica, que exclui epidermicamente a via para as opções de cariz totalitário ou aventureiro. Só por isso, razão há para alguma tranquilidade cívica, fazendo-nos supor que em princípio o nosso país estará arredado de uma instabilidade política e social como aquela que assolou recentemente a Grécia.

 

Quanto ao resto, e designadamente sobre as causas genéticas dos nossos bloqueamentos cíclicos ou das enfermidades da nossa classe política, poderia insinuar-se a conclusão de que talvez não estejamos talhados para a democracia. Não me atrevo sequer a ir por aí, até porque a solução homem-providencial também já demonstrou que nada vale. Contudo, será sempre necessário pôr o dedo nas nossas feridas colectivas, e isso passa por revisitar as malogradas experiências liberais do passado. Observando o falhanço da monarquia constitucional e da primeira experiência republicana, poderíamos inferir, sem perigo de grande calinada na análise histórica, que o Liberalismo pode não ter contribuído desde logo para cimentar a consciência cívica nacional, ao invés do que pensaram os seus mentores, dentro dos princípios abstractos e genéricos de que a soberania nas mãos do povo só poderá trazer benefícios à Nação, nomeadamente o fortalecimento do sentimento de patriotismo e de unidade nacional. Mas, como diz Karl Popper, “uma utopia liberal é inexequível quando um Estado é projectado racionalisticamente sobre uma tábua rasa destituída de quaisquer tradições”. Esta afirmação obriga, com efeito, a questionar se a sociedade portuguesa cultivava tradições e práticas quotidianas que permitissem o encaixamento mais ou menos ajustado da filosofia política do Liberalismo ou se este não foi imposto de supetão por uns quantos intelectuais bem-intencionados, mas talvez irrealistas, que se limitaram a importar ideias que fermentavam para lá da fronteira. A resposta temo-la com o que se seguiu: queda de uma Monarquia desprestigiada pelo próprio constitucionalismo e implantação de uma República que acabaria por enredar-se nas suas contradições e insanáveis antagonismos e bloqueios, abrindo portas à instauração da ditadura de Salazar.

 

Diz-se que o caminho se faz caminhando. Tal significa que a democracia, qualquer que seja o estágio do seu amadurecimento, tem de ser encarada como algo nunca concluído e merecedor de cuidados permanentes. Por isso é que, antes de tudo o mais, considero inaceitável o abstencionismo eleitoral, uma vez que o voto é o que temos ao nosso alcance para escolher quem nos governa e como deve governar.

 

Tomar, 7 de Setembro de 2015

adriano junto a uma estátua

Adriano Miranda Lima

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