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A bem da Nação

POBRE LÍNGUA PORTUGUESA

Ortografia.png

O acordo ortográfico de 1990 contribui para abolir as suas ligações etimológicas e, portanto, as variantes cultas das palavras. A língua portuguesa transforma-se assim num idioma de boçalidade.

 

O português padrão está a transformar-se num estranho dialecto com regras incompreensíveis que se afastam da etimologia e das restantes línguas latinas. Com a agravante de nem sequer haver qualquer uniformização com os outros países de língua portuguesa que ou não aplicam o dito Acordo ou do mesmo resulta que sigam regras diferentes, graças à pronúncia que utilizam.

 

Um bom exemplo disto resulta da tradução do livro da escritora argentina María Gainza, que em espanhol se chama “El nervio óptico”, mas que em acordês se transforma em “O Nervo Ótico”. O problema é que sempre se utilizou na língua portuguesa a expressão “ótico” como relativa ao ouvido, reservando-se o termo “óptico” para a visão. Tal é o significado dos respectivos antecedentes gregos “otikos” e “optikos”. O acordo ortográfico de 1990 aboliu esta distinção essencial mas apenas no português padrão, o de Portugal, continuando a distinção a existir no português do Brasil. Puro absurdo.

 

E o mesmo sucede com outras palavras como “recepção” e “concepção”, que se conservam sem alterações na ortografia brasileira, mas que na portuguesa passam a “receção” e “conceção”, facilmente confundíveis com “recessão” e “concessão”. Qual a necessidade de abolir a grafia anterior se o que se consegue é criar uma ortografia que ainda mais se diferencia da dos outros países lusófonos?

 

Isto já para não falar da multiplicação dos erros de escrita que o acordo ortográfico de 1990 causou, com a absurda directriz de querer abolir as consoantes mudas, estando muita gente a abolir consoantes que continuam a pronunciar-se. É assim que já se viu aparecer erros como “fato”, “ineto”, “corruto”, que demonstram bem a falta de critério na abolição das consoantes pretensamente mudas.

 

Mais: a expressão culta “ruptura”, mais próxima do latim, foi transformada em “rutura”, esquecendo-se que já existia a variante popular “rotura”; fala-se em “ótico” para a visão, mas esquece-se que a medição da mesma continua a ser a “optometria”; e os egípcios, pelos vistos, passaram agora a viver no “Egito”, esquecendo-se que a palavra Egipto tem origem no deus Ptah que, que se saiba, ainda não passou a Tah.

 

Lastimável e, por tudo isto, denunciável.

 

Novembro de 2018

Henrique Salles da Fonseca.png

Henrique Salles da Fonseca

 

(Adaptação de texto de Autor anónimo)

 

 

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