Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

A bem da Nação

PERU – 6

 

QUEM COM FERRO MATA, COM FERRO MORRE

 

Poderia ter sido um esplendor da civilização cristã mas não foi nada disso. Foi apenas um malandro odiado e temido. Chamava-se Francisco Pizarro, foi o autêntico Stalin do séc. XVI e teve o fim que merecia, decapitado.

Pizarro.jpg

 

Vamos a ele… com a ajuda da Wikipédia.

De seu nome completo Francisco Pizarro González, nasceu em Trujillo, na Extremadura espanhola, em 16 de Março de 1476 e fez diabruras até 26 de Junho de 1541 quando foi assassinado em Lima e o seu corpo, decapitado, arrastado pela Praça de Armas até ao esfrangalhamento quase completo. Os ossos acabaram varridos para uma caixa que foi depositada por ali... Passados séculos, foram finalmente identificados e colocados num ataúde apropriado que se encontra exposto numa lateral da Catedral de Lima pois mesmo que maligno, não pode deixar de ser considerado importante na História do Peru. Mas quem nos mostra o local, tem o cuidado de dizer que não se trata duma capela; é apenas um local. Aliás, passou à História como "o conquistador do Peru" pois subjugou o Império do Inca ao poderio espanhol. Mas fê-lo de modo especialmente sanguinário e repugnante aos olhos actuais - e em especial aos dos coevos, claro, que lhe sofreram a maldade.

Mas – e lá vem o tal «mas» que tanto relativiza os juízos – é preciso saber-se que o rapaz foi abandonado na tenra infância, que guardou porcos para que alguém lhe desse alimento e o deixasse dormir no chiqueiro, que só foi tardiamente reconhecido pelo pai, que quem o deveria acolher não descansou enquanto o não embarcou num navio da conquista lá pelo ano de 1489, rondava ele os 13 anos de idade. Quem o educou, então? Os suínos que pastoreara ou os javardos bípedes embarcados por indulto das cadeias espanholas? Dá para imaginar os atropelos a que foi submetido…

E assim se fabrica uma besta.

O primeiro registo oficial que o menciona é a documentação da expedição de Vasco Núñez de Balboa no Panamá em 1513, onde aparece como obscuro oficial, quase analfabeto. Desde aí, desenrolou-se-lhe a vida na aventura da conquista da América, nas primeiras colónias espanholas na América Central, então chamada «Castilla de Oro», o que mais lhe rendeu aflições com índios e companheiros espanhóis do que honra e glória. Até que, em 1517, lhe foi atribuída a tarefa de aprisionar o seu antigo chefe, Balboa, por ordem de Pedro Faria, o novo Governador colonial.

Foi em 1524, já com cinquenta anos de idade, que se juntou a um oficial menor chamado Diego de Almagro, ambos acalentando planos depois de ouvirem a narrativa de Pascual de Andagoya que, embora regressasse ferido e sem riquezas de uma expedição mais ao sul, teria obtido a informação de um nativo que, apontando mais para o sul, lhe dissera que conhecia o Pirú, reino onde "se come e se bebe em vasilhas de ouro".

Aproximando-se de um rico comerciante da Colômbia, o juiz Gaspar de Espinosa, Pizarro obteve um patrocínio e em Novembro de 1524, fez-se ao Pacífico com oitenta homens e quatro cavalos.

Infrutífera viagem, regressaram sem riquezas ou glórias (Almagro perdeu, entretanto, um olho nos combates travados com nativos), foram necessárias muitas negociações para o financiamento de uma nova expedição que, entretanto, foi minuciosamente contratada por escrito no qual já se previa a conquista do Peru ainda desconhecido e já se tratava da partilha das suas riquezas.

Foi em Novembro de 1526 que Pizarro voltou ao mar desembarcando na foz do Rio San Juan na costa da atual Colômbia onde ficou com a maior parte dos seus homens enquanto Almagro voltava ao Panamá com uma das embarcações para buscar mais reforços. A outra embarcação, sob o comando do piloto Bartolomeu Ruiz, prosseguiu, passando o Equador, ocasião em que teve o primeiro contacto com a civilização Inca: tratava-se de uma grande jangada impulsionada por uma vela quadrada na qual havia homens e mulheres bem vestidos com túnicas de lã, usando ornatos feitos do tão ambicionado ouro.

Três Índios foram aprisionados para servirem de intérpretes. Bartolomeu Ruiz voltou e reuniu-se com Pizarro. Pouco depois chegou Almagro com um reforço de 90 homens. Entretanto, Pizarro já havia perdido muitos homens vítimas da fome e do escorbuto (?). Traçando com a espada uma linha na areia, desafiou todos a passarem para o lado dele, onde estariam a luta e a morte mas também a fama e a fortuna. Apenas onze espanhóis e um grego se lhe juntaram; os outros regressaram ao Panamá.

Pizarro e companheiros esperaram numa ilhota ao largo da costa durante sete meses, até que o Governador do Panamá lhe enviou um barco com novos recrutas. Embarcando, esta força expedicionária navegou mais para o sul por mais de 25 dias até ao golfo de Guaiaquil onde um daqueles índios, já intérprete, explicou que se tratava do porto quéchua mais setentrional, a actual cidade de Tumbes. Ficando aí alguns espanhóis, Pizarro prosseguiu mais para o sul até Guayaquil onde foi confrontado com um grande número de jangadas repletas de guerreiros nativos. Trocando informações com eles, Pizarro exibiu as vistosas armaduras, arcabuzes e vinho e os quéchuas falaram abertamente da sua civilização admitindo a existência de ouro, prata e pedras preciosas. Algumas semanas depois, Pizarro voltava ao Panamá com artefactos de metal e tecidos finos indígenas, algumas lamas e vários jovens índios destinados ao serviço de intérpretes, prova mais que suficiente para fundamentar nova expedição.

Prosseguindo os seus objetivos, Pizarro voltou a Espanha e diante da corte de Carlos V fez a apologia dos esplendores do Peru fazendo coro com os relatos ainda mais auspiciosos de Hernán Cortés, que regressava da conquista do México. Em 26 de Julho de 1529 a rainha assinou a «capitulación» que autorizava Pizarro a conquistar e explorar as riquezas do Peru nomeando-o Governador e Capitão- Geral.

Em 1530, Pizarro reuniu-se no Panamá com Almagro e rumou para o sul fundando, em Setembro de 1532, o primeiro estabelecimento hispânico na costa do Peru denominado San Miguel de Piura, formando uma força de conquista com sessenta e dois cavaleiros e cento e seis infantes com a qual avançou continente adentro na "Conquista do Império Inca".

No dia 16 de Novembro de 1532, Pizarro, com a sua pequena força expedicionária, chegou a Cajamarca onde, deixando a maior parte dos seus homens fora da cidade, aceitou o convite do imperador Atahualpa para um jantar no qual fez assassinar a sua pequena guarda de honra e aprisionou o próprio imperador. Seguiram-se chacinas medonhas de todos os que ousavam aparecer-lhes à frente. No ano seguinte, Pizarro invadiu Cuzco e derrubou o rei local.

Considerando Cuzco muito distante e muito acima no planalto, Pizarro fundou a cidade de Lima no dia 18 de Janeiro de 1535, prosseguindo em grandes chacinas pois as forças quéchuas (do Inca) tentaram retomar Cuzco. Derrotadas finalmente por Almagro, julgou-se este em condições de tomar a cidade para si, gerando uma disputa com Pizarro que o derrotou e executou ali mesmo, em Cuzco. Corria o ano de 1538.

Zangados, partidários de Almagro foram ter com Pizarro que entretanto estava em Lima, assassinaram-no em 26 de Junho de 1541, decapitaram o cadáver e fizeram-no arrastar pela Plaza Mayor até ficar em pedaços.

Como já disse, encontra-se depositado em ossário exposto na Catedral de Lima.

Do outro lado da Plaza Mayor, foi há pouco tempo apeada a estátua que o representava, procedimento que muito irritou a UNESCO cujos membros não têm seguramente antepassados importunados por Francisco Pizarro González, esse autêntico Stalin do séc. XVI.

Sim, é assim mesmo: quem com ferro mata, com ferro morre.

E mais quê? Já lá vamos…

Outubro de 2017

Barranco, Lima, Peru, 12 de Outubro de 2017.jpg

 

Henrique Salles da Fonseca

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2006
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2005
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2004
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D