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A bem da Nação

PAUL

 

 

O exemplo da fábula abaixo,

Do poeta La Fontaine,

Aplica-se perfeitamente,

Acho,

Ao Jardim da nossa Madeira,

Ou vice-versa

À Madeira do nosso Jardim,

Este, da Raposa afim,

Em subtileza e matreirice,

Com sua cauda protectora

Contra qualquer varejeira,

Que o sangue lhe cobice

O que é grande vigarice.

Quanto ao Ouriço dos picos,

Que se propõe ajudar

Os meneios ricos

Do Jardim sem escrúpulos,

Esse é qualquer um,

Cem mil, nenhum,

Dos bons samaritanos

Que os há sempre, nestes casos.

 

 

 

«A Raposa, as Moscas e o Ouriço»

No rasto do seu sangue, dos bosques hóspede antigo,

Raposa esperta, subtil e manhosa,

Por caçadores ferida, e caída na lama

Pegajosa,

Atraiu outrora o parasita alado

Que por nós foi Mosca chamado,

O qual logo a foi sugar

Sem se fazer rogar,

E lhe chamou um figo.

Ela acusava os Deuses, e achava indecoroso

Que a Sorte a tal ponto a quisesse afligir,

E a fizesse de pasto às Moscas servir.

“O quê! Lançar-se sobre mim, o mais hábil,

O mais asqueroso,

De todos os hóspedes da floresta mesma!

Desde quando as raposas são um tão bom repasto?

E de que me serve a cauda? Será um peso inútil?

Ou fútil?

Vamos, que o Céu te confunda, importuno animal!

Porque não te lanças tu sobre o trivial?”

Um Ouriço da vizinhança,

Nos meus versos personagem inédita,

Quis libertá-la da malvadez

De um povo tão cheio de avidez:

“Eu vou com os meus dardos enfiá-las às centenas,

Vizinha Raposa, e acabar com as tuas penas”.

“Livra-te, respondeu esta, amigo, de o fazer:

Deixa-as, suplico-te, acabar de comer.

Estes animais estão bêbados: um novo batalhão

Sobre mim se abateria, mais áspero e comilão.”

Demasiados comilões topamos cá na Terra:

Uns são cortesãos, outros magistrados.

Aristóteles aos homens este apólogo explicaria

Sem fantasia:

Os exemplos são vulgares,

Sobretudo num país como o nosso.

Quanto mais cheios os homens estão,

Menos importunos são.

 

É ou não verdade, sim,

Que o alegre Jardim

Anda mordido actualmente

Pelas Moscas impertinentes,

Absorventes,

Que o querem sugar avidamente

Zelosas dos bons costumes?

Ó Numes!

Pois não são também assim

Como o Jardim

As Moscas castigadoras,

Sugadoras,

Mistificadoras,

Com rabos-de-palha

Por onde calha?

E os Ouriços prestimosos

Querendo ajudar,

E apenas ajudando

A chafurdar,

A levantar mais poeira,

Rosnando, lembrando,

Qual curral de Augias a necessitar

De uma força hercúlea para o limpar…

Mas não há maneira.

Que quanto mais se chafurda na lama

Mais mal ela cheira,

Segundo a fama.

E segundo o fabulista francês,

Na sua moral de artista,

- De fadista se for português –

É melhor ignorar,

Deixar assentar,

Para assim impedir

Que os grandes comilões

Renovem os stocks das suas provisões.

Mas só para rir.

 

 Berta Brás

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