Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

A bem da Nação

PÁGINAS DESCONHECIDAS DA HISTÓRIA PORTUGUESA - 2

 

 

“A guerra dos outros”

 

Mais de 2000 soldados europeus mortos, uma derrota copiosa em todas as frentes, a cedência aos ingleses do comando operacional após o desastre do Verão austral de 1917: a linha de fronteira traçada pelo curso do Rovuma tornou-se “o mais fantástico atoleiro da história militar portuguesa moderna”, na opinião do historiador francês René Pélissier, especialista no estudo do passado das ex-colónias portuguesas em África. Cada relatório, cada fonte, militar ou civil, portuguesa ou alemã, oferece visões desencontradas sobre os custos humanos da guerra entre os soldados enviados da metrópole. Mas há nesta contabilidade um valor aproximado, ao menos. O que se torna impossível em relação ao balanço das vítimas entre a população local. Na Conferência de Paz, Portugal avançou com uma estimativa de 120 mil mortos entre os habitantes do Norte de Moçambique, mas é provável que haja aqui algum exagero destinado a inflacionar o valor da indemnização que se estava a pedir à Alemanha.

 

 

No final da guerra, Gavicho de Lacerda, administrador da Zambézia, dizia que o seu prazo tinha fornecido 25 mil carregadores ao exército e desses, em 1919, havia ainda cinco mil por repatriar. Estavam "em tal estado que fazia horrores olhar para eles"

Certo é que morreram muitas dezenas de milhar de nativos moçambicanos. Menos os que vestiram a farda do exército português e integraram as companhias indígenas, muitos mais os que foram capturados nas suas aldeias natais e obrigados ao trabalho forçado de carregador. Carlos Selvagem, um alferes que integrou a terceira expedição, em 1916, olhava-os “com piedade, angulosos, nus, esquálidos, tiritando de frio debaixo dos pobres farrapos da manta, aglomerados em rebanho nos seus cercados de capim, deslocando-se lentamente, em lentas filas de comboios, ajoujados sob os fardos que os esmagam, e passivos, sonâmbulos, mecânicos, o olhar ausente, a face vaga, como quem vaga no indefinido dum sonho remoto, duma remota visão de palhotas e aldeias natais”. 

 

Quantos terão morrido de fome, de sede, de exaustão, de maus-tratos é impossível saber. Não faziam parte da contabilidade administrativa do exército. “Não são homens porque não têm nome; também não são soldados, porque não têm número. Não se chamam, contam-se. Formam-se a varapau, põe-se-lhes uma carga à cabeça e pronto”, lamentaria o sargento Cardoso Mirão, da expedição de 1917.

 

Ao infortúnio dos carregadores (só no ano final da campanha foram recrutados 30 mil para apoio das tropas britânicas a operar em Moçambique) junta-se a violência e as razias feitas por exércitos famintos em marcha nos campos e armazéns dos aldeões. Com a presença do exército no Norte de Moçambique, a Companhia do Niassa tratou finalmente de cobrar impostos aos macondes, usando métodos que arrepiavam até a sensibilidade dos soldados embrutecidos pela guerra. “Um dia, em Mocímboa, vi chegar uma estranha procissão: à frente e atrás, um sipaio [polícia indígena], no meio uma longa bicha de mulheres, que foram metidas num redil de arame farpado. Surpreendido perguntei a significação daquilo. Era a cobrança coerciva do m’soco [imposto de palhota]. Como os pretos não pagavam, encarceravam as mulheres até que os respectivos maridos, saudosos, as viessem resgatar pagando o almejado m’soco”, lembraria Américo Pires de Lima, um alferes médico. As sublevações indígenas, no Barué, perto da Beira, ou no planalto dos macondes foram duramente reprimidas. No Norte de Moçambique, entre Abril e Junho de 1917 foram incendiadas mais de 150 povoações maconde, na contabilidade de René Pélissier.

 

Moçambique e os moçambicanos foram sem dúvida as maiores vítimas da guerra, mas nem isso motivou qualquer interesse entre a comunidade académica sobre o tema. António Sopa, historiador moçambicano da época contemporânea, explica este alheamento dizendo que a I Guerra Mundial é vista como “uma guerra dos outros”. Sem fontes escritas, com os arquivos militares e coloniais transportados para Lisboa, resta a memória oral como objecto de estudo. Ou a ficção, fácil de prosperar numa guerra entre europeus errantes pela selva. O escritor João Paulo Borges Coelho recuperou esse tempo para escrever o romance que lhe valeria o Prémio Leya de 2009, O Olho de Hertzog. E pouco mais.

 

(continua)

 

 Berta Brás

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2018
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2017
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2016
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2015
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2014
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2013
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2012
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2011
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2010
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2009
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2008
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2007
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2006
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D
  209. 2005
  210. J
  211. F
  212. M
  213. A
  214. M
  215. J
  216. J
  217. A
  218. S
  219. O
  220. N
  221. D
  222. 2004
  223. J
  224. F
  225. M
  226. A
  227. M
  228. J
  229. J
  230. A
  231. S
  232. O
  233. N
  234. D