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A bem da Nação

PÁGINAS DESCONHECIDAS DA HISTÓRIA PORTUGUESA - 1

 

 

Mandou-me este email o meu filho Ricardo: «A Grande Guerra que Portugal quis esquecer». Guardo-o no meu blog por devoção, por amor à verdade, e porque nessa história participou, em acção e relatos, o avô do Ricardo, (e da Paula e do João),  Gavicho de Lacerda.

 

Penso que a busca da verdade procurada pelo Público, e atestada na internet  - htt://www.publico.pt/culturaipsilon.noticia/a-grande-guerra-que-Portugal-quis-esquecer-1664212 é oportuna porque repõe uma história de que só se conheciam os elementos de glória - simbolizados na estátua de Mouzinho de Albuquerque, contendo os baixos relevos laterais sobre a submissão de Gungunhana em Chaimite, e colocada em frente à Câmara Municipal de Lourenço Marques, com a catedral a um dos lados da bela praça – (estátua que, naturalmente,  seria retirada, com a descolonização).

 

Ao descrever os sofrimentos dos milhares de soldados portugueses enviados para as colónias cobiçadas pelos alemães, em terras inóspitas e nas condições mais míseras pelo abandono e desinteresse dos governos centrais, pretende denunciar o dolo na ocultação dessa verdade que uma vez mais nos aponta como um povo de inércia e desrespeito pelo ser humano, na pelintrice de uma governação de abandono  e incúria, numa guerra de África inglória, votada ao esquecimento porque nos envergonhava.

Fez bem o Público em enviar o repórter Manuel Carvalho (Palma, Norte de Moçambique) e o fotógrafo Manuel Roberto para a reportagem. A busca da verdade é imprescindível. Mas esta vem contaminada com a ambição de denegrir, de ridicularizar as acções do Governo – neste caso de Passos Coelho – na prestação, por este, da homenagem aos mortos da Primeira Grande Guerra, na sua “festa” de centenário – ignorando os mortos em maior quantidade nas terras de África, que ficaram para sempre votados ao esquecimento.

Condenam-se todos os governos do nosso miserabilismo e da nossa vaidade de defensores do passado heróico, denunciam-se as nossas crueldades e avidez de exploradores colonialistas. Com requinte. Para denegrir, defendendo esse princípio fraterno – e de autodefesa - das descolonizações.

Os povos europeus que mataram com as armas poderosas da sua inteligência e da sua aptidão para o trabalho, são ignorados na reportagem. Ainda não se havia chegado às câmaras de gás. Desprezo por nós, que não inventámos as câmaras de gás, Fernões Mendes Pintos da sobrevivência pelintra, cruel ou humilde, do nosso trajecto pelo mundo, condenados a morrer ignorados, tais como outrora os desaparecidos nos naufrágios ou dizimados pela doença ou pela luta. Mas estes não importam, naturalmente. O relevo vai todo para os que durante a primeira Grande Guerra, não morreram nas trincheiras da batalha de La Lys, mas sim numa África de condições ignominiosas. Foram ambos igualmente desconhecidos na morte, mas os primeiros tiveram direito aos túmulos e estátuas de soldados desconhecidos, nos vários países, glorificados nas comemorações. Para os das fronteiras e territórios coloniais portugueses, apenas o silêncio da vergonha. Salvo hoje, em que a reportagem do Público os vem lembrar, com o afinco da autodefesa, que essa nunca nos envergonhará, Fernões Mendes Pinto de todas as sobrevivências.

 

«A Grande Guerra que Portugal quis esquecer»

Manuel Carvalho (Palma, Norte de Moçambique) e Manuel Roberto

«1914 - 2014 - I Grande Guerra»    

«Há 100 Anos»

 

Na Grande Guerra de 1914-18, o exército português sofreu a sua maior derrota em África desde Alcácer Quibir. No Norte de Moçambique morreram mais soldados portugueses do que na Flandres. Não tanto pela razia das balas alemãs. Mais pela fome, pela sede, pela doença e pela incúria. Minada pela vergonha, a I Guerra em Moçambique acabou votada ao esquecimento. Não tinha lugar numa nação que até 1974 sonhava com um império ultramarino. Numa viagem de mais de 2500 quilómetros, o PÚBLICO foi à procura dessa guerra sem rosto. Os cemitérios dos soldados foram profanados ou são lixeiras, mas o milagre da tradição oral conservou as suas memórias até hoje.

 

No dia 26 de Junho o primeiro-ministro de Portugal foi ao cemitério militar de Richebourg, no Norte da França, “prestar a nossa homenagem colectiva” aos soldados que morreram na Primeira Guerra Mundial. Se em vez de ter escolhido o palco europeu da guerra e optasse pelo cemitério de Palma ou o ossário de Mocímboa da Praia, no Norte de Moçambique, dificilmente Passos Coelho teria condições para manifestar o "respeito e sentimento de enorme orgulho" que o país supostamente "tem por todos aqueles que se sacrificaram ao serviço da nação". Porque nesses lugares remotos não encontraria cemitérios com cruzes brancas, alinhadas e conservadas, a recortarem o verde da paisagem. Descobriria sim lápides a emergirem entre o lixo que alimenta galinhas e cabras, tumbas engolidas pelo avanço da selva, túmulos profanados com os restos dos esqueletos dos combatentes expostos ao ar, campas onde só com esforço se consegue ler o nome dos que morreram em Quionga, em Negomano ou no território dos Macondes, nas margens do rio Rovum.

 

O historiador Marco Arrifes escreveu que “o soldado desconhecido de África é bem mais desconhecido que o da Flandres” e desde os dias da guerra até hoje não faltam argumentos para comprovar a sua tese. Em África combatia-se, de acordo com a ideologia e o direito da era colonial, pela defesa do território nacional. Em África, principalmente no norte de Moçambique, morreram mais soldados portugueses do que nas trincheiras da Flandres, não tanto pelo efeito das balas mas mais por causa da impreparação, da incúria, da fome e da sede, da loucura das febres, do paludismo e da disenteria. Mas nem isso bastou para que a Grande Guerra em África tivesse merecido a atenção que os historiadores, os políticos e a generalidade da opinião pública devotaram ao Corpo Expedicionário Português na Europa. Até hoje, as campanhas em África permanecem envolvidas numa relativa aura de esquecimento colectivo. Só muito recentemente uma nova geração de historiadores decidiu desenterrar o tabu e verificar a dimensão da tragédia que aconteceu em Angola e, principalmente, em Moçambique.

 

Numa viagem de mais de 2500 quilómetros pelas zonas remotas da província de Cabo Delgado, na linha de fronteira do Rovuma ou já no outro lado do planalto dos macondes, em território da Tanzânia, o PÚBLICO foi à procura do que resta dessa guerra. Partimos de Pemba, a Porto Amélia dos tempos coloniais, subimos a Mocímboa da Praia e a Palma, as bases das principais expedições das tropas nacionais entre 1916 e 1917; visitámos Quionga que fora ocupada pelos alemães em 1894 e reconquistada sem um tiro em 10 de Abril de 1916; subimos a Namoto, na margem do Rovuma; fomos a Mueda, símbolo do orgulho dos macondes e lugar simbólico do início da Guerra Colonial, atravessámos a estrada de quase 200 quilómetros de terra batida, em plena selva, que a liga a Negomano, onde as tropas portuguesas sofreram uma pesada derrota em 25 de Novembro de 1917; cruzámos a fronteira através de uma ponte moderna, absurda, que liga duas picadas entre o nada e lugar nenhum e subimos ao planalto dos macondes do lado da Tanzânia para visitar o velho forte alemão de Nevala, que os portugueses ocuparam durante um mês; passámos em Mahuta onde uma emboscada a 4 de Outubro de 1916 tirou a vida a 32 soldados e regressámos a Moçambique via Kilambo e Namoto.

 

Ainda hoje as memórias da Grande Guerra permanecem guardadas nessas localidades pela tradição oral. Amisse Juma, 76 anos, sabe identificar o lugar onde se instalou o quartel-geral da quarta expedição, em Mocímboa da Praia. Martins Ibrahim Musse, 65 anos, sabe relatar as histórias dos soldados cujos restos mortais permanecem no cemitério de Palma e lembra-se do dia em que muitos foram desenterrados e transportados para Portugal. O mzê (senhor de idade) Assani Abdel Remani Kimombo desconhece ao certo a sua idade mas consegue detectar entre o mato as trincheiras que em 1916 as tropas portuguesas cavaram em Namoto para se defenderem das investidas alemãs que partiam do outro lado do Rovuma; Abdel Carlos John é capaz de abrir caminho entre a selva com uma catana para, a alguns quilómetros da aldeia, nos levar ao túmulo de um soldado alemão cuja cúpula, garante, foi derrubada por um elefante. E em Negomano, na fronteira entre o Cabo Delgado e o Niassa, Santos Salimo Mundogwan, 61 anos, conserva as memórias que o seu avô, o régulo Malunda, lhe transmitiu do terrível combate que em 25 de Novembro de 1917 opôs portugueses e alemães numa das orlas da sua aldeia, no preciso lugar onde o Lugenda se funde com o Rovuma. Santos Salimo Mundogwan recorda-se até do nome do major Teixeira Pinto, o comandante das tropas nacionais em Negomano que perdeu a vida com os primeiros tiros do cerco alemão.

 

O regresso a esses lugares e a recuperação dessas memórias ajuda a perceber o destino das expedições. Obrigadas a defender uma fronteira com 720 quilómetros, tendo de cruzar um território muito maior do que Portugal, num clima abrasador onde, no Verão, a chuva potencia níveis de humidade acima dos 90%, numa região sem estradas que obrigavam as colunas a ter de abrir caminho entre a selva, sujeitos a permanentes ataques de feras e de enxames de mosquitos, os soldados portugueses foram sujeitos a uma missão impossível. Sem treino específico, sem equipamento ajustado aos rigores do mato africano, sem linhas de abastecimento que garantissem comida e água, sem medicamentos nem hábitos de higiene, tornaram-se presas fáceis de um exército alemão com menos homens mas liderado por um génio militar, Paul Emil von Lettow-Vorbeck, cujas tácticas de guerrilha em movimento inspirariam todo o curso da guerra não-convencional do século XX, de Che Guevara a Nguyen Giap, de Amílcar Cabral a Samora Machel.

 

A zona do conflito, entre os rios Lúrio e o Rovuma, era visitada pelos portugueses desde os princípios da expansão, mas a sua posse efectiva só se consumaria em Fevereiro de 1887, quando o coronel Palma Velho, governador de Cabo Delgado, conquista a baía de Tungue ao sultão de Zanzibar. De face voltada para a Índia, mas culturalmente próxima da esfera do Islão, a costa era nessa época, como hoje, um mosaico de povos que viviam da pesca e da agricultura familiar. Mais para o interior dominavam os macuas, a sul do Lúrio, e os macondes e, já nos limites do Lago Niassa, os ajauas. Para os soldados portugueses, na sua esmagadora maioria provenientes das aldeias do interior, o Norte de Moçambique aparecia-lhes como uma terra inóspita, maldita, povoada de leões que entravam noite dentro nos acampamentos e devoravam carregadores indígenas ou doentes dos hospitais de campanha, de formigas carnívoras, de gente que comia ratos dos arrozais e dançava em trejeitos hedonistas noite fora em batucadas 

 

Toda a área de conflito tinha sido concessionada à exploração da Companhia do Niassa, em 1890, mas a obra colonizadora desta entidade tinha sido nula. Os seus métodos “eram tudo o que havia de mais simples: nem escolas, nem missões, nem hospitais, nem estradas. A sua actividade cifrava-se na cobrança dos direitos da alfândega e no m’soco”, o imposto de palhota, constatou o médico Américo Pires de Lima na sua memória Na Costa de África. Poder-se-ia pensar que a experiência militar dos portugueses em África, coroada com missões do tenente Valadim no Niassa, onde morreu em combate em Janeiro de 1890, com a estratégia baseada na violência dos “Centuriões” comandados por António Enes, ou as façanhas de Mouzinho de Albuquerque na batalha de Marracuene, de Chaimite, ou com a prisão de Gungunhana, em 1895, colocaria as tropas portuguesas numa situação de vantagem face à curta vivência dos alemães em África, que se tinham estabelecido na região dos Grandes Lagos apenas em 1885. Puro engano.

 

Quando a primeira expedição comandada pelo coronel Pedro Francisco Massano de Amorim, director militar das Colónias, chega a Porto Amélia e desembarca do Durhan Castle, no dia 1 de Novembro de 1914, com 50 oficiais, 77 sargentos, 1400 soldados e 322 solípedes era já possível perceber a dimensão do improviso. A falta de objectivos, a ausência de preparação militar ou a carência de bens cruciais como medicamentos iriam comprometer o esforço das tropas expedicionárias. Massano de Amorim lamentaria mais tarde no seu relatório de campanha o seu destino: “Sem caminho-de-ferro, que aqui é considerado um bluff, sem linhas telegráficas, sem estradas, sem força militar… com ratoneiros e bandidos em vez de polícias e sipaios, sem protecção de espécie alguma aos indígenas… não é para admirar que à data de chegada da expedição do meu comando aos territórios da Companhia do Niassa os postos administrativos fossem uma vergonha, os militares uma irrisão, a ocupação uma mistificação, a cobrança de impostos uma violência, a subordinação do gentio uma utopia e a viação um esforço grosseiro”.

 

A expedição, baseada na actual Pemba, capital da província de Cabo Delgado, passaria um ano em Moçambique dedicada a tentar suprir as carências de mobilidade que comprometiam a acção de um exército moderno, sujeito a deslocações de centenas de quilómetros com toneladas de víveres e equipamentos. O seu legado para a expedição que se lhe seguiu consistiu na instalação de uma linha telegráfica e na construção de uma estrada que ligaria Porto Amélia a Mocímboa do Rovuma, com uns 450 km de extensão. Mas mesmo a permanência na belíssima baía de Pemba, num ecossistema e num clima apesar de tudo mais favorável que os de Palma ou de Mocímboa da Praia, não evitaram que, de acordo com o historiador António José Telo, a expedição tenha sofrido “21% de baixas por doença nos primeiros seis meses, sem entrar em combate e mesmo sem sair de Porto Amélia”.

 

Nem esses dados alarmantes serviram de lição. Nada mudou na preparação das expedições seguintes, que depois de Março de 1916 tinham de viver em estado de guerra declarada com os alemães. Pelo contrário, a segunda e terceira expedições, com mais de seis mil soldados da metrópole, acentuariam os erros da primeira. Numa das sessões secretas da Câmara de Deputados e do Senado da República destinadas a discutir a situação da guerra, que decorreram entre 11 e 31 de Julho de 1917, o líder do Partido Unionista, Brito Camacho, daria conta da lassidão e negligência com que as missões eram preparadas: “Não é segredo para ninguém que se têm mandado tropas para a África como se não mandam reses para o matadouro”.

 

(continua)

 

 Berta Brás

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