OS PRIMOS DOS DEUSES
Durante a II Grande Guerra, no interior de Portugal, a paz confundia-se com a pasmaceira.
Foi a esse «bulício» que o então jovem médico-cirurgião se viu destinado por colocação num hospital(eco) em que dava consultas e fazia pequenas cirurgias. Tudo na calma e com o Senhor Doutor a grangear prestígio de quase-Deus.
Mas, certa vez, ocorreu grande aflição com um doente que já não aguentaria a demora e os solavancos até ao Hospital Regional.
O Doutor não exitou em o operar mas o doente morreu entre as suas mãos e no fio do bisturi. Chocado com a morte do doente, poisou os instrumentos cirúrgicos, retirou a máscara, despiu a bata, despediu-se de quem o rodeava, meteu-se no carro e … dedicou-se à agricultura. Não aguentara o choque de, afinal, não ser quase-Deus nem, sequer «primo dos deuses».
Quando o conheci já ele era agricultor e pai dos meus amigos João e Zé. Viveu longa e tranquilamente e eu continuo hoje– passados oito lustros da sua ida para a outra dimensão – a crer que ele nunca deixou de se considerar «primo dos deuses».
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Durante seculos, desde o topo da pirâmide social até ao nível onde chegava o dinheiro, os pacientes de maleitas e doentes de males procuravam alívio ou cura junto dos médicos, curandeiros, endireitas, xamãs e charlatães; durante séculos, a ciência, o empirismo e a espiritualidade andaram de mãos dadas, mas, há relativamente pouco tempo, a Ciência adquiriu direito a Maiúscula e a glória dos médicos distribuiu-se por outros cientistas. Acabava o reinado exclusivo daqueles que, em terra de cegos, só tinham um olho.
Os médicos chegaram a 1974 e ao serviço Nacional de Saúde (SNS) para serem levados a substanciais quebras de facturação e passando de uma clientela pagadora, sofredora e grata para uma multidão exigente e ingrata.
Mas não há mal que sempre dure e eis que chegam os privados a investir na Saúde, a «roubar» médicos (e não só) ao SNS e a mostrarem que um doente saído vivo de um hospital privado fica mais barato do que o homólogo saído do público.
Mistérios da gestão…
Entretanto, nos telejornais, os bombos da festa são as Ministras e outros responsáveis da Saúde mas, também entretanto, os telejornais informam que em Portugal há triplo de seguros de saúde em relação ao resto da Europa. Dá para perguntar se não anda por aí alguma mão invisível a manipular-nos…
Última questão: quem são hoje os «primos dos deuses»?
Novembro de 2025
Henrique Salles da Fonseca
