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A bem da Nação

OS POETAS E OS OUTROS...

 

 

 

Há um poeta francês que distingue «les gens d’un certain âge et les gens d’un âge certain». Só um poeta consegue distinguir que os engenheiros têm sempre «un âge certain» mas só os namoradeiros chegam a ter «un certain âge».

 

 

Só, pois, os que hoje têm «un certain âge» se podem lembrar das charlas que Vinícius de Moraes fazia na televisão portuguesa e que nós, os não engenheiros, ouvíamos com algum espanto. Palco do Teatro Villaret apenas com uma cadeira e um microfone. Entrava Vinícius com o seu violão e uma garrafa de whisky cheia que poisava junto da cadeira. E o improviso começava com uns sons dedilhados sem grande nexo, daqueles que só servem para acompanhar tudo o que nas redondezas apareça a precisar de companhia. Passado meio século, pergunto-me hoje se eram os sons do violão que acompanhavam as palavras do poeta ou se eram as palavras que acompanhavam o dedilhado... Mas de uma coisa eu tenho a certeza: havia uma total concordância entre os sons violados e as palavras whiskadas, tudo sem grande nexo. É que a erudição etilizada faz um género que muitos apreciam e o programa da RTP – por certo que à falta de alternativa – alcançava elevados níveis de audiência.

 

E o que me ficou dessas charlas? Pouco. Ficou-me a convicção de que a própria Censura se deixaria embalar pela toada de grande vacuidade substantiva e que a única mensagem que Vinícius então nos trouxe foi a de que havia mundo para além do formalismo sorumbático ou do humor formal que o Regime nos ditava.

 

Eis por que, na memória daquela poética circunstância televisiva, eu hoje me posso considerar «quelq’un d’un certain âge» que se lembra de que até meia garrafa, a poesia de Vinícius era boa e que a partir de meio era gira.

 

Ficou-me ainda o desinteresse pela leitura dos seus poemas que, afinal, só poderão ser devidamente apreciados quando bem whiskados, o que não farei pois o whisky faz-me caspa.

 

Mas, para não sairmos daqui sem um cheirinho da sua obra tão aplaudida, procurei algo que me pareceu escrito antes do meio da garrafa:

Não Comerei da Alface a Verde Pétala

Não comerei da alface a verde pétala
Nem da cenoura as hóstias desbotadas
Deixarei as pastagens às manadas
E a quem maior aprouver fazer dieta.

 

Cajus hei-de chupar, mangas-espadas
Talvez pouco elegantes para um poeta
Mas peras e maçãs, deixo-as ao esteta
Que acredita no cromo das saladas.

 

Não nasci ruminante como os bois
Nem como os coelhos, roedor; nasci
Omnívoro: dêem-me feijão com arroz

 

E um bife e um queijo forte, e parati
E eu morrerei feliz, do coração
De ter vivido sem comer em vão.

 

Sóbrio, este é para quem tenha «un âge certain».

 

Mas nem todos os poetas se inspiram nos greens da Escócia ou nos voos do Famous Grouse...

 

 

Mário Quintana, o poeta da bondade, não precisa de prosas explicativas.

Os poemas

Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde

e pousam no livro que lês.

Quando fechas o livro,

eles alçam voo como de um alçapão.
Eles não têm pouso nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem.

E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti…

Outras, de que gosto especialmente:

Relógio

O mais feroz dos animais domésticos
é o relógio de parede:
conheço um que já devorou
três gerações da minha família.

Poeminho do contra

Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão…
Eu passarinho!

 

Inscrição para um portão de cemitério

 

Na mesma pedra se encontram,
Conforme o povo traduz,
Quando se nasce – uma estrela,
Quando se morre – uma cruz.
Mas quantos que aqui repousam
Hão-de emendar-nos assim:
"Ponham-me a cruz no princípio...
E a luz da estrela no fim!"

 

Uma conversa prosaica para acabar:

 

Simultaneidade

 

 – Eu amo o mundo! Eu detesto o mundo! Eu creio em Deus! Deus é um absurdo! Eu vou me matar! Eu quero viver!
 – Você é louco?
 – Não, sou poeta.

 

Mas esta prosa de Verão já vai longa e o que aqui falta fica para o Outono...

 

Setembro de 2014

 

 Henrique Salles da Fonseca

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