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A bem da Nação

OS DISCURSOS QUE REGISTEI - 1

 

Parte 3

ELOGIO FÚNEBRE DE D. MANUEL TRINDADE SALGUEIRO

 

POR

MANUEL DE ALMEIDA TRINDADE

 

2) O INTELECTUAL

 

Este homem, dotado de tão fina sensibilidade, foi também, no mais amplo significado do termo, um intelectual. Para quem o conhecesse de perto não seria, aliás, fácil descobrir qual das faculdades alcançava nele o predomínio: se a cabeça, se o coração. Em todo o caso a vocação intelectual deixou nele bem gravada a sua marca.

 

Cedo se revelou o seu amor ao estudo e a capacidade de aprender.

 

Pena seria se um talento, que se apresentava tão promissor, houvesse de ficar desaproveitado, como certas pedras preciosas que nunca chegam a espelhar o seu brilho por falta de lapidador idóneo, capaz de facetá-las. O que salva muitas vezes estes valores escondidos é a ambição – feliz e santa ambição! – de uma mãe que deseja para os seus filhos uma situação que ela porventura não teve. As mães são capazes de sacrifícios sem peso nem medida.

 

O exemplo vem já do Evangelho na pessoa da mãe de Tiago e de João: «Senhor, fazei com que estes dois meus filhos se sentem um à Vossa direita, outro à Vossa esquerda, quando se instaurar o Vosso reino».

 

A Providência serve-se destas preocupações, às vezes demasiado terrestres, para encaminhar os homens e as coisas para os seus fins altíssimos. Ela se encarregará, através das purificações do sofrimento – o «cálix» de que Jesus falou, em resposta, à mulher de Zebedeu – de dar o verdadeiro sentido ao fruto de um desejo materno.

 

Nesse já longínquo ano de 1911, em que o jovem Trindade Salgueiro terminou o curso de instrução primária, não consta que estivesse muito vulgarizada a instituição de bolsas de estudo, como acontece hoje por toda a parte, para permitir a ascensão de valores que, doutro modo, jamais se revelariam. Nessa altura, se isso acontecia, era por excepção. A Mãe, a qual não desejava ter um filho que viesse a morrer de naufrágio, como havia morrido o marido pescador, teve de suportar as consequências da sua generosa ambição. No testamento espiritual em que o Arcebispo de Évora espelhou a sua alma, há uma discreta alusão a esses primeiros anos em que, para o seu «Menino» ter uma posição na vida, muito trabalhou e sofreu a pobre Mãe.

 

Em Outubro de 1914, depois de ter concluído o 3.º ano no liceu de Aveiro, Trindade Salgueiro entrou no Seminário de Coimbra.

 

Havia completado, dias antes, 16 anos de idade. Não se podia dizer que fosse uma vocação tardia, mas já não era uma vocação de infância. Decidia-se a iniciar a vida eclesiástica precisamente na idade mais difícil – a idade em que os jovens começam a desabrochar para a vida afectiva e a deixar-se tocar pelo encanto e pela sedução do amor humano.

 

E decidia-se também numa época da vida da Igreja em que esta não prometia vida fácil a quem quisesse servi-la.

 

A Diocese de Coimbra, que nessa altura estendia a sua jurisdição até ao Vouga, englobando dentro do seu território a cidade de Aveiro e a populosa vila de Ílhavo, encontrava-se na situação de sede vacante. O bispo Bastos Pina, velho roble gigantesco, acabara por ceder ao peso dos anos e das desagradáveis surpresas que trouxera a mudança do regime. Era uma hora amarga aquela que atravessava a igreja em Portugal. A Lei da Separação, entre outras arbitrariedades cometidas, mandara encerrar todos os Seminários Menores. Dos Maiores a Lei apenas permitia que cinco continuassem abertos: deviam, porém considerar-se a funcionar em casa alheia, da qual haviam consequentemente de pagar renda, pois o Estado tinha confiscado em benefício seu a propriedade deles.

 

Muitos pais, que antes da proclamação do novo regime tinham incitado – nem sempre porventura com recta intenção – os seus filhos a seguirem a carreira eclesiástica, agora, perante os vexames e o cerceamento das legítimas liberdades a que eram sujeitos os católicos em geral e o clero em particular, tiveram medo.

 

O Seminário de Coimbra contava em 1910 mais de duas centenas de alunos; pouco tempo depois, via reduzido para 35 o número dos candidatos ao sacerdócio.

 

Antes de 1910 ninguém teria cometido a ousadia de pensar que fosse possível em Portugal uma Igreja livre, a qual, para ocorrer às suas necessidades, houvesse apenas de viver da generosidade dos fiéis. O meio século já decorrido é a demonstração de que é possível não só a existência de uma Igreja livre, num clima de mútuo respeito perante o Estado, mas também de uma Igreja viva e renovada.

 

Profetas da desgraça, porém, fora e dentro do País, auguravam para a Igreja, senão o desaparecimento, pelo menos um declínio fatal. Quem havia de nos dizer que, cinquenta anos depois, um Sucessor de Pio X havia de atravessar o Atlântico para, a convite das Nações Unidas, dirigir, da sede destas, a todos os povos não uma simples mensagem de paz, mas um autêntico código que regule a convivência pacífica entre as Nações?

 

Poucos seriam capazes destas previsões em Outubro de 1914, quando o jovem Trindade Salgueiro entrou no Seminário de Coimbra para seguir a carreira eclesiástica. Ser padre, quando tantos, receosos do futuro, renunciavam a sê-lo abandonando o Seminário, terá parecido uma loucura. Quem sabe se não terá sido precisamente esse espectáculo de abandono e o rosto da Igreja desfigurado pela perseguição, que acordou a vocação sacerdotal de Trindade Salgueiro, como a de alguns outros heróis de há cinquenta anos?

 

No ano seguinte tomava posse da Diocese o sucessor de Basto Pina. Era um antigo aluno da Faculdade de Direito de Coimbra, Governador do Bispado do Porto durante o exílio de D. António Barroso. Chamava-se D. Manuel Luís Coelho da Silva. Não é sem comoção que pronuncio este nome. Ele suscita no meu espírito um movimento de ternura e de gratidão. Conheci-o já no declínio da vida. O homem enérgico, que afrontou com indómita coragem inúmeras dificuldades, era nesta altura um leão moribundo. Quando a vida dele se finava, a minha apenas desabrochava.

 

Trindade Salgueiro encontrava-se na geração do meio: aquela que pôde colher a lição do ínclito Prelado e transmiti-la, aureolada de admiração e respeito, àqueles que vieram depois.

 

Seria difícil dizer até onde a sua alma ficou marcada pela impressão digital da grande personalidade do bispo Coelho da Silva. Frequentes vezes, em conversa particular ou em discurso público, lhe vinha à mente a lição da vida e os nobres exemplos do Bispo de Coimbra, tão fortemente a sua figura lhe tinha ficado gravada no coração.

 

Depois da primeira Grande Guerra, a Alsácia voltou à posse da França. O governo francês deu-se pressa em restaurar as antigas faculdades de Teologia de Estrasburgo. Para atrair escolares, ofereceu bolsas de estudo a alunos estrangeiros. Trindade Salgueiro, ordenado sacerdote em 1921, foi indigitado pelo seu Prelado para concorrer a uma dessas bolsas. No Outono de 1922 o jovem presbítero atravessou pela primeira vez a fronteira do País para começar os estudos superiores naquela cidade da beira do Reno. Aí alargou a sua cultura e a sua experiência humana.

 

Então, como agora, havia em Estrasburgo duas Faculdades de Teologia: uma católica, outra protestante. Estava-se nessa altura ainda longe do espírito ecuménico que havia de soprar sobretudo a partir da segunda Guerra Mundial. A Teologia revestia um aspecto polémico e apologético. Dentro dessa orientação, a Escola de Estrasburgo tornava-se notável principalmente pelos estudos de Teologia positiva e de investigação histórica. A ela pertenciam grandes figuras de teólogos que Trindade Salgueiro recordava sempre com veneração e carinho. Muitos deles eram colaboradores desse monumento de ciência teológica, honra da cultura católica francesa: o Dictionnaire de Théologie Catholique. Bastaria lembrar, além do nome de Mr. Amann que depois de Vaccant e Mangenot assumiu a direcção da enciclopédia e a levou a termo, os dos professores Gaudel e Rivière, para só citar aqueles de quem mais vezes lhe ouvi falar.

 

Foi nessa linha de investigação histórica que Trindade Salgueiro se deixou orientar durante o tempo dos seus estudos em Estrasburgo. O Título da tese de doutoramento fala por si: «La doctrine de Saint Augustin sur la grâce d’aprè le Traité à Simplicien».

 

A passagem pela França deixou marca indelével no espírito do jovem estudante. Desde então Trindade Salgueiro nunca mais deixou de ser um frequentador apaixonado dos livros franceses. Muitos nomes de autores de além Pirenéus, alguns deles já hoje suplantados por outros de brilho mais intenso ou simplesmente mais recente, aprendemo-los nós, os que passámos pelo Seminário de Coimbra na geração seguinte, da boca de Trindade Salgueiro: René Bazin, Paul Bourget, Paul Claudel, os Padres Gratry e Sertillange, Jacques Maritain, Henry Bergson, para só falar nalguns.

 

A frequência dos autores franceses, mais claros embora nem sempre tão profundos como os de língua alemã, contribuiu para um estilo de pensamento e de arrumação de ideias que era característica do espírito de Trindade Salgueiro. Os seus escritos, sempre bem esquematizados, límpidos e ordenados, a que não faltava às vezes uma pontinha de ironia queiroziana, revelava a ordem de um pensamento em que predominava o método da análise e da dedução. Por alguma coisa o seu espírito se tinha formado na prática de Descartes.

 

Trindade Salgueiro era uma vocação nítida de intelectual – não do erudito dado simplesmente à investigação, mas do homem que investiga para ensinar, que reflecte para transmitir. Disso deu ele sobeja prova durante o magistério exercido, com tanto brilho, no Seminário diocesano e, mais tarde, na Faculdade de Letras de Coimbra.

 

Alguém lamentará porventura que a este homem, tão amplamente dotado, não tenha disso possível deixar uma obra escrita à altura do seu talento. Esse, talvez esqueça que Trindade Salgueiro se ordenou primariamente para servir a Igreja e o serviço da Igreja obriga muitas vezes a renúncias dolorosas.

 

A cidade de Coimbra, pela presença ali da Universidade e especialmente dos jovens que a frequentam, oferece um vasto campo de apostolado. Rapazes e raparigas buscam o sacerdote a fim de encontrar nele a luz e a ajuda para os problemas da inteligência ou as dificuldades do coração.

 

Os serviços da Diocese, o magistério do Seminário, as obras de apostolado, requerem quem delas se ocupe e lhes garanta a existência e a eficácia.

 

Quem se ordenou para servir a Igreja, em época em que os apóstolos não abundam, sentirá pena de não poder consagrar mais tempo ao estudo, mas não pode deixar de prestar os trabalhos que lhe são pedidos ou de atender as almas que o procuram.

 

Esta divisão interior deve ter torturado a alma de Trindade Salgueiro, obrigado pelas circunstâncias de uma Diocese que se refazia a ter de multiplicar-se e de dispensar-se. Essa renúncia não será hoje o seu menor mérito junto de Deus.

 

Diz-se que Francisco Soares, que também foi professor de Coimbra, pesando antecipadamente a sua vasta obra na balança do juízo final, estaria disposto a trocá-la por um simples acto de amor de Deus. Quantos actos de amor de Deus e do próximo terá praticado D. Manuel Trindade Salgueiro durante os quinze anos em que exerceu o magistério no Seminário diocesano e na Faculdade de Letras, pregou semanalmente no púlpito da Sé Nova, escreveu o artigo do fundo do jornal «Correio de Coimbra», prestou assistência eclesiástica aos estudantes do C. A. D. C. e às raparigas universitárias – em tudo, instrumento dócil nas mãos do seu Prelado?…

 

(continua)

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