Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

A bem da Nação

OPINIÕES – 1

 

Um artigo de Vasco Pulido Valente, uma entrevista de Maria Filomena Mónica. O primeiro revela meandros da política socialista, autoritária e persecutória, qual mesa censória dos tempos inquisitoriais e dos tempos pidescos – estalinistas lhes chama Pulido Valente - exigentes de actuações reverentes da parte dos jornalistas entrevistadores do candidato António Costa: caso não transpareça a reverência, imediatamente surgirá a coima de filiação partidária à direita e o jornalista deve preparar-se para futura exclusão, caso Costa ganhe as eleições.

 

De facto, já existia, do tempo de Sócrates, o exemplo da expulsão de Manuela Moura Guedes do seu programa noticiarístico, por ser provocadora política, e António Costa vai-lhe, ao que parece, no encalço – não da Manuela mas do Sócrates. Vasco Pulido Valente é historiador arguto, ele o avisa. no seu artigo pleno de dados da sua observação crítica, felizmente já não de férias:

 

Raspar um socialista

Vasco Pulido Valente.png Vasco Pulido Valente

Público, 19/9/15

 

Quando se raspa um socialista acaba sempre por se encontrar um tiranete. No meio do espectáculo pouco edificante das prisões de Sócrates, ninguém perdeu tempo a discutir, ou a investigar, o papel do cavalheiro na imprensa e na televisão. Mas nem Mário Soares, no fim, escapou à regra de interferir na política editorial do “Diário de Notícias” de Mário Mesquita. Para gente tão penetrada da sua virtude e da sua razão a crítica é fundamentalmente um escândalo, que em democracia se tem de aturar - com conta peso e medida. Os processos para manter a canalha do jornalismo na ordem, ou pelo menos, numa ordem tolerável, são vários: a compra, a rápida promoção para a vacuidade, uma ou outra ameaça e, se nada disto der resultado, a calúnia e o despedimento das cabecinhas que persistem em “pensar mal”.

Esta semana tivemos dois casos que nos deviam inquietar. Primeiro, pareceu a meia dúzia de militantes que Vítor Gonçalves tinha entrevistado António Costa na RTP sem o cuidado e a reverência que a circunstância exigia. No dia seguinte foi publicado na Internet um recado sibilino: “Quantos jornalistas com papel relevante em programas televisivos com impacte eleitoral (durante a pré-campanha) são familiares de altos dirigentes do PSD ou do actual governo?”. Este filosófico desabafo de sabor saudosamente estalinista vinha assinado por um tal Porfírio Silva, ao que por aí corre carregado de diplomas, que Costa recentemente chamou para o ajudar. Não sei da vida ou do parentesco de Vítor Gonçalves, nem do pessoal da RTP. Mas fiquei a saber que, para não me insultarem, preciso de apresentar documentos até à terceira geração para provar que não há na minha família nenhum desgraçado ou desgraçada do PSD.

O segundo caso foi o debate sobre justiça, também na RTP. Isto, não percebo porquê, enfrenesiou presentes maiorais do PS. Supunham talvez que, à sombra de discutir a justiça, se iria discutir a interessante carreira de Sócrates. E, sem sombra de hesitação, um jovem agitado e estridente, chamado João Galamba, reclamou a cabeça do Director de Programas, Paulo Dentinho, de acordo com as melhores regras democráticas. Por curiosidade, assisti ao programa em que se falou de Sócrates durante meio minuto. Mas para futuro sossego do sr. João Galamba, do sr. Porfírio e do PS em geral, proponho que se organize uma comissão de censura que separe o trigo do joio e faça respeitar o dr. António Costa. Se continua ou não depois de 4 de Outubro, logo se verá.

 

Quanto à entrevista de Maia Filomena Mónica, começo por descrever a sua personalidade, segundo uma das epígrafes da página introdutória do discurso: «É uma rebelde que não se verga a nada nem a ninguém. Snob por convicção, não tem travões a ver o mundo à sua volta».

 

Mas não é pela sua personalidade de mulher bela e caprichosa que transponho excertos da sua entrevista mas pela panorâmica que nos apresenta da sociedade portuguesa e de muita da sua política e dos seus políticos que ficaram por deslindar. Caso da referência a Mário Soares e à sua Fundação, que um país de safadezas e de servilismos idolátricos pirosos faz por ignorar, permitindo mais um escoar de dinheiros públicos assim roubados na mistificação e na fraude. O mesmo, na descrição de Sócrates e das suas falcatruas, embora discorde da comparação com o Dâmaso Salcede queirosiano, que não passava de um enfezado idiota, cobarde e gabarola, longe da figura distinta de Sócrates, agindo na sombra, e expondo às claras as suas convicções políticas. Relativamente a Passos Coelho, como «produto não existente no século XIX», também não me parece que tenha acertado, Maria Filomena Mónica. A imagem de paralelo que me seduz, é a de Alexandre Herculano, não, evidentemente, na dimensão cultural ou na criatividade literária deste, mas na hombridade, na seriedade e no amor pátrio, que me parecem comuns a ambos. É certo que Herculano não foi homem de governação, mas defendeu causas políticas próprias de um homem livre e avançado para a sua época – como a do dogma do celibato dos padres que ele contrariou. Herculano é uma figura que permanece no nosso espírito como alguém impecável, cujos livros no meu tempo eram de leitura obrigatória, como fonte literária e pedagógica. Passos Coelho, na sua ambição de tomar conta do seu país, creio que o fez por amor pátrio. E isso é nobre e extremamente corajoso, dada a sociedade que Maria Filomena Mónica descreve, que merece o seu e o nosso desprezo.

 

Quanto às preferências caprichosas de Maria Filomena Mónica, acho que têm o seu quê de contraditório, pois reconhecendo valores da direita, nessa não vota, por se afirmar de esquerda que, ao que parece, defende o mito homem livre, sabendo quão falso é esse dogma, que entre nós não provém de um conceito espiritual mas apenas grotesco, na má criação das suas permissividades agressivas.

 

(continua)

Berta Brás.jpg Berta Brás

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2018
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2017
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2016
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2015
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2014
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2013
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2012
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2011
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2010
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2009
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2008
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2007
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2006
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D
  209. 2005
  210. J
  211. F
  212. M
  213. A
  214. M
  215. J
  216. J
  217. A
  218. S
  219. O
  220. N
  221. D
  222. 2004
  223. J
  224. F
  225. M
  226. A
  227. M
  228. J
  229. J
  230. A
  231. S
  232. O
  233. N
  234. D