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A bem da Nação

O PREGO

Foi lá pela segunda metade do séc. XX que em Portugal se iniciou a inseminação artificial das vacas leiteiras, época a partir da qual os Veterinários de província tiveram que passar a visitar tudo quanto era estábulo leiteiro por esse país além…

Remonta a essas épocas primevas da dita técnica a história que se conta do Veterinário que foi inseminar artificialmente as vacas de um casal já velhote de agricultores minhotos. Chegado ao local, recebido pelo casal anfitrião, logo foi conduzido ao estábulo. Eram duas as vacas a beneficiar. Poisada algures a instrumentália apropriada ao acto, tomou o Veterinário a iniciativa de tirar a camisa para poder usar as mãos e os braços depois de apropriadamente ensaboados para melhor fluírem no interior das vacas sem o estorvo das mangas e sem bulir com as partes a manipular.

E o par de velhotes, nada percebendo do que se passaria de seguida e só conhecendo o método reprodutivo que consta da Natureza, esperava que o Veterinário se aprontasse para a função… Então, solícito, o agricultor logo foi dizendo que, «para pendurar as calças, o Senhor Doutor tem ali aquele prego».

* *

Foi desta história que hoje me lembrei quando me dirigi a um famoso laboratório de análises clínicas para fazer o «teste do Covid», exame prévio este que é legalmente imprescindível para a intervenção cirúrgica a realizar dentro de dois dias.

Ao entrar no gabinete em que o «teste» se realizaria, fiz a parte de procurar o cabide ou, no mínimo, o prego na parede. Vendo-me indeciso, uma das Técnicas presentes perguntou-me o que eu procurava. Respondi-lhe que procurava o prego para pendurar as calças.

- Pendurar as calças para quê?

- Para não se amarrotarem quando as tirar.

- Mas não precisa de tirar as calças.

- Como assim? Não pretendem fazer-me um «teste»?

- Sim, claro, mas não precisa de tirar as calças.

- Então?

- Qual é a dúvida que o Senhor Fonseca tem?

- A questão está em que «teste» tem a ver com testículo e, para me fazerem essa observação, vou ter que tirar as calças. Ou serão as Senhoras já tão experientes que vos basta um golpe de vista mesmo por cina das calças?

A gargalhada da Técnica da conversa foi mesmo hilariante, a outra que estava ao lado esboçou um sorriso de quem não alcançou a etimologia e a terceira manteve-se sisuda como se o seu mentor religioso, seguramente paulino, não lhe permitisse humores carnais.

Posto o que me enfiaram uma cotonete até à base frontal da consciência e me mandaram em paz.

Ao sair, a hilária ainda me agradeceu a aula de português e confirmou que naquele gabinete só se fazem exames e não testes.

E o prego não estava lá.

Lisboa, 9 de Março de 2021

Henrique Salles da Fonseca

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