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A bem da Nação

O PRAZER DE GOZAR O TEMPO

 

O tempo, Salvador Dali.jpg

 O tempo - Salvador Dali

 

 

Ele – Olá! Há muito tempo que não o via. Como tem passado?

 

Eu – Ah! Olá! Muito bem, obrigado. E consigo, tudo bem?

 

Ele – Mais ou menos. Fui operado ao..., tive uma convalescença complicada, passados poucos meses parti o..., fiquei cheio de dores e ainda padeço muito... o pior é que...

 

Eu (em silêncio e só para com os meus botões) – [O Senhor Fernando N. C. é que dizia que o tipo chato é aquele a quem se pergunta como está e ele explica].

 

Ele – ... mas depois foi a minha esposa que...

 

Eu (ainda em silêncio) – [Estava eu aqui tão sossegado a apanhar este Sol de Inverno e a filosofar para dentro e logo me aparece este chato pela frente].

 

Ele – Então, ainda trabalha ou já está reformado?

 

Eu – Já estou aposentado há doze anos mas continuo a trabalhar para mim.

 

Ele – E tem muito que fazer?

 

Eu – O que é preciso. Mas continuo a estudar.

 

Ele – A estudar? Então não sabe já tudo?

 

Eu – Quanto mais estudo maior é a sensação de saber pouco.

 

Ele – Então deve ser por isso que eu não estudo nada. Vejo os telejornais e os desafios da bola, vou ao café dar um dedo de conversa e ler um jornal que eles costumam ter lá, passo pelo jardim para jogar umas cartitas com os outros rapazes que lá estão sempre – mas estudar, não estudo nada. Já sei tudo.

 

Eu – Pois.

 

Ele – E da política, o que me diz?

 

Eu – Digo-lhe que lá em casa mudamos de canal da TV quando começam os telejornais e quando começam os jogos de futebol.

 

Ele – Ah! Então o meu amigo não gosta da bola.

 

Ainda estive para lhe perguntar se esse amigo dele não seria mais divertido para conversar do que eu mas decidi não me armar em Xico esperto e respondi que

 

Eu – O meu desporto é outro.

 

Ele – E pratica?

 

Eu – Todas as manhãs.

 

Ele – Então é por isso que está tão direito e sem achaques. Faz corrida?

 

Eu – Ensino a dançar.

 

Ele – Não me diga! E isso é desporto?

 

Eu – Sim, é. Se não é profissão, é desporto.

 

Ele – E a sua esposa gosta de dançar?

 

Eu – Eu não danço com a minha mulher.

 

Ele – Então tem outras Senhoras para dançar? São suas alunas?

 

Eu – Eu danço com a minha égua.

 

Ele – Eh pá! Isso amanda muito peso.

 

Eu – Talvez. Mas eu não lhe pego ao colo, monto-a.

 

Ele – Pois, pois... É claro que a monta! Mas disse que também estuda. Mas o meu amigo é economista e ainda estuda mais? O quê?

 

Eu – Filosofia e Teologia.

 

Ele – Não me diga que está a estudar para Padre...

 

Eu – Que ideia!!! Nem pensar nisso. Mas podemos estudar tudo isso sem sermos filósofos nem sequer sermos religiosos. Podemos andar de barco mesmo não sabendo nadar, podemos andar de avião sem sabermos voar...

 

Ele – Ah! Essa de saber voar é muito boa!

 

Eu – Por exemplo, na Teologia já estudei o Budismo e não sou budista, gosto de saber o que pensam os protestantes e não tenho eu próprio que ser protestante.

 

Ele – E é verdade que é a Filosofia que ensina a pensar? Era isso que o professor de Filosofia dizia lá no Liceu.

 

Eu – Sim, o meu professor no Liceu também dizia isso. Devia ser ordem que eles tinham recebido para impingirem essa ideia aos alunos. Mas não, de todo. Nos cursos de Filosofia aprende-se o significado de conceitos gerais e o que os filósofos disseram. Mas cada um pensou da sua maneira. O contrário é que é verdade: quem não souber pensar, não é filósofo; a Filosofia não ensina ninguém a pensar, ensina o que outros pensaram. E pouco mais.

 

Ele – Então para que é que serve aprender Filosofia?

 

Eu – Para o mesmo que ensinar os cavalos a dançar: para nada, só para o nosso próprio prazer.

 

Ele – O nosso próprio prazer. Diz muito bem. Isso é o que mais importa, termos prazer. Os outros que se danem desde que o prazer seja nosso.

 

Eu – Estou a ver que estudou os clássicos gregos.

 

Ele – Quem?

 

Eu – Aristóteles, Platão, Sócrates...

 

Ele – Não, não! Nunca estudei nada disso. Só sei que o Sócrates esteve preso e que qualquer dia volta para lá.

 

Eu – Nunca os estudou mas também afirma que o prazer é o que interessa.

 

Ele – E não acha?

 

Eu – Pois. Eu ainda não sei tudo.

 

Ele – Mas olhe: a minha esposa já deve estar à minha espera, tenho que ir andando. Gostei de o ver.

 

Eu – Muito bem, cumprimentos à sua esposa.

 

Depois dele se ter ido embora, dei por mim a ter a certeza de que não sou cínico. Se o fosse, teria dito que não tinha tido prazer nenhum numa conversa absolutamente imbecil como todas as que alguém que sabe tudo tem com ignorantes que continuam a estudar.

 

- Jogar umas cartitas lá no jardim...

 

Agora, sem ter nada agendado e se não me aparecer mais nenhum sábio, fico aqui ao Sol de Inverno, tranquilo, a pensar nestas coisas da Filosofia e da Teologia só para ter o prazer de gozar o tempo lento que passa...

  

O tempo-Gabriel Wickbold.jpg

 A passagem do tempo - Gabriel Wickbold

 

A propósito: serei eu o dono do meu próprio tempo? E não será o tempo apenas uma invenção humana ou será que o tempo existe por si próprio, independentemente de nós passarmos por ele? Ou será ele que passa por nós? Tenho que deitar os olhos para algum texto simples, para leigos, que explique alguma coisa sobre a função espaço-tempo. Amanhã. Hoje gozo o tempo. Também não sou hedonista, amanhã existe – I hope!

 

 

Fevereiro de 2016

 

Porto Santo-MAI15-B.jpg 

Henrique Salles da Fonseca

 

 

NOTA: “O prazer de gozar o tempo” – frase extraída da contracapa de um livro de Germano Almeida sobre o não se fazer nada.

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