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A bem da Nação

O MEU QUARTETO BRASILEIRO

 

 

Sim, bastaria que a minha ignorância não fosse tão vasta e o quarteto seria uma orquestra – e das maiores, as sinfónicas.

 

Mas, na verdade, tenho estes quatro como os maiores: Vinícius de Moraes, Mário Quintana, Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade.

 

Diz-se que «no meio está a virtude» e aí estão o Mário Quintana e o Manuel Bandeira a receberem a minha preferência. Mas isto é o meu gosto a falar e não o mérito de cada um deles e o dos que estão nos extremos em particular. Gostos... Mas é claro que também aqui é como nos concursos públicos: todos ganham em mérito absoluto mas dois ganham por mérito relativo. Numa faceta são iguais: na erudição. Noutra ainda, pecam por vezes por igual: ignoram as ideias e jogam com as palavras. É então que lhes chamo «jongleurs de mots».

 Carlos Drummond de Andrade.png

Então, hoje é a vez de Carlos Drummond de Andrade, o farmacêutico que nasceu mineiro, morreu carioca mas fez todo o Brasil.

 

 

E eis-me baralhado no meio de tanto opus drummondiano. Não posso dizer quase às cegas que gosto de tudo mas, na verdade, há tanta poesia dele de que gosto que não sei por onde começar.

 

Vou avançar pelo meu velho caminho...

Congresso Internacional do Medo

Provisoriamente não cantaremos o amor,

Que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.

Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,

Não cantaremos o ódio, porque este não existe,

Existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,

O medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,

O medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,

Cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,

Cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte.

Depois morreremos de medo

E sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas

Quadrilha

João amava Teresa que amava Raimundo

Que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili

Que não amava ninguém.

João foi para o Estados Unidos,

Teresa para o Convento,

Raimundo morreu de desastre,

Maria ficou para tia,

Joaquim suicidou-se e

Lili casou com J. Pinto Fernandes

Que não tinha entrado na história.

Purificação

Depois de tantos combates

O anjo bom matou o anjo mau

E jogou seu corpo no rio.

As águas ficaram tintas

De um sangue que não descorava

E os peixes todos morreram.

Mas uma luz que ninguém soube

Dizer de onde tinha vindo

Apareceu para clarear o mundo,

E outro anjo pensou a ferida

Do anjo batalhador.

Para Sempre

Por que Deus permite

Que as mães vão-se embora?

Mãe não tem limite,

É tempo sem hora,

Luz que não apaga

Quando sopra o vento

E chuva desaba,

Veludo escondido

Na pele enrugada,

Água pura, ar puro,

Puro pensamento.

Morrer acontece

Com o que é breve e passa

Sem deixar vestígio.

Mãe, na sua graça,

É eternidade.

Por que Deus se lembra

— mistério profundo —

De tirá-la um dia?

Fosse eu Rei do Mundo,

Baixava uma lei:

Mãe não morre nunca,

Mãe ficará sempre

Junto de seu filho

E ele, velho embora,

Será pequenino

Feito grão de milho.

 

Bani das minhas preferências aquelas peças que considero acéfalas, por falta de sentido e apenas jogam com os sons. E estava eu nestas releituras quando me lembrei de Cora Coralina, essa, sim, exclusivamente baseada nas ideias e quase esquecendo o som das palavras.

 

E o quarteto faz-se quinteto. Será de cordas? Isso é o que vamos ver...

 

Outubro de 2014

Henrique Salles da Fonseca em Curaçao (2011)

 Henrique Salles da Fonseca

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