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A bem da Nação

O MAU ESPÍRITO

 

 

Sobreviver no interior brasileiro nos séculos passados não era coisa pra fracos. Enriquecer, então, era questão para destemidos aventureiros dispostos a tudo enfrentar, matas, índios, animais selvagens, grileiros, falta de alimentos e remédios. Trabalho duro e perigoso que muitas vezes levava à perda da própria vida.

 

 

Era comum fazendeiros que possuíam terras adquiridas por sesmarias, compradas ou ocupadas por grileiros, recrutassem jagunços pagos para “limpar” o terreno. Só depois assumiam e construíam naquele espaço a fazenda.

 

Em tempos de “limpeza”, as ferramentas mais utilizadas eram as armas de fogo, além dos instrumentos de trabalho para desbravar a terra. Guaiaca ajustada na cinta ou cruzada no peito, punhal estrategicamente escondido no cano interno das botas de couro, eram indispensáveis para impor respeito e se manter vivo. Andar por caminhos desérticos e inóspitos, ou em matas cerradas, exigia coragem e equipamento!.

 

Bem antes dos estrangeiros chegarem àquelas bandas interioranas já desbravador português, usando o índio amansado como guia, adentrava e “limpava” o terreno. Motiva-o a posse das terras e as riquezas que poderia tirar delas, explorando, abrindo clareiras para criar gado ou para plantar pro sustento.

 

Instalados, vinham as disputas pelos território e pelas águas que lhes garantiam a subsistência e influência. Animosidades por divisas e desvios de cursos de águas eram frequentemente resolvidas à bala, quando na conversa não se chegava a contento.

 

Naquele dia, os fazendeiros Jacinto e Fabiano se estranharam. O motivo era posição da cerca que lhes dividia as fazendas. Achando-se lesado, Jacinto reclamava que haviam entrado metros na sua propriedade, situação que Fabiano contestava. Depois de muita discussão, tudo ficou na mesma. Irritado, tempos depois, o fazendeiro Jacinto desvia o curso do riacho que nascia nas suas terras e atravessava as do vizinho, deixando sem água o pasto e o gado do outro fazendeiro. Guerra declarada, os dois não podiam se encontrar sem que essas questões viessem à baila.

 

Em terras de pouca água, os bichos logo buscam a fonte. E assim o gado rompeu a cerca e pulou para o pasto vizinho onde podia matar a sede e comer capim. Quando Jacinto percebeu a situação procurou Fabiano para reclamar e pedir para que ele consertasse a cerca arrebentada. Nova discussão para que o riacho e divisa fossem para o lugar original. Ninguém quis voltar atrás e tudo acabou numa cusparada tendo como resposta um tiro mortal. No dia seguinte acharam o corpo de Fabiano já em incipiente estado de putrefação. Foi uma comoção. Os filhos do fazendeiro morto juraram vingança. Suspeitaram do vizinho renitente que passou a carregar consigo dois revolveres carregados no coldre, prontos para a descarga conveniente.

 

Ciente da lei do sertão, Jacinto dizia para a família:

- Quando eu morrer vocês me enterrem com meus dois revólveres, vai que lá, do outro lado da vida, eu encontre um mau espírito...

 

Enterro no sertão brasileiro.png

 

Se bem foi dito, melhor foi feito. Passou-se algum tempo até que um dia um sujeito mal encarado foi visto nas redondezas. Capa escura, surrada, que ia até as canelas, chapéu preto de feltro enterrado na cabeça escondia parcialmente a fisionomia. No peito, transpassada, uma cinta de couro cru, brilhante, desgastada pelo uso, onde se via uma pequena bolsa de carregar balas e um coldre preenchido. Era um matador, jagunço contratado. Já se suspeitava, era o anúncio de morte encomendada!

 

Jacinto foi encontrado morto na estrada, com um tiro na cabeça, vítima de uma tocaia.

 

Do jeito que surgiu, o jagunço desapareceu sem deixar rastro. O fazendeiro foi enterrado com suas armas, como pedira, nas terras disputadas. Respeitaram a sua vontade, sabe-se lá se ainda teria que se ver com algum mau espírito...!

 

Uberaba, 25/07/2016

Maria Eduarda Fagundes

Maria Eduarda Fagundes

 

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