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A bem da Nação

O DIREITO À ILUSÃO

 

 

«Le Grand Meaulnes» é um livro de Alain Fournier, um escritor jovem, morto na guerra em 1914, que se celebrizou com esse único livro, retratando experiências pessoais num universo encantatório de juventude, em que Augustin, de 17 anos, “le grand Meaulnes” como será chamado pelos alunos da escola onde a mãe o vai inscrever – a dos pais de François, nela professores, e, aliás, locatários havia alguns anos, será protagonista. O narrador, François, de 15 anos, vai contando, com passividade e graça de percepção, a vida na sua aldeia e na sua família, de rapazinho tímido e refugiado em leituras, repentinamente desperto para o fascínio e a amizade por esse companheiro rebelde, espécie de fogo-fátuo nos seus desaparecimentos e aparecimentos bruscos de aventuras de deslumbramento, amor e feeria. Foi um livro que ganhei como estudante em Coimbra, só porque ajudei a passar uns diapositivos, com a necessária presteza, ilustrando uma conferência de um conferencista francês, conforme escrevi na primeira página: “Offert par le Révérend Père Merveille, le 15/2/55, le lendemain de sa Conférence sur “Provence, terre qui chante” au Théâtre de la Faculté. Éramos duas colegas, foram dois os livros oferecidos – “Le Grand Meaulnes”, de bonita encadernação e pinturas ilustrativas de um universo mágico, e um livro de história da França, igualmente ilustrado e apetecido. Lembro-me de que hesitei, também porque pensava que a minha colega tinha o mesmo direito a decidir primeiro, mas, instada a fazê-lo, escolhi “Le Grand Meaulnes”, o que valeu a aprovação não só do conferencista francês, como do nosso professor de Francês, M. Jean Girodon. A minha colega, de resto, mostrou a sua preferência pelo livro de história, estudiosa e ponderada que era, a querida Conceição Sarmento.

 

E aqui estou eu, quase sessenta anos depois, revisitando momentos de feeria pessoal, como são tantos da juventude, mau grado o pessimismo existencial de tantos poetas de que Camões seria expoente maior, e o seu soneto “Erros meus” um dos marcantes nesse universo de desespero e renúncia a “ser contente”.

 

Lembrei-me desse livro encantatório – “O Grande Meaulnes”, que me conduziu a uma mocidade de ilusões, apenas por uma semelhança com o título A Grande Ilusão”, do artigo de Vasco Pulido Valente (Público, 29/8/14), sobre a fé de alguns analistas da política interesseira dos povos, que faz recusar eminências de guerras – de uma primeira guerra mundial, no caso de Norman Angell, que a negava, no seu livro assim chamado e que se enganou, pois que a guerra eclodiu em força. A de uma terceira guerra, impensável segundo o economista Miguel Beleza, pelos mesmos motivos que orientaram Norman Angell – e que aparentemente constituem erro. Uma nova guerra estará, assim, na mesa.

 

Mas a referência ao livro de Alain Fournier não implica analogia de temas, é claro. Apenas uma releitura de um romance poético, algo que ajude a vencer o medo de mais uma monstruosidade que pende sobre o mundo, como Pulido Valente esclarece com saber. Todos nós, de resto, como Miguel Beleza, (e Pulido Valente, sem dúvida), também gostamos de comer e dormir nas quatro estações do ano, e não somente no verão, pertença de Miguel Beleza, segundo informação do articulista. E alguns até também gostam de comunicar pensamentos à plebe bem como às outras classes sociais - caso elas estejam interessadas na dita leitura, já que os esforços intelectuais não vão com os novos tempos, dispersos em muita diversão, pese embora o excesso de publicações livrescas actualmente em voga.

 

Mas é tempo de nos assustarmos com o artigo de Vasco Pulido Valente, passando um traço vermelho sobre o que foi dito antes. Já não temos direito a sonhar.

 

A Grande Ilusão

 

Vasco Pulido Valente

 

Em fins de Agosto, o dr. Miguel Beleza deu uma entrevista ao jornal i em que dizia o seguinte: “Os russos não podem entrar na Ucrânia como se fosse uma política de terra queimada (…). As relações comerciais entre a Europa e a Rússia são de tal maneira estreitas que é altamente improvável qualquer intervenção militar. Quando as relações económicas são muito estreitas, não há interesse maior em haver guerra. Ninguém quer fazer guerra a quem nos dá o ganha-pão.”

O dr. Miguel Beleza goza de uma enorme reputação como economista e foi, entre outras coisas, ministro das Finanças do dr. Cavaco e governador do Banco de Portugal. No Verão gosta de comer e dormir. De quando em quando não se importa também de comunicar à plebe os seus pensamentos sobre o mundo.

 

Para azar dele, em 1911, saiu um livro que se tornou universalmente conhecido: A Grande Ilusão,de Norman Angell. O Czar leu o livro, o Kaiser leu o livro, toda a gente leu o livro, que trazia uma inesperada consolação a uma Europa tensa e pouco segura. Que “grande ilusão” era essa? Era a ilusão de que as potências da Europa, incluindo a Rússia, estavam na iminência de uma guerra geral. Contemplando com desprezo esse erro universal, Angell explicava que a interdependência económica e financeira das potências não lhes permitia qualquer acto de hostilidade grave sem se arruinarem, porque sem excepção precisavam (mesmo as mais fortes) de um “ambiente” previsível e pacífico para alargar os seus mercados e principalmente conseguir investimento estrangeiro.

 

Angell, o contrário de Beleza, não tinha o menor prestígio académico ou político. Fora cowboy, criador de porcos, pesquisador de ouro e jornalista. Não passava, em resumo, de um autodidacta, que seria injurioso comparar com a persona sabedora e grave de Miguel Beleza. De qualquer maneira, bastaram uns meses para se verificar o engano monstruoso de Angell. Um erro que vinha de confundir economia e finanças com necessidade política. As potências arrasaram a Europa e, de caminho, a elas próprias sem a mais vaga hesitação. É curioso que no momento em que a “Europa” se desfaz e demonstra a sua fraqueza no Médio Oriente e na Ucrânia, e em que vários regimes seculares (o Reino Unido, a França, a Espanha e até Portugal) tremelicam à beira da falência, se volte a falar, embora discretamente, da “grande ilusão”. E logo pela boca de um economista.

 

 Berta Brás

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