Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

A bem da Nação

O CERTO É QUE ESTAMOS ALIVIADOS

 

Pensar que o Orçamento passou em Bruxelas dá-nos uma sensação de beatitude por nos “encontrarmos” já a “virar a página da austeridade”, mesmo que, como manda o ministro, tenhamos que andar de transportes públicos o que não é desdouro, os comboios permitindo pôr leituras em dia. (Velhos tempos aprazíveis, esses em que o trabalho longe de casa me fazia apanhar o comboio da linha, o que era prático e de recurso para um assentar de noções de última hora, que as tarefas caseiras impediam tantas vezes de aprofundar. Doutras vezes, só o olhar pela vidraça deleitava, vendo o mar ou o rio ou os monumentos e os sítios aparentemente deslizando em sentido contrário). Mas não deixa de ser curiosa a similitude de comentários na questão dos “aconselhamentos” ao povo impaciente, de Passos Coelho e de António Costa, o primeiro aconselhando a partir para o estrangeiro, em busca de solução momentânea das dificuldades, o segundo aconselhando os transportes públicos na questão do encarecimento da gasolina. Mas a Costa, os parceiros da amizade perdoarão as descargas impacientes, a “boutade” de Passos ficará para sempre gravada nas suas ironias, sem se lembrarem de que a emigração foi sempre recurso nosso, pelos mais variados motivos, e não necessariamente “a salto” nem com mala de cartão.

 

O certo é que o Orçamento passou e a Oposição deve ficar contente por isso, sem guerra de palavras. No fundo, do que o país precisa mesmo é de gente que trabalhe, com inteligência e aplicação, embora as mudanças que o Ministério da Educação prepara para a escola, me pareçam novo fogo de vistas para massacrar os alunos e torná-los cada vez mais apanhados pela carruagem do tempo, sem pausas para curtirem a sua mocidade. Refiro-me a nova carga horária que se propõe para os alunos do nono ano, prolongando-lhes o tempo de escola, embora facultativamente.

 

Mas é o artigo de João Miguel Tavares que transcrevo, bastante justo, sem muita esperança na extinção da tal austeridade, TINA e TINinhA aparentadas nas mesmas exigências que, se faziam acusar do governo anterior de servilismo à UE, pelos peritos da esquerda, não deixarão de lhes merecer o mesmo apodo, a serem justos, pois que a arrogância inicial à Varoufakis de Costa e Cia. não pode deixar de descambar em obediência à Tsipras.

Berta Brás.jpgBerta Brás

 

A TINA e a TINinhA

João Miguel Tavares.jpgJoão Miguel Tavares

Público, 09/02/2016

 

Há um famoso paradoxo filosófico que se pode formular assim: se eu substituir a lâmina de uma faca, e de seguida o seu cabo, ela ainda é a mesma faca? Numa perspectiva ontológica, a questão não é simples. Mas numa perspectiva meramente utilitária, o que interessa é haver faca e ela continuar a cortar.

 

O orçamento de Estado do actual governo é como a faca do paradoxo: um orçamento que entrou em Bruxelas disposto a “virar a página da austeridade” e saiu com mil milhões de euros de austeridade em cima ainda pode ser considerado o mesmo orçamento? A resposta ontológica é “não”. Se compararmos o programa original de grupo de trabalho de Mário Centeno e o Frankenstein orçamental que ele se viu obrigado a defender (com evidentes dificuldades) na sexta-feira, só mesmo com testes genéticos aprofundadíssimos será possível encontrar vestígios de um pai comum. Mais. Quando António Costa afirma que, “ao contrário do que muitos desejavam, a Comissão Europeia não chumbou o primeiro orçamento do governo”, importa repor a verdade: ai chumbou, chumbou. O esboço do primeiro orçamento foi chumbadíssimo. Aquilo que a Comissão não chumbou foi a última versão desse orçamento, carregadíssima de impostos e com as metas revistas, que já pouco tinha a ver com o original.

 

Mas tudo isto interessa muito pouco a António Costa – afinal, ele é o rei do pragmatismo. Desde que se continue a chamar “orçamento” e passe em Bruxelas e em São Bento, por ele está tudo bem. Evidentemente, não é um “tudo bem” sério, como se verificou nas suas declarações de sábado, ao ser confrontado com o aumento colossal de impostos indirectos nos combustíveis e no tabaco. Nesse momento, a demagogia de Costa elevou-se à estratosfera, ao aconselhar os portugueses a “fumar menos” e a “usar transportes públicos”. O que ele se esqueceu de acrescentar é que se os portugueses começarem a fumar muito menos e a usar muito mais transportes públicos, então as receitas destes impostos caem a pique e o governo tem de encontrar medidas alternativas para compensar a queda na receita.

 

Oh, sim, António Costa virou a página da austeridade – só que na página seguinte encontrou a mesma austeridade de que se prometeu livrar. Enfim, não é bem a mesma austeridade. A austeridade da direita era feita de impostos directos. A austeridade da esquerda privilegia os indirectos. Não é já a TINA – é a irmã gémea, a TINinhA.

 

Mas agora vêm as boas notícias: se o novo orçamento tem tudo para correr mal em termos económicos, dada a manifesta ausência de uma perspectiva de futuro e de um caminho sustentável para as finanças públicas, a sua aprovação em Bruxelas, ainda que com reservas, é uma boa notícia política. A ninguém aproveitava uma crise neste momento. Se o regoverno de António Costa conseguiu instalar-se, há que o deixar regovernar. A frente de esquerda tem de poder praticar todas as suas espectaculares políticas de crescimento e tem de lhe ser dado tempo para elas falharem (mais uma vez). Ora, este orçamento é suficientemente mau para que todos percebam onde essas políticas nos levam (mais uma vez); mas não suficientemente mau, graças à intervenção da Comissão Europeia, para obrigar a um novo resgate em 2018. Nesse sentido, não vale a pena dramatizar, porque poderia ter sido bem pior – bastaria Bruxelas ter engolido a matemática à portuguesa. Como não engoliu, o regoverno merece agora uma folga, para poder namorar com a TINinhA.

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2006
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2005
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2004
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D