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A bem da Nação

O BRASIL E OS DEGREDADOS – 1

 

 

 

Ele há coisas... que as minhas meninges não conseguem entender. Talvez incapacidade nata de falta de compreensão, de ginástica mental. Talvez.

 

Felizmente nem tudo é burrice porque, com a graça de Deus, não generalizo ou universalizo os casos de complexidade que infelizmente muito abunda.

 

Tudo levaria a pensar, se a lógica tivesse alguma lógica, que o Brasil, segundo aliás o afirmaram já alguns grandes pensadores, seria a continuação de Portugal, não daquele Portugal gasto, envelhecido, esbulhado dos seus valores por séculos de inquisição e absolutismo monárquico ou republicano, mas do Portugal “dos Quatrocentos” forte, entusiasta, animado de valores cristãos que espalharam por tanto deste mundo.

 

O Brasil era terra onde se podiam refugiar longe desses ferozes extirpadores, muitos daqueles que procuravam liberdade, como aconteceu com a grande maioria dos imigrantes que de França e Inglaterra se dirigiram para a América do Norte.

 

Nos trópicos, com seu difícil clima que liquidava nos primeiros meses uma quantidade imensa dos entusiasmados imigrantes, e sem os seus costumeiros cereais como o trigo, o centeio e a cevada só o português conseguia resistir, mesmo que a mortandade inicial chegasse por vezes a cinquenta por cento.

 

Só, não conseguia enfrentar o imenso desafio que lhe aparecia pela frente e o índio não abdicava da sua vida silvícola, fazia ele muito bem. Trouxe então o africano, forte, resistente, afeito a climas ainda mais violentos, e começou a construir uma nova nação.

 

Melhor ou menos bem misturou-se, e a partir daí surge a raça brasileira, com a determinação, o destemor e a intrepidez dos lusitanos, a resistência dos africanos e a liberdade do índio.

 

Começa a crescer a nação brasileira. Adaptou-se a Bíblia de Roma para que todos se mantivessem unidos na sua completa gama de matizes não só da pele.

 

Escravos e senhores lutam lado a lado contra invasores estrangeiros, porque o português era o único para quem os tais matizes, ainda hoje, pouco mais são do que embalagem p’ra viagem! 

 

Choram os brasileiros o seu passado português e lamentam que se tenham posto fora os holandeses, que tanto poderiam ter feito, mas nada fizeram porque quando aqui chegaram os portugueses já produziam todo o açúcar e o sal que eles queriam comerciar na Europa.

 

Mas por tanto lado continua a ouvir-se um choro e ranger de dentes porque o Brasil teria sido feito da penúria da Europa e por sua vez de Portugal, com os degredados.

 

Só uma história de degredados. Duas.

 

Um degredado: Tomás António de Gonzaga. Nascido em Portugal, formou em direito na Universidade de Coimbra. Envolvido na Inconfidência Mineira, após três anos preso na Ilha das Cobras, é degredado para Moçambique. Carece comentar mais, ou o “degredado” nos merece todo o respeito? Não contemos pois a sua história.

 

 

Outro, que foi para Angola: José Teixeira da Silva conhecido como o Zé do Telhado, o Arsène Lupin ou o Robin Wood português.

 

Durante as lutas fratricidas entre as facções do monarquismo absoluto e do liberalismo, este representado por D. Pedro IV/I (Brasil/Portugal), aquele homem vende uma pequena courela de terra, compra uma arma e vai lutar pelas liberdades constitucionais.

Tanta bravura e determinação demonstra que é agraciado com a mais alta condecoração de Portugal, a Torre e Espada. Acaba a luta, Zé do Telhado é abandonado, e sem terra para trabalhar e sem emprego, dedica-se ao assalto a casas ricas. O produto dos saques dividia-os com os necessitados. Indiciado foge para o Brasil, onde se demora pouco. Regressa a Portugal saudoso da mulher e cinco filhos.

Aprisionado, é julgado e condenado ao degredo em Angola. Aqui deixa crescer as barbas, o que lhe valeu o terceiro nome, Quimuezo.

 

Junta-se a uma angolana de quem tem mais três filhos. Todos se encontram sepultados juntos. Ainda hoje, todos os anos no dia da sua morte, algumas modestas flores são depositadas na sua campa! Deixou saudade entre a gente simples do Xissa.

 

Degredados destes... tomara qualquer país receber muitos.

 

Mais unzinho, só: Camilo Castelo Branco, o maior romancista da língua portuguesa. Tinha uma apaixonada. Casada com um burguês, daqueles que não imigram, nem são degredados, o chamado pãozinho sem sal, era ela quem saltava a cerca para se agarrar à sua paixão. Crime de adultério! A condenação habitual era enclausurar a traidora e degredar o galã. Camilo esteve em riscos de ser enviado para Angola. Dom Pedro II, admirador do escritor e sabendo das razões que o levaram à prisão, de passagem por Lisboa, foi visitá-lo à cadeia. Com o simpático gesto do tio do rei de Portugal, e Imperador do Brasil, o caricato caso Camilo foi encerrado. Menos um perigoso degredado a perturbar as terras de colônia!

 

Então quem imigrava? Quem são os antepassados dos chorosos Silva, Gonçalves, Carvalho, Gomes, Cardoso, Pereira, Menezes, Costa, Albuquerque, e... e... ? Quem eram esses velhos Manuéis e Joaquins sempre ridicularizados? Foram os portugueses mais válidos, os mais determinados, valentes, insatisfeitos com a intransigência religiosa e/ou política, aqueles que procuravam a liberdade, aqueles para quem a Cruz de Roma se adoçou com o sincretismo africano, que se bateu pela integridade do território, que se riu para tratados de reis e papas e avançou com esses tratados até onde as fronteiras naturais deste continente sul o seguraram.

 

Quem mais fez algo parecido?

 

Que melhores antepassados desejariam os brasileiros ter? Os van der holland que de sarcástico riso nos seus rostos venderam Pernambuco para se ir embora? Venderam o que nem sequer era deles! Aqueles que continuam a ter por lema o viver de juro alto? O que fizeram no Suriname? Venderam também New York aos ingleses (olha o negócio aí!) e de troco levaram aquela Guiana, a quem só deram independência em 1975. E o progresso que deixaram nesse país? O Brasil para eles não era nem uma colônia nem o prolongamento do seu território europeu. Era um negócio como qualquer outro, a lucro e juros, e por isso, o venderam.

 

Brasileiros chorões: continuem a lamentar os vossos avós. Aqueles que desbravaram os sertões, os Joãos Ramalho, os Tomés de Sousa, e até o primeiro bispo do Brasil cerimonialmente comido pelos aimorés, talvez por se chamar Sardinha!

 

Eu, venero os meus, que chegaram a esta terra vindos de muito lado, desde portugueses que passaram por Cuba há mais de duzentos anos, a outros que vieram diretamente da terrinha, um dos quais foi dos incluídos na escravatura branca, a franceses que fugidos da perca de liberdades depois do fim da primeira república francesa, no Pará se reencontraram, a boémios da Boémia, e a possivelmente outros sangues.

 

Eu sou um pouco de cada um deles. E quanto orgulho carrego.

 

Na minha família só se choram os antepassados pela saudade que deixam.

 

Fortuna não deixaram. Saudade e respeito, sim.

 

Rio de Janeiro, 29/Dez/2002

 

 Francisco Gomes de Amorim

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