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A bem da Nação

NEM POR OSMOSE – 1

 

Li em tempos que o Professor Marcello Caetano lia vários livros ao mesmo tempo e sempre associei esse hábito ao final político que a História lhe registou.

 

Creio difícil – se não mesmo impossível – fazer uma ligação lógica directa entre o dito hábito e o epílogo no Largo do Carmo mas, na verdade, mantive até muito recentemente o método de só ler um livro de cada vez. Seria esse um modo que arranjei de espantar fantasmas? Talvez, não nego. Até porque, como não sou supersticioso, só essa hipótese fantasmagórica resta.

 

Mas, agora que estou a ler vários livros ao mesmo tempo, arranjei uma desculpa que me parece muito lógica: uns são livros de consulta; outros são livros de correnteza. E dentre estes últimos, os de ler de fio a pavio, só leio um de cada vez.

 

Dos de consulta tenho ao activo o Dicionário de Filósofos (editado pelas Edições 70), Les 100 citations de la Philosophie, de Laurence Devillairs (PUF) e A Filosofia do Séc. XX coordenado pelo Professor Fritz Heinemann (pela Fundação Gulbenkian). Dos de correnteza, li há dias A um deus desconhecido de John Steinbeck (Livros do Brasil) e estou agora no pólo oposto a deliciar-me com Eu não venho fazer um discurso de Gabriel Garcia Marquez (D. Quixote). Num nível intermédio, meio consulta-meio correnteza, tenho o Outras cores de Orhan Pamuk (EDITORIAL PRESENÇA) que pode ser lido aos saltinhos uma vez que se trata de um conjunto de textos soltos que ele foi publicando aqui e ali mas que recentemente (2007) decidiu coligir em livro.

 

Ou seja, duma assentada, reuni na minha mesa-de-cabeceira três nobelizados e alguns Professores universitários.

 

E se os filósofos se vão entretendo com ideias a que previamente extraíram a mais remota ponta de humor e generalizam os conceitos de modo a que qualquer um de nós possa em qualquer circunstância «enfiar a carapuça», os nobelizados são muito mais humanos e integram-nos em cenários tão ou mais reais do que se nós próprios fossemos aos locais referidos. Como assim? Pois aí está a capacidade imaginativa, a urdidura das palavras, os conceitos despretensiosos que vão deixando por aqui e por ali... e nós, leitores, sempre livres de escolher os que nos servem e os que servem aos outros.

 

Steinbeck.jpg

 

Uma pequena amostra das frases de Steinbeck que me chamaram a atenção:

 

«... filósofo furioso, marxista pelo prazer da discussão.» (pág. 51) – a famosa dialéctica marxista;
«... ela tinha o cabelo tufado no alto da cabeça, mas continuava a comportar-se como professora.» (pág. 54) – professora tem cabelo acachapado e não há discussão;
«[ela] via-se a sair para ir à catequese em Monterrey e depois a tomar parte numa longa procissão de crianças portuguesas vestidas de branco marchando em honra do Espírito Santo (...)» (pág. 144) – a colónia açoriana na Califórnia na pena dum nobelizado sensibiliza qualquer português;
«... a vida não pode ser cortada repentinamente. Uma pessoa não pode estar morta enquanto as coisas que alterou não tiverem morrido. Os efeitos que provocou constituem a única prova de que esteve viva. Enquanto se conservar uma recordação, ainda que dolorosa, uma pessoa não pode ser posta de parte, morta. É um longo processo lento a morte de um ser humano.» (pág. 189) – o tema central do livro tem a ver com o espírito protector do pai do personagem principal que se instalara num grande carvalho e a desgraça se ter abatido sobre a comunidade quando um fundamentalista duma das inúmeras Igrejas americanas cortou a árvore.

 

Um livro sério em que o autor vai largando piadas que os leitores escolhem a seu bel-prazer, um tema muito espiritual que me pareceu esotérico mas admitindo que Steinbeck preferisse considerá-lo exotérico.

 

A ver se o manuseio de tantos nobelizados melhora a minha escrita. Ou será que nem por osmose?

 

Lisboa, 26 de Dezembro de 2015

 

Henrique no barco-Israel.JPG

 Henrique Salles da Fonseca
(navegando de Chipre para Israel, Março de 2014)

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