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A bem da Nação

NATIVIDADE E A GENÉTICA – 4

 

 

 

Ao passar a vista por escritos vários sobre Natividade, leio o “Elogio histórico de Joaquim Vieira Natividade”, pelo Prof. Fraga de Azevedo, que lhe sucedeu na cadeira nº 9 na Academia das Ciências. Impressionou-me como fez ressaltar um paralelismo que tenho referido várias vezes entre a Agronomia e a Medicina, particularmente quando quero dar ao grande público alguma ideia sobre a metodologia de trabalho e vou buscar o exemplo de algo que todos conhecem de perto. Nesse “Elogio histórico”, diz o Prof. Fraga de Azevedo: “Mas, alem do paralelismo dos seus métodos, os médicos e os agrónomos encontram-se de mãos dadas, sobretudo na convergência simultânea dos seus grandes e tantas vezes incompreendidos esforços a favor do bem estar da humanidade”.

 

E continua, por mais algumas páginas, a falar dessa articulação entre a Medicina e a Agronomia e de como, entre outros contactos, frequentemente ia à Estação Agronómica, então em Sacavém, nesse magnífico intercâmbio científico, onde não há barreiras.

 

 

* * *

 

Natividade era casado com uma senhora de raro talento artístico. Mas nele próprio havia, para alem do espírito científico, uma componente artística muito elevada. As suas obras, a par dum valor científico muito alto, revelam um igualmente elevado valor artístico. A estética era, para Joaquim Natividade, um elemento igualmente fundamental.

 

De duas formas se revela esse valor artístico na sua obra: pela palavra escrita e pela imagem.

 

Os seus escritos eram caracterizados não só por um elevado rigor científico, mas também por uma alto valor literário, por vezes, mesmo, poético. Embora me tenha escrito uma vez (ao agradecer o livrinho “Uma guerra entre as plantas”, que lhe enviei em 1954) que "Tanto me conformei com as minhas limitações que até, desde os 18 anos, deixei de fazer versos (prazer dilecto da minha juventude!)..." não deixou de fazer poesia em prosa.

 

São numerosos os seus trabalhos onde isso é evidente e apenas referirei alguns, como “Os monges agrónomos” e, particularmente, a “Jornada a um mundo de beleza eterna”. Mas também se encontra poesia nalguns trabalhos quase estritamente técnicos, como nas “conferências de Viseu” (Natividade, 1938b) e na própria “Subericultura“ (Natividade, 1950), cuja introdução é um verdadeiro hino poético.

 

Pela imagem, a faceta artística é evidente em quase toda a sua obra, pois as fotografias que a ilustram, sempre da sua autoria, são verdadeiras peças de exposição. Na imagem dinâmica a arte de Joaquim Natividade está patente no filme “FLORES. Mundo de beleza” de que foi realizador e director técnico e para o qual escreveu o comentário, aliás cheio de poesia.

 

A faceta artística de Natividade e de sua esposa D. Irene é assinalada pelo Eng.º Agrónomo Edgar Fernandes Teixeira (Teixeira, 1970), do Instituto Agronómico de Campinas, Brasil. Para alem de citar alguns trechos de vários trabalhos, dizendo que Natividade “escreve como um poeta”, relata o encontro que, acompanhado da esposa, com ele teve em Alcobaça, ao entrar no seu gabinete de trabalho: “Ao fundo da sua mesa, grande parte da parede estava revestida por uma belíssima tapeçaria representando os frutos, uma riqueza de Portugal, verdadeiro mural, obra delicada de artesanato de lã. Minha senhora e eu, juntos, exclamámos: - Mas que beleza! Que maravilha! Vieira Natividade sorriu, não escondeu a sua satisfação e disse: - ”É obra de minha mulher. Ela vem-se dedicando a trabalhos dessa natureza e com bastante êxito”.

 

Será caso para perguntar se é possível ser-se um bom cientista, particularmente em Portugal, se não se tiver, igualmente, alma de poeta?

 

Para terminar esta minha desvaliosa arenga sobre "Natividade e a Genética", citarei as palavras com que encerrou uma palestra realizada na Estação Agronómica Nacional em 8 de Abril de 1938, sobre "Alguns problemas da propagação vegetativa das espécies lenhosas" (Natividade, 1938a): "Para obter novas formas culturais, novos tipos mais vantajosos; para haver dinamismo, variedade, numa palavra, progresso, há que recorrer à reprodução.

 

Confesso-o com o prazer do sentimental e do romântico incorrigível que fez, com magoa, o elogio da multiplicação artificial; mas que, no entanto, vê com benevolência, em cada pomar florido, no ar embalsamado pelos perfumes subtis da floração majestosa, em cada canteiro onde as flores entreabrem as pétalas às alegrias do sol... um trecho encantador... da Ilha dos Amores..."

 

 Miguel Mota

 

Palestra proferida em 25 de Novembro de 1993, na Estação Agronómica Nacional, em Oeiras, na sessão de homenagem à memória do Prof. Joaquim Vieira Natividade.

 

Publicado na “Brotéria Genética” XVI (XCI) 13-24.1995

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