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A bem da Nação

NATIVIDADE E A GENÉTICA – 3

 

 

 

O seu interesse pelos trabalhos de citologia, de que posteriormente se afastou, foi para mim claro nalgumas cartas, das numerosas que dele tive o prazer e a honra de receber, nomeadamente sempre que lhe enviava trabalhos meus.

 

Agradecendo uma separata dum trabalho publicado na "Heredity", que lhe enviei, escreve-me, em Junho de 1956: "Ainda que hoje a Citologia não seja para mim mais do que uma grata recordação, pois fui empurrado pela vida para outros rumos, pude apreciar o interessante trabalho que agora me enviou e por isso lhe venho apresentar as minhas felicitações muito sinceras".

 

E, porque tinha bem a noção do interesse para o País da publicação de trabalhos em revistas de grande circulação internacional, adianta: "A colaboração portuguesa em revistas como a "Heredity" singularmente honra a ciência nacional e constitui motivo de orgulho para os investigadores portugueses".

 

Mais tarde, em 1965, noutra das suas cartas, volta à superfície o seu antigo "amor", nas seguintes palavras: "Li com muito interesse os dois trabalhos e em especial o publicado na "Cytologia" porque, embora afastado desse campo de estudos, a citologia apaixonou-me noutros tempos e não deixo de seguir, sempre que posso, e embora de longe, os enormes progressos realizados nas técnicas e as novas contribuições que vão surgindo"

 

Na carta que dele recebi, datada de 7 de Abril de 1967, a agradecer a separata do escrito que intitulei “Mendel, o fundador da Genética” (uma conferência que proferi, a convite da Sociedade Portuguesa de Ciências Veterinárias, em 9 de Dezembro de 1965, inaugurando um ciclo comemorativo do centenário da apresentação do trabalho de Mendel) é ainda a Genética o assunto visado: “De tudo o que me foi dado ler, publicado no centenário de Mendel, foram o seu trabalho e o do nosso Amigo Quintanilha os que constituíram, a meu ver, a mais simpática e carinhosa homenagem ao fundador da Genética.

 

Conseguiu o meu Amigo realizar uma perfeita síntese da vida e da obra de Mendel, e mostrar a contribuição que trouxe ao esclarecimento de problemas básicos da hereditariedade. A forçada condensação do assunto não prejudicou a clareza, e transparece nas suas palavras a admiração sincera pelo austero pioneiro da Genética e o anseio de que a sua obra seja compreendida e admirada por todos”.

 

Peço desculpa destas citações, que envolvem o meu caso pessoal, mas creio que tais palavras dão bem a medida do seu interesse pela Genética e pelo seu grande capítulo que é a Citologia, hoje mais frequentemente designada por Biologia Celular.

 

* * *

 

Para realizar uma tão grande obra científica, Natividade pôde dispor de alguns meios de trabalho. Não é possível fazer citologia sem um microscópio e Natividade dispunha de bom equipamento. Com maior ou menor dificuldade lá ia obtendo financiamento para os seus trabalhos, sem ter que passar tempos infinitos a preencher propostas de projectos, a maior parte dos quais não receberá aprovação.

Teve sempre a possibilidade de fazer separatas dos seus numerosos trabalhos (o que não sucede a muitos que labutam na investigação), o que era importante para a divulgação dos mesmos.

 

No entanto, os meios de que pôde dispor ficaram muito aquém do que seria minimamente desejável, por incrível miopia dos Ministros (e Secretários e Subsecretários de Estado) da Agricultura desses tempos, que não perceberam o enorme investimento que era o dinheiro gasto com os trabalhos de Natividade. Fica-se a pensar no que poderia ter feito se os meios de trabalho tivessem sido outros, meios de trabalho que, por ironia do destino, lhe foram dados pouco tempo antes da sua morte. Numa das suas cartas, datada de 20 de Fevereiro de 1965, dizia-me: “O Plano Intercalar, porque passei a entender-me directamente com o Ministro, trouxe leve brisa favorável... Por quanto tempo? Não me surpreenderá que, de um momento para o outro, surja a calmaria, que é como quem diz, a paz podre... Não desanime, e prossiga o seu belo trabalho. Só isto conta. Há que remar contra a maré!”

 

O Ministro era o Eng.º Ferreira Dias, o único governante, depois de Rafael Duque, que mostrou ter alguma noção do que a Agricultura precisava. Mas o que realizou foi pouco e ficou muitíssimo aquém do que seria necessário e era possível fazer.

 

Só no final da vida Natividade pôde dispor , como declarou, de bons meios de trabalho, que lhe deviam ter sido proporcionados vinte ou trinta anos antes. São elucidativas as palavras que em 16 de Dezembro de 1967 escreveu ao seu amigo Aurélio Quintanilha (Quintanilha, 1969): “Disponho dum gabinete que até parece o “boudoir” de Cleópatra! Belas salas de trabalho, um grupo de câmaras frigoríficas, uma das quais com atmosfera artificial, para os estudos de conservação de frutos; enfim, qualquer coisa faraónica em comparação com a miséria em que temos vivido!

 

Por ironia do destino, tudo isto chega quando faltam apenas 21 meses para atingir o limite de idade! Até dá vontade de chorar! Durante os melhores anos da minha vida, lutei com dificuldades e incompreensões de toda a ordem; conheci a extrema indigência laboratorial; tive que improvisar todas as ferramentas de trabalho; tudo o que se fez foi à custa de sangue, suor e algumas lágrimas! E nem se pode dizer agora que Deus dá nozes a quem não tem dentes. Deram-me as nozes, é certo; disponho ainda de dentes capazes de roerem um chispe de elefante... simplesmente a lei obriga-me a fazer as malas quando mal começo a descascar as nozes!”

 

Os responsáveis portugueses não serão capazes de compreender um tão pungente depoimento? Infelizmente, nem os 21 meses de que Natividade fala pôde tirar partido desses meios da última hora. A morte ceifou-o, quase precisamente um ano antes de completar os 70 anos, em 19 de Novembro de 1968.

 

* * *

 

Apesar do seu alto mérito, já então demonstrado, Natividade foi, a certa altura da sua carreira, vítima dum tratamento inadequado e consequente da inversão de valores infelizmente tão comum em Portugal. Pessoa muito sensível, no seu feitio introvertido, que só se abria francamente para os amigos íntimos, sentiu amargamente essa afronta, que o marcou duma maneira muito forte.

 

Mas duas instituições souberam reconhecer-lhe o mérito autêntico: a Estação Agronómica Nacional, que logo em 1937 o acolheu com o posto máximo de Investigador (categoria paralela à de Professor Catedrático), e a Academia das Ciências de Lisboa, que o elegeu como sócio.

 

Se a morte não tivesse interrompido um ano antes a sua carreira fulgurante, Natividade ter-se-ia jubilado em 22 de Novembro de 1969, ao atingir os 70 anos.

 

É curioso que o seu último acto oficial – que não, certamente, o seu último trabalho de investigador, que por certo continuaria para além do chamado "limite de idade" – teria sido nesta mesma sala, pois fazia parte dum júri de provas que se efectuaram em 17, 19 e 21 de Novembro de 1969. E foi muito lamentável a sua ausência porquanto certamente não consentiria – considerando, até, a sua amarga experiência pessoal! - que fosse cometido um acto afrontoso, que muito enxovalhou esta nossa casa, a Faculdade de Ciências de Lisboa (donde vieram dois dos responsáveis) e, duma forma geral, a ciência portuguesa.

 

(continua)

 

Miguel Mota

Departamento de Genética e Melhoramento,

Estação Agronómica Nacional, Oeiras

e Universidade de Évora, Évora

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