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A bem da Nação

MUITO ESQUECE A QUEM NÃO SABE - 2

Do que, ao longo dos anos, fui estudando sobre Marx, o marxismo e o comunismo, retive fundamentalmente o que segue:

  • O sofisma da diabolização do lucro que conduziu a indústria soviética a um monte de sucata[i];
  • A falácia do determinismo histórico que se revelou «apenas» às avessas[ii];
  • O absurdo humanista da ditadura do proletariado[iii];
  • O absurdo completo que é a perenidade revolucionária[iv].

Quem me conhece, não estranha estas minhas observações, quem não me conhece, fica desde já a saber que nada me liga ao marxismo, ao comunismo ou a qualquer outra forma de fascismo.

Quem habitualmente me lê, sabe na perfeição o que significa cada uma das minhas observações; quem não sabe, não me lê e, portanto, posso passar por cima das explicações.

* * *

Com enorme antecedência relativamente ao colapso soviético, António Gramsci (1891-1937), adepto marxista, previu que com a classe proletária não se iria a qualquer lado e que a destruição do mundo ocidental tinha que mudar de instrumento, ou seja, passar da manipulação da boçalidade proletária para a mobilização das classes eruditas. E assim foi que apareceu o conceito de «hegemonia e bloco hegemônico».

E aqui, para encurtar razões e não alongar o presente texto, recorro à síntese wikipédiana:

Gramsci é famoso principalmente pela elaboração do conceito de hegemonia e bloco hegemônico e também por se focar no estudo dos aspectos culturais da sociedade (a chamada superestrutura no marxismo clássico) como elemento a partir do qual poder-se-ia realizar uma acção política e como uma das formas de criar e reproduzir a hegemonia.

Alcunhado em alguns meios como "o marxista das superestruturas", Gramsci atribuiu um papel central à separação entre infraestrutura (base real da sociedade, que inclui forças produtivas e relações sociais de produção) e superestrutura (a ideologia, constituída pelas instituições, sistemas de ideias, doutrinas e crenças de uma sociedade), a partir do conceito de "bloco hegemónico". Segundo esse conceito, o poder das classes dominantes sobre o proletariado e todas as classes dominadas dentro do modo de produção capitalista não reside simplesmente no controle dos aparelhos repressivos do Estado. Se assim fosse, tal poder seria relativamente fácil de derrotar (bastaria que fosse atacado por uma força armada equivalente ou superior que trabalhasse para o proletariado). Este poder é garantido fundamentalmente pela "hegemonia" cultural que as classes dominantes logram exercer sobre as dominadas, através do controle do sistema educacional, das instituições religiosas e dos meios de comunicação. Usando deste controle, as classes dominantes "educam" os dominados para que estes vivam em submissão às primeiras como algo natural e conveniente, inibindo assim a sua potencialidade revolucionária. Assim, por exemplo, em nome da "nação" ou da "pátria", as classes dominantes criam no povo o sentimento de identificação com elas, de união sagrada com os exploradores, contra um inimigo exterior e a favor de um suposto "destino nacional" de uma sociedade concebida como um todo orgânico desprovido de antagonismos sociais objetivos. Assim se forma um "bloco hegemónico" que amalgama a todas as classes sociais em torno de um projeto burguês. O poder hegemônico combina e articula a coerção e o consenso.

* * *

Historicamente, ao movimento gramsciano original, o italiano, faltou o apoio das grandes massas populares pelo que tudo acabou afogado nas prisões de Mussolini – para gáudio do Partido Comunista Italiano esse, sim, controlador de parte importante do proletariado de então.

(continua)

Junho de 2020

Henrique Salles da Fonseca

[i] - É do lucro que se geram a poupança e o investimento. Sem lucro, não há investimento e, daí, a não renovação dos equipamentos e a acumulação de sucata.

[ii] - Por falta de investimento, gerou-se o colapso económico e deste ao colapso político foi um instante. Em vez do triunfo do comunismo, aconteceu o seu colapso.

[iii] - Todos os homens nascem iguais pelo que não faz sentido que uns tenham mais direitos que outros.

[iv] - A revolução é, por definição, uma acção desenvolvida ao arrepio do quadro legal até então prevalecente. Se a revolução é constante, não se cria um quadro legal que permita a constituição de um Estado de Direito. Na ausência de um quadro legal, prevalece a vontade e o improviso (o capricho) do ditador que assume a chefia da ditadura de uma das classes sobre as outras. Ao regime submetido ao capricho do ditador chama-se fascismo.

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