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A bem da Nação

MUITAS E DESVAIRADAS GENTES – 7

 

Foi logo à entrada do Kerala que começámos a ver bandeirolas comunistas engalanando as ruas e, começando por ficar estupefacto, passei-me depois para a apreensão logo que me informaram de que naquele Estado a governação alterna tradicionalmente entre o Partido do Congresso e o Partido Comunista. Pensei – mas não disse – que os gatunos de esquerda alternam com os gatunos de direita. Ainda bem que calei esse meu pensamento pois já não estava no Tamil Nadu onde, aí sim, o raciocínio poderia ter algum fundamento. No Kerala não vi vergonhas dessas. Pelo contrário, fiquei a saber que é o Estado com o segundo mais elevado PIB per capita da União (o primeiro continua a ser Goa) e, por contraste com o Inferno de que acabáramos de sair, as ruas estavam limpas e as obras públicas em andamento. Por coincidência, a obra mais emblemática por que passámos foi a do metro aéreo de Cochim com trabalhos numa enorme extensão a contrastar com a paralisação do homólogo de Chennai.

 

Claramente contrário ao comunismo e a todas as demais formas de ditadura, abri bem os olhos a ver se via alguma coisa que me fizesse lembrar a Cortina de Ferro. Mas não vi nada que me chocasse e lá fomos todos navegar na baía de Cochim em barcos privados que antigamente devem ter tido alguma função no transporte de mercadorias mas que agora estão muito bem adaptados ao turismo. No que usei, havia dois belos quartos com casa de banho privativa para além, claro está, da sala de estar e de refeições que era o deck da vante. A cozinha e instalações da tripulação eram na ré e tivemos todos muito mais que fazer do que ir até lá.

 

Barco da baía de Cochim-2.jpg

 

Bela passeata que deu para lembrar o delta do Paraná, junto a Buenos Aires, com belas casas ao longo das margens a fazer lembrar uma muito boa qualidade de vida, «vaporetti» a lembrar Veneza e calor a fazer-nos lembrar que estávamos mesmo no sul da Índia.

 

Calecute foi o porto de chegada de Vasco da Gama em 17 de Maio de 1498 e Cochim foi a localização, em 1505, do 14º hospital de apoio às nossas navegações na rota entre Tavira (cujo hospital já existia em 1430) e Goa (hospital já existente em 1512) num total de 17 estabelecimentos.

 

E porquê a substituição de Calecute por Cochim nas preferências portuguesas? Porque o rei de Cochim pediu a ajuda portuguesa contra o seu rival tradicional de Calecute a cuja jurisdição se abrigaram entretanto todos os descontentes com a nossa chegada, ou seja, os mouros que até então dominavam o comércio entre a Índia e Alexandria, porto onde os venezianos iam buscar as mercadorias orientais. Pois bem, todos esses viram as barbas a arder e procederam com a maior hostilidade contra o rei de Cochim por este nos ter abrigado. Esta inimizade perdurou até recentemente e não podemos esquecer que Krishna Menon, ministro de Nehru em 1961 e grande entusiasta da extinção do Estado Português da Índia, era natural de Calecute.

 

Recordemos que Cochim acabou por ser integrada no Estado Português da Índia entre 1503 e 1663 e que foi lá que Vasco da Gama morreu aos 55 anos de idade no dia 25 de Dezembro de 1524 ficando enterrado na igreja de S. Francisco donde acabou por ser trasladado para a Vidigueira em 1539. Contudo, as populações acorrem à campa, onde sabem que o seu corpo já não está, com a maior solenidade e tocam na laje como num talismã. E a intensidade das emoções é ainda hoje tão visível que eu não tive coragem de perturbar ninguém perguntando o que os leva a tanta veneração pelo nosso primeiro Vice-rei da Índia.

 

A malha urbana de Cochim conta actualmente com cerca de milhão e meio de habitantes sendo que mais de metade professa o catolicismo.

 

Cochim-aulas de português.jpg

Irmã Carmo de Jesus e alunos-Cochim.jpg

 

É no Instituto Vasco da Gama, sedeado na Diocese de Cochim, às portas do Museu Indo-Português, que a Irmã Carmo de Jesus (ao centro na foto) ministra aulas de português desde 2008. Eis mais uma heroína da lusofonia que emocionadamente saúdo. Pena que lá não estivesse quando por lá passei. Mas deixei um recado ao porteiro para que lhe dissesse que um turista tinha perguntado por ela. Fui eu, Irmã!

 

(continua)

 

Lisboa, 5 de Dezembro de 2015

 

Henrique junto à que foi a sepultura de Vasco da

Henrique Salles da Fonseca

(junto à que foi a sepultura de Vasco da Gama em Cochim)

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