Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

A bem da Nação

MUITAS E DESVAIRADAS GENTES – 13

 

Quando há oito anos estive em Goa pela primeira vez, não consegui visitar o meu amigo mais antigo naquelas paragens – e certamente dos mais ilustres – o Padre Joaquim Loiola Pereira, Secretário do Patriarca do Oriente e Arcebispo de Goa, mas desta vez não me permitiria nova falta e, portanto, troquei as voltas ao guia turístico e fui mesmo ao Paço Patriarcal.

 

P. Joaquim Loiola Pereira.jpg

 P. Joaquim Loiola Pereira

 

Sem aviso prévio, apresentei-me no hall de entrada e o porteiro, amável mas sem saber quem eu era nem ao que ia, indicou-me prontamente a sala no primeiro andar e apontou-me a escadaria como se eu fosse o enviado de algum Arcanjo. Evidente falta de segurança. Fiquei depois a pensar que o dito porteiro, algo idoso, já tinha poderes especiais depois de tanto tempo próximo da espiritualidade conseguindo distinguir os bons dos malandros só olhando para a cara de cada um. Ou será que me viu a aura e que ela é azul?

Paço patriarcal de Goa.jpg

 Paço patriarcal de Goa

 

Subi as escadas, virei no sentido indicado pelo porteiro e a porta do gabinete do meu amigo estava aberta e ele sentado à secretária ao lado da janela. Anunciei-me com um toque na dita porta aberta e logo o Padre Loiola, de sotaina branca, me reconheceu e me abraçou. Parecia que tínhamos acabado de conversar na semana anterior e que retomávamos a conversa com o entusiasmo em que a deixáramos antes. E falámos de tantas coisas e não falámos de tantas outras que, não há dúvida, teremos conversa para os próximos decénios...

 

Contei-lhe da visita que acabara de fazer ao Sri Lanka e da minha tentativa de localização do túmulo de S. José Vaz. Busca infrutífera, aliás. Então, o Padre Loiola contou-me que ele próprio e um colega tinham sido encarregues pelo seu Patriarca de irem a Kandy para tentarem identificar o túmulo do primeiro Santo genuinamente goês.

 

Deslocando-se num carro com motorista da Diocese de Colombo e acompanhados de um Padre diocesano cingalês, lá foram até Kandy onde pararam em frente do Templo do Dente de Buda, local onde consta que S. José Vaz foi enterrado. Mas o Governo cingalês decidira demolir a igreja que ali se situava (e onde estaria a sepultura do Santo) para construir uma Esquadra de Polícia e qual não foi o espanto quando foi descoberta uma sepultura e um esqueleto. Foi então com enorme entusiasmo tanto das Autoridades civis como religiosas (católicas, claro!) que se procedeu a tudo o que era possível para identificar o esqueleto. E qual não foi o desânimo quando se concluiu que aquele esqueleto não era o do Santo.

 

História interessante, sem dúvida e que não se conclui enquanto não for descoberto o esqueleto que todos procuram afanosamente. Mas o mais curioso está no que o Padre Loiola contou de seguida: tanto o motorista como o Padre, ambos cingaleses, mesmo dentro do carro, falavam em surdina nas cercanias do local em que a tradição aponta como o da sepultura para não afligirem os espíritos que por ali possam vaguear. É fantástico como dois católicos militantes, um deles Padre, possam estar imbuídos de crenças tão sentidas sobre a presença de espíritos vagantes que se possam afligir com alguma voz mais sonante que ande em busca dos restos físicos de outro espírito, amigo dos potencialmente aflitos.

 

A busca continua mas, pela graça divina, sem ofensa para os espíritos vagantes.

 

E a conversa continuaria se os meus companheiros de viagem não tivessem telefonado lá de baixo, do hall do Patriarcado, a dizer que estavam fartos de esperar.

 

Logo o Padre Loiola me acompanhou até junto do autocarro e, na pressa das despedidas, esqueci-me de fazer a foto que aqui falta.

 

Lisboa, 11 de Dezembro de 2015

 

Henrique num templo indú em Goa.jpg

Henrique Salles da Fonseca

(num templo indú algures em Goa, NOV15)

5 comentários

Comentar post

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2018
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2017
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2016
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2015
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2014
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2013
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2012
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2011
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2010
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2009
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2008
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2007
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2006
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D
  209. 2005
  210. J
  211. F
  212. M
  213. A
  214. M
  215. J
  216. J
  217. A
  218. S
  219. O
  220. N
  221. D
  222. 2004
  223. J
  224. F
  225. M
  226. A
  227. M
  228. J
  229. J
  230. A
  231. S
  232. O
  233. N
  234. D