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A bem da Nação

MUITAS E DESVAIRADAS GENTES – 10

 

 

Acabara-se o tempo das luzidias fragatas e quando o último português regressava à pátria lambendo as feridas do Império liquidado, sobrevoou a antiga fortaleza de Nossa Senhora dos Milagres no Cabo de Jafanapatão e à sua frente viu o Sol pôr-se em terra por trás de Chennai e Pondicherry. Era o dia 21 de Dezembro de 1999 e às zero horas a Bandeira Portuguesa deixara de flutuar em Macau.

 

Forte de Jaffna-1.jpg

Forte de Jaffna-2.jpg

Forte de Jaffna-3.jpg

 

Lembrou-se então dos outros portugueses que por ali tinham andado vendo aquele belíssimo pôr-do-Sol nos recifes que dão para o Estreito das Pérolas que agora se chama de Palk.

 

Hoje, o cabo e a península de Jafanapatão regressaram ao seu nome mais antigo de Jaffna e muitas daquelas gentes já não falam português nem praticam o cristianismo; falam tamil e são um bastião hindu da ortodoxia saivita, adoradores de Shiva, ou são budistas que nesse ano de 1999 morriam às mãos dos tigres radicais. Eles, que chegaram a ser totalmente católicos, ensanguentavam-se como se nada tivessem aprendido com o passado.

 

E como foi possível que tanta coisa mudasse assim tão drasticamente?

 

Conversões em massa ao catolicismo, é bem de ver, à maneira de antigamente. Frei Paulo da Trindade refere que em 1634 havia por ali mais de 70 000 cristãos adultos e as crianças eram muitas mais a receberem a catequese nas 25 Paróquias franciscanas. Nas 17 Paróquias jesuítas andavam os demais fazendo com que Fernão de Queiroz, o grande cronista português do Ceilão, chegasse ao ponto de descrever Jaffna como “totalmente cristã”. Mas o que sucedeu então?

 

Então sucederam muitas coisas nessa terra a que Camões chamou de Taprobana e entretanto muitas outras mais...

 

... em 1543, os portugueses intervieram pela primeira vez em Jaffna quando o rei local, Sankili, sequestrou alguns mareantes portugueses que por ali haviam naufragado e logo de seguida começou a perseguir os seus súbditos de Mannar, cristãos recentemente convertidos por Francisco Xavier. Pertencentes a uma casta inferior de pescadores, tinham contudo um negócio – o da apanha de pérolas – muito cobiçado pelos comerciantes muçulmanos de Calecute que constantemente lhes roubavam as preciosas capturas. A conversão deu-lhes o estatuto de súbditos portugueses e a esperança da inerente protecção militar. Eis o que fez soar o alarme de Sankili como uma verdadeira ameaça à economia e segurança de Jaffna, com Mannar a servir de testa-de-ponte dos invasores portugueses. Foram 600 os cristãos então chacinados pelas tropas ao serviço de Sankili mas o apelo de retaliação que o Padre Francisco Xavier logo fez só teve resposta em 1558 quando Constantino de Bragança capturou Jaffna obrigando Sankili ao exílio em Trincomali.


Foi já sob a tutela dos portugueses que Sankili regressou ao poder. Contudo, isso ocorreu sem que lhe fosse reconhecida a soberania sobre a região de Mannar nem sobre a navegação e comércio no estreito de Palk, o que significava uma drástica redução nas suas antigas receitas. Imagine-se quem ficou com tais prebendas...


Jaffna acentuou deste modo a instabilidade política por que vinha passando e, à semelhança do que era habitual no resto da ilha de Ceilão, os opositores do rei foram sempre pressionando os portugueses – verdadeiros detentores do poder – para verem as suas reivindicações atendidas. E tanto esses opositores fizeram que em 1570 pusemos o nosso protegido Periyapulle no trono. Só que em 1582 o filho de Sankili, Puviraja Pandaram, derrubou Periyapulle e deu de imediato início a uma política anti-portuguesa aliando-se com o Samorim de Calecute e atacando Mannar. Só que esta expedição militar falhou e Mannar manteve-se-nos fiel. Assim fomos aguentando a situação mas em 1591 avançámos sobre Jaffna, derrubámos o rei que tanto nos incomodava e substituímo-lo por um amigo nosso, Edirmanasingham, que reinou até à morte natural em 1617. Mas o seu sucessor foi assassinado e quem subiu ao trono foi Sankili Kumaran que pediu o nosso reconhecimento. À falta de resposta, voltou-se contra nós e em 1619 tivemos que tomar Jaffna passando a assumir a governação sem mais reis, quer fantoches quer inimigos. Entretanto, na dúvida, o rei deposto e toda a família foram deportados para Goa.

 

Filipe de Oliveira, o comandante das tropas portuguesas, classificou os habitantes de Jaffna como “pacíficos e fracos” e um seu oficial de alta patente, Lançarote de Freitas, descreveu-os como “sossegados, calmos e sem experiência militar” pelo que qualquer rebelião só poderia ser consequência da instigação externa. Essas pressões vinham sempre da Índia e, mais concretamente, de Madras (Chennai) e de Calecute cujo domínio sobre Jaffna cessara com a nossa chegada à região.

 

Esta conquista abriu as portas às conversões em massa pela prática do baptismo colectivo. Segundo testemunhos da época, a chegada dos missionários às aldeias era anunciada por tan-tans, os aldeões reuniam-se e os missionários “perguntavam” se queriam rejeitar os seus falsos deuses e se queriam aceitar o “único Deus verdadeiro”. Evidentemente, estas cerimónias eram “testemunhadas” pelas tropas portuguesas.

 

E assim foi que por ali ficámos até Junho de 1658 quando os holandeses nos expulsaram sem que opuséssemos resistência. Mais: os portugueses que lá estavam tiveram que ser evacuados pois estavam todos doentes ou já a morrer com as febres que por ali grassavam. Hoje sabemos que era paludismo, razão mais do que suficiente para explicar o característico sossego dos habitantes de Jaffna. Afinal, eles não eram pacíficos nem sossegados nem indolentes: eram doentes.

 

A tradição dos reis de Jaffna de se servirem dos mercenários de Tamil Nadu terá feito com que estes se habituassem a considerar aquela região como um feudo inalienável: o mercenário transformou-se em patrão, senhor da guerra, a ponto de a guerra civil cingalesa que recentemente foi ganha pelo General Sarat Fonseka colocar a questão da secessão política da península que se afirma hindu enquanto o resto da ilha se mantém budista. E, afinal, tudo isto por causa dumas febres que assolavam os ditos indolentes.

 

Depois dos portugueses, os seguintes a receber a morte pela via das febres foram os holandeses a que se seguiram os ingleses mas é no dialecto português que ainda hoje em Mannar, Trincomali e Batticaloa se diz:

 

Avé Maria, cheya de gracia
O Sinhor tem contigo
Bento es tu anter as mulhers,
E bento tem o froite de tua venter, Jesus.

Sante Maria, mãi de Déos,
Rogá per nós pecadors,
Agora en ne hora de nosse morti,
Amen.

 

Assim se reza no «português do Sri Lanka». Sim, afinal foram aqueles frades que acompanharam os navegadores para lhes tratarem das moléstias que deixaram a palavra, aquela que ainda hoje se pronuncia tanto tempo depois de se ter calado o fragor das batalhas que por tão longínquas paragens travámos.

 

O ferro das armas fundiu-se; vingou a palavra da Fé e o patrono católico do Sri Lanka, canonizado há pouco pelo Papa Francisco, é o português S. José Vaz.

 

Mas as nossas agências de viagens dão estas «coisas» de barato e organizam as passeatas turísticas por outras paragens. Pois é: nós também não fomos a Mannar nem a Jaffna, no norte da ilha, nem a Trincomali ou a Batticaloa na costa leste. Mas é lá que se situam belas páginas da História de Portugal e vivem os «portugueses abandonados» que lá deixámos e que ainda hoje se dizem portugueses.

 

Lisboa, 8 de Dezembro de 2015

 

Henrique no parlamento de Anuradhapura, Sri Lanka.

Henrique Salles da Fonseca

(no Parlamento de Anuradhapura, Sri Lanka)

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