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A bem da Nação

MOÇAMBIQUE REVISITADO – 6

Lourenço Marques.png

 

No Serviço a que Samora Machel pertencia no Hospital Universitário, houve um concurso para duas vagas de Auxiliar de 2ª classe de Analista de Laboratório de Anatomia Patológica. Concorreram três candidatos sendo um preto e dois brancos. A classificação foi a de um branco em 1º lugar, o preto em 2º e o outro branco em 3º. As vagas foram preenchidas pelos dois brancos. (Esta informação foi-me dada pelo Professor Fernando Torres que, entretanto, era o Catedrático de Anatomia Patológica da Universidade de Lourenço Marques)

O reaparecimento de Samora como Presidente da Frelimo causou péssimo mal-estar no Regime do Estado Novo e logo o Governo de Moçambique (não sei se por iniciativa própria ou se a mando de Lisboa) se apressou a decretar que doravante as repartições públicas tivessem obrigatoriamente uma quota mínima de 50% de funcionários não brancos. Os indianos agradeceram.

Não sei bem como classificar o caso precedente mas, à distância de mais de 50 anos, a adjectivação que mais me ocorre tem a ver com estupidez. E será que a promoção de Samora a Auxiliar de 2ª mudaria substancialmente o curso da História? Duvido mas não hesito em afirmar que os não racistas em Moçambique (brancos, porque os outros são todos muito racistas) ficaram escandalizados quando souberam desse concurso. Mas esse escândalo só fez com que se tornasse ainda mais urgente acelerar o crescimento para que este, por si só, fosse capaz de corrigir tanta injustiça que os ultra-conservadores praticavam.

Quando por meados de 1973 cheguei à Secretaria Provincial[i] dos Transportes e Comunicações na condição de Adjunto do Secretário Provincial, logo fui integrado na corrida do desenvolvimento e foram-me confiados quatro dossiers que me cumpria coordenar e empurrar para a frente, informando o Secretário Provincial do que fosse relevante e pedindo as orientações convenientes. Foram eles o da TVM-Televisão de Moçambique, o dos grandes estaleiros navais de Lourenço Marques, o dos Estaleiros Navais da Beira e o do relançamento do Porto de Quelimane. Como se compreende, não fui atacado pelo tédio.

O processo da televisão já estava relativamente adiantado quando me chegou às mãos pois até já se sabia qual o equipamento conveniente à ligação por satélite às redes europeias e sequente transmissão de sinal à África do Sul quando a televisão fosse lançada nesse país. Faltava lançar os concursos internacionais para os fornecimentos desses equipamentos. Colocada a questão a Lisboa, foi tudo chumbado porque a RTP tinha equipamentos de que se queria livrar (obsoletos, claro) e, portanto, nós que nos contentássemos com eles. Perante o que ficámos numa de que nem queríamos acreditar no que nos estava a ser dito. Engolimos em seco e dedicámo-nos a outros assuntos. Aquele ficaria em «banho Maria», até que Lisboa repensasse o assunto. Não sei se Lisboa pensou em repensar algum pensamento porque, entretanto, foi ela própria que foi repensada pelo 25 de Abril de 1974.

No início de Março de 1974 vim a Lisboa em representação do Governo de Moçambique negociar com a Lisnave a construção de uns grandes estaleiros navais em Lourenço Marques que pudessem dar apoio aos superpetroleiros que então usavam a rota do Cabo pois o Canal de Suez continuava inoperacional. No regresso a Lourenço Marques, ao fazermos escala em Luanda, o então Comandante Chefe das Forças Armadas em Angola, General Luz Cunha, estava na base das escadas do avião para informar os ilustres a chegar (Cardeal D. Alexandre do Nascimento) ou em trânsito (um membro do Governo de Moçambique cuja identificação já não consigo fazer a esta distância no tempo) que tinha havido uma tentativa de golpe de Estado em Portugal. Referia-se ao 16 de Março, o golpe das Caldas. A Lisnave já não teve tempo para nos responder às questões que tinham ficado pendentes.

A transformação em empresa dos Serviços do Porto da Beira que eram (e são) os Estaleiros Navais da Beira ficou com o projecto de Estatutos aprovado pela minha hierarquia mas, entretanto, foi esta que mudou e eu já não estava em Moçambique quando os novos hierarcas tomaram conhecimento do assunto. Se é que tomaram.

O relançamento do Porto de Quelimane (início de dragagens mais importantes do que as rotineiras, se a memória não me falha) estava previsto para o segundo semestre de 1974.

Ora, se eu, simples membro de um gabinete «ministerial» tinha assuntos desta importância entre mãos, imagine-se o volume de projectos que todos os membros de todos os gabinetes teriam.

E o mais curioso é que a corrida do desenvolvimento não provocava cansaço. Pelo contrário, era entusiasmante.

Pena foi termos sido traídos pelas costas.

Agosto de 2019

Henrique Salles da Fonseca

 

[i] - Como se chamava por lá aos Ministérios

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