Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

A bem da Nação

MOÇAMBIQUE REVISITADO – 5

- E os pretos? – perguntava o Leitor no final da crónica anterior. Ao que eu lhe perguntei sobre qual a cor desses pretos por que perguntava. E a conversa poderia ter ficado por ali se nos tivéssemos quedado pelo aparente absurdo.

- A cor dos pretos? Mas que disparate! Pretos são pretos, não têm cores.

- Pois eu acho que tanto os pretos como os brancos, os pardos e os amarelos têm cores diferentes mesmo dentro de cada raça. Um preto doutorado por uma Universidade tem uma cor diferente de um preto analfabeto mas tem a mesma cor que um branco ou um amarelo doutorados por essa ou outras Universidades.

- Mas as peles de cada um são diferentes.

- Sim, claro, mas essa é só uma questão de melanina. A pele assumir tons diferentes conforme as condições ambientais em que a pessoa se integra.

- Mas cada raça tem as suas próprias características.

- Sim, essas características são o resultado de adaptações ambientais mas o que distingue as pessoas é o nível cultural. E por esta realidade não ter sido entendida com maior generalidade e há mais tempo é que muita injustiça foi cometida e muitos sarilhos foram tecidos.

- Os pretos não são capazes de dizer duas coisas certas.

- Se lhes ensinarmos a nossa língua e os educarmos como educamos os brancos ou os indianos, eles dizem o mesmo que nós. Mais: até são capazes de dizer tudo com perspectivas diferentes porque vêm duma cultura diferente e essa diferença pode ser complementar das nossas ideias. Não necessariamente conflituantes. Esses pretos a que o Leitor se refere têm sobretudo dificuldade de expressão numa língua que nós entendemos. E por que é que nós nunca nos demos ao trabalho de aprender as línguas deles?

- Eles não percebem nada do que lhes digo.

- E ensinou-lhes a nossa língua? Ponha-se na posição inversa de serem eles a dizerem-lhe, a si, qualquer coisa na língua deles. Quem é que passava por estúpido? Portanto, não estamos a discutir inteligências mas apenas níveis culturais. E são esses níveis de cultura que definem as cores. Nos nossos almoços de economistas da região de Lourenço Marques eramos todos da mesmo cor mas pertencíamos a várias etnias ou, se quiser, a várias raças. Mas, é claro, pertencíamos todos à mesma espécie, a humana.

* * *

Em Moçambique, como em todo o espaço português, o acesso ao ensino era condicionado pelos célebres «exames de admissão» em que cada nível se dava ao luxo de desconfiar da qualidade do nível precedente. Nem sequer lhe chamo política elitista, limito-me a chamar-lhe absurda. Apesar disso, os estabelecimentos de ensino estavam cheios. Mas se não fossem as barreiras absurdas, talvez o dobro das escolas também estivesse cheio. Quem sabe? E neste particular, a realidade moçambicana não era diferente da metropolitana pois o nível de escolaridade não era o forte do Estado Novo. Se ao 25 de Abril de 1974, o analfabetismo adulto em Portugal era de 25%, não imagino o que seria em Moçambique. Felizmente, não encontrei a informação. A única coisa que posso dizer é por palpite e avanço com a ideia de que nos Liceus de Lourenço Marques havia mais alunos brancos do que pretos mas que nas Escolas Técnicas havia mais pretos do que brancos. Mas isto é mero palpite e peço a quem me lê e saiba melhor que me corrija e nos dê uma ideia mais correcta.

Escolas Técnicas? Sim, em tudo semelhantes às que havia na Metrópole. Por exemplo, Samora Machel cursou química numa delas e foi admitido nos Quadros de Pessoal do Hospital Miguel Bombarda, o hospital central e universitário de Lourenço Marques onde era Auxiliar (de 3ª classe) de Analista no Laboratório de Análises de Anatomia Patológica. Vergonhosamente preterido na promoção a 2ª classe, no dia seguinte a essa ilegalidade já não compareceu no Serviço e a vez seguinte que dele se ouviu falar foi quando assumiu a Presidência da Frelimo.

Pois é, nem tudo foram rosas.

(continua)

Agosto de 2019

Henrique Salles da Fonseca

5 comentários

Comentar post

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2018
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2017
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2016
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2015
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2014
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2013
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2012
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2011
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2010
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2009
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2008
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2007
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2006
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D
  209. 2005
  210. J
  211. F
  212. M
  213. A
  214. M
  215. J
  216. J
  217. A
  218. S
  219. O
  220. N
  221. D
  222. 2004
  223. J
  224. F
  225. M
  226. A
  227. M
  228. J
  229. J
  230. A
  231. S
  232. O
  233. N
  234. D