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A bem da Nação

MOÇAMBIQUE REVISITADO - 4

 

Muito antes de alguma vez me passar pela cabeça que um dia conheceria Moçambique, já sabia que em Lourenço Marques quase ninguém ia à praia por causa do matope (lodo) e porque, quando este acabava, começava o perigo do tubarão. A solução eram as piscinas. Excepção às soluções familiares, a norma era a das colectivas nos muitos clubes que foram sendo constituídos ao longo dos tempos. Assim, rapidamente, lembro-me dos maiores como, por exemplo, o «Clube Ferroviário», o dos «Velhos Colonos», do «Clube Naval», do «Grémio», do dos «Antigos Estudantes de Coimbra», do «Clube Militar». E de mais não me lembro. Submisso, aceito puxões de orelhas por algum esquecimento imperdoável. Numa dimensão muito mais modesta, o «meu» «Centro Hípico de Lourenço Marques» que então não tinha piscina (o actual «Centro Hípico de Maputo» tem piscina) mas sim picadeiro coberto. Claro está que a génese destes Clubes era a da estruturação da sociedade civil, não a da prática da natação em que as piscinas fossem parte essencial. As piscinas foram acrescentos que acabaram por ser motivo de agregação social e, desse modo, ajudaram à estruturação da sociedade civil. O mesmo se diga de outras actividades clubísticas tais como o hóquei em patins cuja equipa do Ferroviário chegou a ser campeã mundial da modalidade.

Polana.JPG

Quem não se integrasse num Clube, tinha sempre a «vala comum» que era a esplanada do Polana, essa passerelle du tout Paris. No que me disse respeito, o Clube Militar e o Centro Hípico foram muito importantes para o meu enquadramento social à chegada a Lourenço Marques.

Mas, não nos enganemos, a «vida de clube» também lá mais não era do que uma diletância. A vida séria era feita nas diversas actividades profissionais a que já me referi em crónica anterior: função publica em todas as suas vertentes desde o professorado à medicina passando pela justiça, etc., profissões liberais de que destaco a advocacia e a arquitectura, actividades empresariais públicas e privadas e, claro está, todas as profissões ligadas à actividade bancária. O turismo crescia como cogumelos, a construção civil não tinha mãos a medir, as obras públicas estendiam-se por todo o território e as sedes em Lourenço Marques fervilhavam de actividade. Naqueles tempos, o crescimento era real e o mercado de trabalho estava sôfrego. Eu sabia que, mal concluísse o serviço militar, encontraria posto de trabalho. E assim foi. A vida sorria…

A política económica era quase mercantilista: - Queres isto ou aquilo? Fabrica-o porque não terás licença de importação. E, nas aflições, não seria «gato por lebre» mas talvez «tubarão por bacalhau».

Nós, economistas residentes em Lourenço Marques e redondezas, reuníamo-nos num almoço na primeira quarta feira de cada mês e essa mais uma forma de organização da sociedade civil. Não se tratava de criar uma Ordem profissional pois isso implicaria meter o Governo Geral e o de Lisboa no assunto, para além de que era mais fácil o liberalismo do que o corporativismo. E como seria encarada tal hipótese se nem na Metrópole existia uma Ordem dos Economistas? Não seria pôr o carro moçambicano à frente dos bois metropolitanos? Estávamos muito bem assim, não quisessem alguns (poucos) estabelecer regras muito rígidas.

Foi nestes almoços que conheci dois moçambicanos que já então davam nas vistas pela ilustração: Eneias Dias Comiche que veio a ser Vice-Primeiro Ministro num Governo de Joaquim Chissano; Mário da Graça Machungo que veio a ser Primeiro Ministro também nos tempos de Chissano. Exacto, Caro Leitor, ninguém queria saber se cada um de nós era branco, preto ou às riscas. Eramos economistas e esse era o critério único de admissão no grupo. Em cada almoço havia um orador que dizia umas coisas a que alguns prestavam atenção mas o mais importante eram as conversas informais entre nós, os que estávamos na «plateia». Desde professores universitários até principiantes na profissão, havia de tudo passando por gente muito conhecedora da realidade moçambicana.

Creio que os advogados tinham também alguns encontros deste género e que os médicos se reuniam mais para temas científicos. Quem me ler e souber melhor, faça o favor de nos ensinar.

Pois é isso mesmo: uma sociedade aberta, liberal e em grande progresso.

- E os pretos? – perguntará o Leitor.

- De que côr, Caro Leitor? – pergunto eu.

Amanhã há mais.

Julho de 2019

Henrique Salles da Fonseca

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