Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

A bem da Nação

MOÇAMBIQUE REVISITADO – 3

Abordados os pretos, os brancos e os mistos na crónica anterior, refiro-me agora aos grandes comerciantes em Moçambique, os indianos.

De origens e religiões diferentes, não funcionavam como um grupo homogéneo. Basta referir que uns seguiam o hinduísmo, outros eram muçulmanos sunitas e outros ainda (creio que os mais importantes) eram muçulmanos ismaelitas (do Aga Khan).

Historicamente, Moçambique foi administrado a partir de Goa desde a instituição do Vice-Reinado até ao Consulado Pombalino pelo que a influência dos indianos (v. p. ex. em «Companhia dos Mazanes») foi usada como «braço» da administração colonial portuguesa. E a vida continuou até que o caldo se entornou em 1961 com a invasão indiana do Estado Português da Índia. Então, os indianos residentes em Moçambique foram metidos em campos de concentração para daí serem expulsos perdendo todas as suas propriedades em território português… a menos que renunciassem à nacionalidade indiana. Creio que alguns, poucos, terão sido expulsos mas uma grande quantidade optou pela nacionalidade paquistanesa. Alguns optaram pela nossa nacionalidade. Não encontrei informação sobre que percentagens optaram por isto e por aquilo.

Nos meus tempos em Moçambique (Abril de 1971 – Julho de 1974) a etnia indiana ou era portuguesa ou paquistanesa; outras nacionalidades passariam despercebidas mas da indiana é que, de certeza, não eram. E todos se dedicavam ao comércio desde as ruas mais importantes de Lourenço Marques ao recanto mais afastado no mapa da savana.

Mas também estas paragens remotas atraíam alguns brancos, portugueses. Por exemplo, num desses cantos remotos da savana que ao fim de quase 50 anos já não sou capaz de localizar, encontrei um cruzamento de duas estradas naquilo a que costumamos chamar «4 caminhos» onde se localizavam, frente a frente, duas cantinas de duas famílias do norte de Portugal. Num raio de muitos quilómetros, o vazio total mas ali, à distância de não mais de 40 metros, duas cantinas que se guerreavam na mais aguerrida e absurda concorrência.

Voltando aos indianos, há que referir o facto de muitos deles se terem alcandorado aos mais altos postos da Administração Pública moçambicana tanto antes como depois da independência. Mais subiram a cargos governativos também antes e depois da dita independência.

A perspectiva religiosa é determinante em muitas circunstâncias da vida. Assim, por exemplo, consta que a Fundação Aga Khan financia sem juros (parece que o Corão proíbe a cobrança de juros num versículo que não localizei) o capital inicial para que os seus fiéis se estabeleçam economicamente mas os beneficiados ficam a pagar uma amortização anual vitalícia.

Aga Khan Maputo.jpg

A comunidade ismaelita dispõe em Lourenço Marques/Maputo de um centro cívico, religioso e administrativo de grande relevo equivalente ao que, entretanto, foi erigido em Lisboa. Comunidade laboriosa e empreendedora, nunca se ouviu dizer que os seus membros se envolvessem nas quezílias típicas de outras facções muçulmanas.

* * *

A título de curiosidade, o Príncipe Aga Khan decidiu instalar em Lisboa a sua sede mundial pelo que nós, os lisboetas, nos orgulhamos de termos connosco o «Vaticano do Aga Khan».

* * *

Voltando a Moçambique, poderia ainda falar dos chineses se deles houvesse alguma coisa de especial a dizer. Que eu saiba, não há. Primavam pela descrição e quase me apetece especular hoje sobre se esses relativamente poucos que por lá havia não seriam a «guarda avançada» para a invasão futura, quando fosse o tempo de cobrar a factura pela ajuda dada aos movimentos de guerrilha contra os portugueses. Mas isso é só especulação minha. O esbulho actual das riquezas moçambicanas por empresas chinesas é uma mera coincidência.

Feito um périplo muito genérica pela antropologia moçambicana naqueles finais da época colonial, voltamos a Lourenço Marques já na próxima edição. Até logo!

Julho de 2019

Henrique Salles da Fonseca

Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2017
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2016
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2015
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2014
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2013
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2012
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2011
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2010
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2009
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2008
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2007
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2006
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2005
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D
  209. 2004
  210. J
  211. F
  212. M
  213. A
  214. M
  215. J
  216. J
  217. A
  218. S
  219. O
  220. N
  221. D