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A bem da Nação

MOÇAMBIQUE REVISITADO – 10

De carro alugado e conhecendo bem a cidade, fomos a toda a parte sem tempos mortos. Em 2006, Maputo era uma cidade absolutamente tranquila e aprazível como fora Lourenço Marques. Andámos por onde quisemos.

De manhã, demos uma volta pela baixa da cidade e fomos ver o forte onde eu nunca tinha entrado porque, segundo se dizia no nosso tempo, não tinha nada de especial para ver. Mas agora, com a parte central muito bem ajardinada, guardava a estátua equestre do Mouzinho que dantes estava no centro da rotunda fronteira ao edifício da Câmara Municipal, ou seja, no topo da Avenida D. Luís. Nas galerias interiores do forte, uma colecção de estatuária de menores dimensões representando portugueses que se distinguiram na História de Moçambique e muitas fotos, gravuras e estantes com documentos considerados importantes que agora já não sou capaz de identificar. Ao contrário do que me recusei a ver em São Tomé cujo forte homólogo a este se empenhava a dizer mal de Portugal e dos portugueses, este, em Maputo, considera que o período colonial faz parte da História do país e trata-nos com a dignidade que me pareceu correcta.

Mouzinho-forte de Maputo.png

Saindo do forte, passámos frente à Casa Amarela – uma das mais antigas e icónicas edificações da cidade antiga - onde estava uma exposição de numismática que tivemos o cuidado de deixar para outros verem. Dali, seguimos pela outrora Rua do Major Araújo onde proliferam os mesmos ou outros cabarets do antigamente e fomos ver outro ex libris da cidade, o mercado municipal. A funcionar em pleno, as bancas a serem repostas para os clientes tardios, vimos o que não esperávamos: uma vendedeira branca, dona da sua banca cheia de verduras e outras mercadorias que a esta distância no tempo já não recordo.

Como já disse na crónica anterior, fomos almoçar ao Grego da Costa do Sol comer caranguejos. Foi ali que encontrei um amigo que, entretanto, tinha mais 32 anos do que quando o conheci no Centro Hípico. Branco cuja família era oriunda de Castelo Branco, optara pela nacionalidade moçambicana e ficara na sua terra de naturalidade. Retomámos o contacto internético até que o ciclone que devastou Pemba (para onde, entretanto, se mudou) interrompeu as comunicações. Creio que a normalidade tenha sido restabelecida mas ele não voltou ao contacto. Espero que esteja tudo bem com ele e que a falta de respostas às minhas mensagens seja apenas devida a alguma zanga pessoal por motivo que não descortino.

Mas lembrei-me de um acontecimento naquela mesma esplanada do grego no meu tempo antigo por aquelas paragens. A Teresa, o Nixa Lacasta, a Guida e eu tínhamos ido até ali lanchar numa tarde de Domingo e eu fiquei a guardar uma mesa enquanto as Senhoras e o Cavalheiro foram «lavar as mãos». Considerando as cabeceiras da dita mesa, haveria lugar para seis pessoas. Estava eu sozinho de guarda e eis que sem mais nem menos mas com uma expressão afável, um preto se senta num dos lugares ainda disponíveis e faz sinal a mais alguém informando à distância de que encontrara lugares. Logo o informei da situação em que me encontrava de guarda à mesa reservada para os meus amigos que tinham ido lavar as mãos. Ao ter que fazer a explicação em inglês, logo percebi que se tratava de um sul africano e presumi que andasse em turismo. O bom homem de imediato se levantou e pediu desculpa pelo engano. Não houve qualquer espécie de incidente e reparei que, passado pouco momentos, ele conseguiu os lugares que procurava. Mas fiquei a pensar em como é possível haver usos e costumes tão diferentes a tão poucos quilómetros de distância. Assim, muito dificilmente, um português se senta numa mesa já ocupada parcialmente por outras pessoas enquanto os «bifes» o fazem com relativa facilidade bastando para isso um aceno de cumprimento e de pedido de autorização apenas protocolar. Era, pois, perfeitamente natural que aquele homem, anglicizado, procedesse do modo descrito. Mas houve mais uma perspectiva que me deixou a pensar que aquela foi uma oportunidade que eu perdi para dar um estaladão no apartheid. De facto, o turista em apreço, preto, sabia que nós não aprovávamos a segregação racial e que, pelo contrário, fazíamos gala na integração social e na criação de sociedades pluri-raciais. Portanto, à confiança, avançou para a mesa do branco com toda a confiança e com a certeza de ter conseguido os lugares de que precisava. Fiquei com pena da desilusão que lhe devo ter provocado mas espero que ele tenha reparado que eu não lhe menti sobre os outros brancos que entretanto chegaram de mãos lavadas. Mas o Piet Botha, se ali estivesse, ter-se-ia ficado a rir. E disso eu não gostaria. Mas isto passara-se no antigamente.

Depois da lambuzisse que é comer caranguejos no Grego da Costa do Sol, fomos ver o «meu» Centro Hípico onde, claro está, não fui reconhecido. Pareceu-me tudo igual ao antigamente mas talvez fosse da hora, não vi qualquer actividade equestre. Vi, isso sim, alguns cavalos soltos a pastar capim, prática boa para a mente do cavalo mas inútil para a prática desportiva. Ou muito me enganei ou os cavalos que vi não eram da qualidade dos de antigamente, quase todos puro-sangue-inglês. Agora, pareceram-me bastante mais modestos. Talvez fosse interessante reatar relações com o passado. Aqui fica a sugestão caso algum sócio do Centro Hípico de Maputo leia estas linhas.

Lentamente, demos um «salto» a Marracuene (a que também chamávamos «Vila Luísa») para concluir que aquela vila histórica já vira melhores dias. Pois… mas representava a derrota de Gungunhana e os actuais «donos da verdade» não devem gostar do episódio do quadrado.

Dia bem preenchido, regressámos ao hotel e jantámos na varanda sobre a baía. No dia seguinte, pela manhã, viagem até ao Kruger.

Agosto de 2019

Henrique Salles da Fonseca

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