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A bem da Nação

MOÇAMBIQUE REVISITADO - 1

 

«E porque inocentes, deixaram-se enganar por missangas contra cordões de oiro» - esta, a loa esquerdista tão em voga ainda hoje diabolizando o branco e santificando o preto. Ou seja, enchendo o branco de maldade e atribuindo ao preto um vil atestado de incapacidade mental. Racismo abjecto. E o pior é que nem sequer passa pela cabeça desses críticos que o valor atribuído pelos pretos às missangas até pudesse ser superior ao valor atribuído pelos brancos aos cordões de oiro. O que é o valor? Eis um conceito de difícil percepção por quem apenas leu Marx ignorando Adam Smith e seus sucessores.

Racismo manhoso, este que, afinal e como mostraram os acontecimentos posteriores às «independências» das colónias portuguesas, mais não queria do que precipitar a saída dos portugueses de África para que os soviéticos pudessem entrar. Sol de pouca dura, aliás, pois já saíram os soviéticos que não foram substituídos por russos. Restam alguns cubanos, soviéticos de escolha serôdia.

Esta é a hora dos chineses. Até ver…

Mas esta é também a hora do capitalismo selvagem, aquele que se entrega nas mãos dos gatunos disfarçados de políticos com a boca cheia de parangonas a favor do povo e de loas ao nacionalismo contra os colonialistas.

Exauridos, os novos Estados não existem fora da propriedade dos seus Chefes de nomenklatura reinante. Os povos, abandonados, continuam à procura da salvação no dia-a-dia. Com uma diferença muito grande em relação aos tempos anteriores às «independências»: dantes, faziam pela vida nos seus ambientes naturais; agora, depois das guerras civis, fazem-no nos ambientes de refúgio que são as «selvas urbanas» onde tudo vale, inclusivé tirar olhos. E a insegurança mudou de terrorismo para banditismo, de luta politico-militar em teatros de guerrilha rural para desordem cívica urbana, da guerra com objectivos (de algum modo) superiores para o horror do «salve-se quem puder». E os únicos que se salvam são os que puseram a mão nos cofres públicos.

E, apesar de tudo, quem conheceu Moçambique não esquece aquela terra de sonho, aquelas populações cerimoniosas, civilizadas, propensas ao bem e que, por isso mesmo, nos despertam sentimentos de compaixão.

A revisitar!

* * *

Quando a Graça, a minha mulher, me ouvia falar de África, sempre dizia que também já lá estivera porque fora num cruzeiro de Lisboa a Ceuta. Ao que eu sempre lhe respondia que Marrocos só é África no mapa que a Senhora Professora tem pendurado na parede lá da escola. A verdadeira África, a apaixonante, é a que se estende a sul do Sahara. E mais lhe dizia (e digo) que se há coisas que se mostram em fotos e vídeos, outras há que só no local se percebem.

Não preciso agora de citar muito mais coisas do que os cheiros… De náusea, dirão os narizes mais habituados aos grands boulevards de Paris. Da Natureza, digo eu e todos os que já cheiraram a savana ao pôr do Sol com uma girafa recortada pelos últimos raios, o esguicho das narinas de uma família de hipopótamos vista da margem do Limpopo ao raiar da aurorã, a macacada e sua guincharia nos ramos das árvores por cima da minha pista de equitações em Lourenço Marques, a mistura das essências expostas à porta do xitolo do monhé, o cheiro da mandioca fumegante, o cheiro da terra molhada pela chuva de pingo grosso… o cheiro da nossa própria juventude, cãs então longínquas, sangue na guelra. Esses, sim, são cheiros saudáveis, não as «eaux de vie 5 ou 10» que disfarçam sebências mal lavadas ou vícios inconfessáveis.

Girafa.jpg

Esta, uma das duas Áfricas que eu queria mostrar à Graça; a outra, seria a de Lourenço Marques que nós, portugueses, fizemos em paralelo com a cheirosa.

Março de 2006 foi quando se proporcionou mostrar-lha.

Já lá vamos…

Julho de 2019

Henrique Salles da Fonseca

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