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A bem da Nação

MERDEKA – 2

 

O FADO DA INDONÉSIA

  

Guido Kiko em Dili, CPLP.jpg

O grupo musical Keroncong Tugu actuou em Díli durante a Cimeira da CPLP em Julho de 2014

 

Não faltará quem pergunte de quem se trata. Pois bem, são dos tais que até há bem pouco tempo não sabiam uma palavra de português e já não devem ter um único gene português mas que se dizem portugueses. Vivem em Jakarta num bairro chamado Tugu (nítida corruptela de «português) e descendem dos portugueses que para ali foram levados como escravos pelos conquistadores holandeses de Malaca em 1641.

 

E o que me pediram quando os encontrei nesse ano de 2014? Pois pasme-se o meu Leitor: nada de apoios financeiros nem estatutos especiais de nacionalidade mas apenas um professor de português.

 

Logo tentei o Instituto Camões mas não fui na circunstância tão bem sucedido como gostaria. Sugeri-lhes então que fizessem o pedido ao Governo de Timor Leste no final da récita que deram em Díli. E como dos tímidos não reza a História, enviei-lhes um escrito (bilingue português e inglês) para o chefe do grupo, o meu amigo facebookiano Guido Quiko, ler aos microfones: «Os residentes no bairro Tugu, em Jakarta, pedem ao Governo de Timor Leste que lhes envie um professor de português».

 

Guido Quiko e Xanana Gusmão (21AGO16).jpg

 Guido Kiko pedindo a Xanana que lhe envie um professor

 

Sei que o pedido foi feito na presença dos Chefes de Estado e de Governo na dita cimeira da CPLP e sei também que tudo ficou na mesma, ou seja, sem professor.

 

Então, assim foi que me subiu a mostarda ao nariz e decidi fazer uma escola no Facebook para quem não sabe uma palavra de português e lá quer chegar a partir do inglês. Pedi apoio à minha amiga Professora Filomena Ferro com largo curriculum na vertente do ensino de português a anglófonos e criei a «Filomena’s School – Portuguese Classes» onde actualmente estão mais de 300 alunos. São 133 pequenas lições de gramática que se complementam com todas as conversas que se vão inventando para desenvolvimento do vocabulário.

 

Sim, os tugus já têm uma escola com propinas ao nível do zero.

 

E com eles, muitos mais descendentes de «portugueses abandonados» por esse mundo além que querem aprender a língua dos antepassados.

 

Refira-se que se os tugus são os nossos alunos mais orientais, os melungeons (nós, portugueses, chamamos-lhes melungos) são os mais ocidentais pois que se situam nos Apalaches[i].

 

Mas é no livro “OS FILHOS ESQUECIDOS DO IMPÉRIO”, pág. 158 e seg., que o Joaquim Magalhães de Castro nos relata o que é este «fado» e quem são os seus intérpretes:

«(…) o kaparinyo, canção inicialmente popularizada na costa oeste de Samatra e posteriormente divulgada em todo o arquipélago (…) provém do lagu cafrinyo, tema de origem portuguesa ainda hoje cantado no bairro dos luso-descendentes de Tugu, nos subúrbios de Jacarta e que se insere num estilo musical denominado kroncong (…) caracterizado principalmente por um estilo vocal em que se canta de uma maneira sentimental em que são utilizadas harmonias europeias».

  

https://www.facebook.com/Keroncong.Tugu?fref=tsm

 

Certo de que todos poderemos fazer muito mais pelos descendentes dos portugueses que abandonámos por esse mundo além ao longo da História, por aqui me fico hoje com a sugestão de que as agências portuguesas de viagens que operam na Indonésia incluam Tugu nos seus programas de visitas. E se quiserem que lhes conte a história, sirvam-se da informação que ofereço nestas crónicas. Não quero Direitos de Autor, só quero que se saiba que temos muito caminho a trilhar até começarmos a remir a História.

 

(continua)

Jakarta - 2 (SET18).jpg

 Henrique Salles da Fonseca

(em Jakarta, SET18)

 

[i] - Sobre os Melungeons, ler neste blog «ENTÃO, TUDO COMEÇOU ASSIM» de 1 a 4

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