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A bem da Nação

“MAS TAMBÉM PODE SER QUE NÃO SEJA”

 

- Aqueles cuja conduta dá para troçar são sempre dos outros os primeiros a falar - Jean Baptiste Molière (1622-1673), actor e dramaturgo francês – eis a frase que encima a última página (p. 56) do «Público» de 18 de Maio, página onde, bem destacado na coluna “Opinião”, surge o artigo de Vasco Pulido Valente – Uma viagem oficial.

 

Não sei se é propositada a frase da epígrafe, convergindo sobre o historiador e “artista plástico” de palavras e caricaturas, em narrativa não anquilosada numa seriedade de respeito a valores sociais ou pátrios, mas flexível e flutuando em multiplicidade de facetas, ora sérias ora jocosas e mordazes, que lhe acodem ao espírito, de uma vivacidade e picardia provavelmente granjeadoras de inimizades e vingançazinhas mesquinhas, como talvez seja a tal frase atribuída a Molière, (Jean Baptiste Poquelin de seu verdadeiro nome, e não o ali citado).

 

Mas também pode ser que não seja, acudindo-me à memória, como comprovativo hipotético, a cantiga brasileira de outrora, referenciada na Internet, que distingue e relativiza a dualidade dos conceitos:

 

«Pode Ser Que Não Seja» por Jorge Veiga

 

Refrão:

Nem tudo que reluz é ouro
Oi, nem tudo que balança cai!
(bis)

 

A moça que a gente conhece
Todo dia rezando na igreja,
Pode ser que ela seja uma santa
Mas também pode ser que não seja!

 

Refrão…

 

Uma vez mais o artigo de Vasco Pulido Valente dá em cheio no hábito governamental de voar pelo mundo, com comitiva – que raramente acontecia nos tempos de Salazar, os seus ministros limitando-se a viajar às colónias, cujas criancinhas das escolas os iam esperar ao aeroporto, com bandeirinhas pátrias de boas vindas ordeiras e chilreantes – lembro-me de ter feito parte das meninas de vestido branco de ginástica e bandeirinhas no aeroporto Gago Coutinho de Lourenço Marques, acolhendo um desses ministros – talvez Marcelo Caetano, talvez outra entidade …

 

Tem razão, Vasco Pulido Valente, em insurgir-se, as deslocações estão pela hora da morte, e num país tão moribundo como este nosso, estas funcionarão como extrema unção, em promessas de céu. Ninguém convencerá ninguém da eficácia de uma dispendiosa viagem de larga comitiva, que nos mostra Cavaco Silva cumprimentando e passando revista a tropas impecáveis, ou visitando a Cidade Eterna, a sua esposa Maria brincando às professoras, num esbanjar de simpatias a encarreirar destinos e provavelmente dinheiros turísticos. Vasco Pulido Valente, que investiga bem, reduz tudo isso a um nome: Ronaldo, do reconhecimento do sr. Xi, em contraponto com o triângulo, não das Bermudas mas com um dos vértices em Portugal, outro no norte europeu, outro no mundo PALOP a sul, da sonhadora teoria cavaquista, para justificar a sua diversão viageira por conta de outrem.

 

Eis o texto de Vasco Pulido Valente:

 

 

 

Uma viagem oficial

 

Não se percebe o que o dr. Cavaco e a mulher do dr. Cavaco, com uma comitiva de cem empresários (de quê?) e uns tantos ministros, foram fazer à China.

 

É muito compreensível que a China apeteça a quem gosta de viajar: há a “cidade proibida” para ver e uma espetada de baratas para comer. Melhor ainda, numa “visita oficial” não se espera no aeroporto e um exército de senhores mesureiros abre as portas em toda a parte e sabe onde são os melhores restaurantes. O dr. Cavaco andou sempre muito bem-disposto, com os privilégios que o seu cargo lhe oferece. Mas, para consumo interno, inventou uma teoria para vender ao Presidente lá da terra e, suponho, para impressionar o indígena de cá. Nem os jornais, nem a televisão disseram que espécie de efeito tinha tido este esforço intelectual.

 

A teoria é de facto impressionante e com certeza ficará na história com o nome de “o ponto e o triângulo”. Convém explicar. Segundo o dr. Cavaco, a China deve fazer de Portugal o seu “ponto de entrada” na Europa e poderemos por isso esperar daqui a pouco tempo dezenas de milhões de chineses a desembarcar por essa costa com biliões de coisas para vender à Finlândia ou à Dinamarca, a pretexto de que Sines fica mais perto dos mercados do que, por exemplo, Dover ou Southampton. E Cavaco não pára nesse pequenino “ponto”, quer também que Portugal sirva de intermediário entre Pequim e os PALOPS, que andam ansiosos por arranjar quem tome conta deles, para os defender da roubalheira geral do Ocidente. Esta parte “triângulo” da teoria mostra bem a profundidade de espírito do nosso inspirado Presidente.

 

Só que o sr. Xi, apresentado ao ilustre representante dos nossos navegadores, e pretendendo ser amável, puxou pela cabeça e, depois de muito puxar, saiu com um único nome: Ronaldo. Não se julgue que um homem tão sério como ele planeava trocar Ronaldo pela importação imediata de 300.000 pastéis de Belém, com o intuito perverso de pôr Ronaldo a ensinar futebol a um bilião de chineses e transformar a China em campeã do Mundo e da Europa. De maneira nenhuma. Na bruma, que certamente é o resto da terra para um mandarim, o sr. Xi não se lembrou de mais nada sobre Portugal. Na sua sereníssima cabeça, Portugal é Ronaldo e foi mesmo uma trabalheira para o convencer que o próprio Cavaco, apesar da sua idade avançada, não era Ronaldo. De qualquer maneira, esta viagem serviu para afastar as nuvens que existiam entre os dois grandes países, para nos revelar o fundo do pensamento do nosso querido presidente e para ele descansar durante a campanha eleitoral.

 

 Berta Brás

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