MARGINAIS E MADRAÇOS
Foi David Ricardo (1772 – 1823) que imaginou a teoria do marginalismo cujo exemplo clássico consistia em saber até que ponto interessava utilizar terras agrícolas marginais, ou seja, menos produtivas do que as mais ricas. A conclusão apontava no sentido de que a exploração de campos marginais (mais custosos por unidade produzida) teria o preço unitário de venda do produto que se estudasse como limite do nível do custo médio unitário das produções totais. Esse ponto quantitativo definiria o maior lucro global.
Outra figura do marginalismo que ficou célebre consiste na propensão marginal à poupança, ou seja, quanto se poupa (e, complementarmente, quanto se investe) por cada unidade monetária a mais disponível no rendimento.
E de conceito em conceito, colhe meditarmos sobre a propensão marginal à importação: por cada unidade monetária a mais disponível no rendimento, quanto dela se destina a comprar produtos importados (e, complementarmente, quanto dela se destina a comprar produtos nacionais)?
É claro que logo assalta a pergunta sobre o que terão estas questões a ver com a actual realidade portuguesa quando o que está em causa não é uma unidade monetária a mais disponível no rendimento mas sim várias unidades a menos. A resposta é simples: nada obriga a que a conjuntura se tenha de equiparar à teoria na certeza, porém, de que a interpretação das realidades estruturais ou conjunturais se torna mais fácil quando teoricamente enquadrada.
E qual é a realidade? Pois bem, ao contrário do que por aí propalam 70 destacados maus pagadores, a dívida externa bruta está em vias de redução e em especial a da banca (“Outras Instituições Financeiras Monetárias, em «economês») está mesmo em clara redução.
Daqui resulta que os bancos estrangeiros já reduziram o cepticismo com que até há relativamente pouco tempo olhavam para os seus homólogos portugueses e já lhes voltaram a dar crédito. Sim, porque uma grande parte da quebra nas importações se deveu ao facto de os bancos nacionais terem perdido o crédito externo de que usaram e abusaram para financiarem as importações de tudo e mais alguma coisa, o perverso crédito ao consumo desenfreado.
E quando o perverso «modelo de desenvolvimento» que nos atirou para a desgraça começa a ser substituído por um modelo virtuoso que nos poderá tirar da falência, logo começam as importações a ganhar terreno e a Balança Corrente a aproximar-se dos saldos nulos.
BALANÇAS CORRENTE E DE CAPITAL
Parece que, para além desses 70, anda muito mais gente por aí que não aprendeu nada com a crise por que passámos e que se mantém apostada na nossa desgraça colectiva.
Perante gente desta, para quê análises rebuscadas de teoria económica se o que se mostra necessário é um cabaz de medidas administrativas que impeça o dislate?
David Ricardo teve muitos méritos, nomeadamente este de inspirar os marginais portugueses que, de madraços, só pensam nas férias consumistas e desprezam a vida efectivamente produtiva. Dá vontade de dar um murro na mesa e bradar em uníssono com Camilo Lourenço: -SAIAM DA FRENTE!
Março de 2014



