Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

A bem da Nação

LORELEI – 4

 

MS Beethoven.jpg

MS Beethoven

Foi pelas 6 da tarde de 29 de Dezembro que embarcámos, fizemos o check-in e nos instalámos num camarote de bombordo; janelão escancarado para o cais, vá de correr as cortinas.
Cocktail de recepção a bordo seguido de jantar e piano-bar para os noctívagos. Bem… noctívagos a fingir pois a música calar-se-ia impreterivelmente à meia noite. Todas as «cerimónias» presididas pelo 2º Comandante; o Comandante estava a descansar porque entraria de quarto à meia noite. Nunca apareceu, limitámo-nos a saber que se tratava de um Oficial austríaco. Ao contrário da ópera de Wagner, este era o «Comandante fantasma» do barco real.
Mas tudo isto foram prolegómenos. O que interessa é saber ao que vínhamos.
Pois bem, o objectivo era – e foi – o de conhecermos o chamado «Reno romântico», não no sentido lamecha do romance da menina pobre com o príncipe encantado, mas sim o do período romântico da cultura europeia e, mais concretamente, do período romântico da cultura alemã. Ah! E se pelo caminho escorregasse um riesling ou outro, os empresários locais não se amofinariam. Diz quem sabe que a uva riesling ficou famosa pela sua versatilidade pois que se pode transformar no que o enólogo quiser, desde o tradicional vinho branco, passando por variedades de rosé e tinto. E, pasme-se, até se pode transformar em água. Foi com esta informação que me lembrei de um grande comerciante de vinhos português que, no leito de morte, chamou os filhos e lhes disse que «o vinho também se fabrica a partir das uvas».

RENO Cruzeiro.jpg

O «romantisch Rein»


Ignoro ao que iam os outros passageiros mas eu tinha como grande objectivo ver o Lorelei. Tudo o mais, muito interessante, era o embrulho do meu motivo principal.
E porquê esta fixação? Porque na juventude, a minha professora de alemão me fez empinar a poesia de Heinrich Heine
Ich weiss nicht, was soll es bedeuten,
dass ich so traurig bin;
Ein Märchen aus alten Zeiten,
dass kommt mir nicht aus dem Sinn.

Die Luft ist kühl und es dunkelt,
Und ruhig fließt der Rhein;
Der Gipfel des Berges funkelt
Im Abendsonnenschein.

Die schönste Jungfrau sitzet
Dort oben wunderbar;
Ihr goldnes Geschmeide blitzet,
Sie kämmt ihr goldenes Haar.

Sie kämmt es mit goldenem Kamme
Und singt ein Lied dabei;
Das hat eine wundersame,
Gewaltige Melodei.

Den Schiffer im kleinen Schiffe
Ergreift es mit wildem Weh;
Er schaut nicht die Felsenriffe,
Er schaut nur hinauf in die Höh'.

Ich glaube, die Wellen verschlingen
Am Ende Schiffer und Kahn;
Und das hat mit ihrem Singen
Die Lore-Ley getan.

O mais curioso é que eu já não sou capaz de ler esta poesia sem, no silêncio, cantarolar o que dela ficou como o lied mais conhecido.
Loreley (Tradução alheia e de que não gosto muito)
Não sei como explicar isto,
Por estar assim tão triste...
Uma lenda dos velhos tempos
Não me sai da cabeça

O ar está frio e já escurece,
E calmo flui o Reno.
O pico da montanha brilha
No crepúsculo vespertino.
A bela virgem se assenta
Lá em cima, admirável.
Suas douradas jóias cintilam
E ela penteia os seus cabelos louros.

Ela penteia-se com um pente de ouro
Enquanto canta uma canção.
E o canto maravilhoso,
Tem uma fascinante melodia.

O barqueiro em pequeno barco
Supera uma frenética ventania
E não percebe à frente o recife,
Ele olha só para cima, no alto.

Creio que as ondas vão devorar
Afinal, barqueiro e barco.
E assim se deu com seu cantar
A saga de Lore-Ley.

 

É claro que tudo isto não passa duma patetice e eu espero que Heine tenha ficado famoso por via de outros escritos. Este, contudo, foi celebrizado porque foi musicado por muitos compositores, alguns famosos, outros nem tanto…
https://www.youtube.com/watch?v=3DX_aykzT9Q


Para saber mais sobre o Lorelei, sugiro ao leitor que procure na Internet.por exemplo em https://pt.wikipedia.org/wiki/Lorelei


Nas duas vezes que passámos pelo penhasco, puseram a música numa interpretação muito boa. Na primeira passagem, fui para o tombadilho ver o rochedo em tiro tenso mas na segunda poupei-me do frio e fiquei no salão da proa onde, estando eu em pleno êxtase de vistas e música, um grupo catalão se pôs a falar de trivialidades como se passeassem numa rambla. Chegou-me a mostarda ao bigode e pedi silêncio explicando que aquele era o momento mais sublime de todo o cruzeiro. Não sei se perceberam se não, mas calaram-se e eu – e muitos outros passageiros – vimos, ouvimos e gostámos.
(continua)
Janeiro de 2020


Henrique Salles da Fonseca

2 comentários

Comentar post

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2017
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2016
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2015
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2014
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2013
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2012
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2011
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2010
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2009
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2008
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2007
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2006
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2005
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D
  209. 2004
  210. J
  211. F
  212. M
  213. A
  214. M
  215. J
  216. J
  217. A
  218. S
  219. O
  220. N
  221. D