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A bem da Nação

LIVRE-NOS DEUS

 

Terra de tribos, a velha Europa, de vândalos, suevos, alanos, godos, saxões… E os bretões e os francos… Há muitos séculos já, e antes do império romano outras tribos haveria, outros povos, também, já fixados e que se foram fundindo com os invasores. Cá por casa, de iberos e celtas, também tivemos os árabes, depois dos visigodos já cristianizados e fundidos com os romanos. Um continente bastante retalhado, a Europa, que os tentáculos poderosos de algumas nações mais esforçadas, ou com os heróis improvisados, anquilosados nas ambições próprias foram tentando “unificar”, nos últimos tempos, por várias vezes, para proveito próprio. Mas Saturno, que os filhos devora, não permite que o definitivo se instale nunca, e tais ambições foram devidamente reparadas, desfeito o sonho ambicioso, castigados os seus mentores. Às ambições unilaterais, sucedeu, nos novos tempos, o projecto da generosidade unificadora, que, naturalmente, foi aproveitado pelos diferentes povos de diferentes maneiras. Houve esbanjamentos, cada povo, na especificidade das suas aptidões, utilizou os meios emprestados com maior ou menor saber. E descobriu-se que uma união não é possível a duas ou mais velocidades Daí os agoiros do artigo de Helena Matos, sobre um possível retorno ao tribalismo, proveniente de uma unificação económica gorada.

 

Mas parece-me exagero tal agoiro, pese embora a timidez na entoação dos hinos nacionais na “Copa” brasileira, além das várias singularidades de reacções espúrias a leis provenientes do Tribunal Europeu condenatórias do uso das burkas. Outras ocasiões haverá  para se entoarem os hinos, que cada desportista medalhado entoa com emoção e fervor nos seus jogos medalhados, além de que tais leis condenatórias de atitudes puramente provocatórias, parecem-me justas. Enquanto funcionar o bom senso – e a Europa, sendo um continente pequeno, foi cabeça civilizacional donde partiu a união dos mundos e a difusão de valores justos – a Europa, por muitas discrepâncias civilizacionais e operacionais, não vai permitir que aconteça esse novo tribalismo anunciado no artigo de Helena Matos.

Cada povo tem os seus defeitos e virtudes, tem a sua história e apego à sua terra, o tribalismo é coisa de nomadismo. Não iria pegar.

Saturno não pára de engolir os filhos que depois expele, no renovar dos meses e das estações, a mudança é tema clássico, cada povo se entretém com os seus próprios problemas, progredindo ou estagnando, mas amando.

 

E assim vamos vivendo. Atamancando. Sobrevivendo. Aguentando. Ninguém melhor o afirma do que Vasco Pulido Valente, no seu artigo do Público, de 4/7:

 

«No deserto»

 

Parece que Paul Krugman, o economista querido da esquerda, percebeu agora que o seu plano para resolver a crise não era politicamente possível. Entre a direita do Partido Republicano e uma boa parte do seu próprio partido, Obama está paralisado. Em Inglaterra, Cameron, com o UKIP de um lado e a coligação do outro, também não se pode mexer. Em França, Hollande é uma personagem gratuitamente acrescentada à paisagem, a direita democrática dividida e desprestigiada não se consegue recompor e já se começa a falar no regresso fatal ao parlamentarismo da IV República. Há ainda o referendo da Escócia e o referendo da Catalunha, que inevitavelmente vão complicar as coisas na “Europa”. O mundo em que vivemos desde 1948 começa a cair aos bocados; e não se vê um remédio razoável no horizonte.

 

A desculpa tradicional dos portugueses para as suas desgraças costuma ser a de que “também sucede lá fora”. Desta vez, não é mentira. A extrema-esquerda, para efeitos práticos, não existe. O PS, em guerra civil, não inspira confiança a ninguém: Seguro e Costa, com ligeiras variantes de tom, propõem a mesma receita utópica de salvação. O PSD e o CDS falharam e o Tribunal Constitucional não se irá embora amanhã. O Presidente da República, reduzido a pregar o entendimento e o “consenso” a uma multidão política que se odeia, e a um eleitorado na miséria, não serve para nada. Pouco a pouco, o país foi ficando ingovernável, no meio da resignação pública e privada. E não se imagina nenhuma força, ou conjunto de forças, capaz de restabelecer uma ordem e um desígnio.

 

Isto não teria grande importância em tempos normais. Mas sucede que os problemas de Portugal não se resolveram com o programa de “ajustamento”, que se limitou a um exercício contabilístico e recuou perante as verdadeiras reformas. Nem o desgraçado défice se “consolidou” abaixo do que a Europa manda, nem a dívida diminuiu, nem o “crescimento” e o “pleno emprego” saíram miraculosamente da cabeça de Passos Coelho. Voltámos, depois de muita gritaria e autêntica pobreza, à situação de 2010-2011. Com algumas diferenças. O tal “povo que aguenta tudo” não aguentará uma nova dose de “austeridade”. A direita e o dr. Cavaco, que em 2011 eram de certa maneira um recurso, perderam a confiança e o respeito dos portugueses. No deserto de hoje o mínimo solavanco sério é a porta para um desastre como nunca antes conhecemos.

 

 Berta Brás

 

 

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