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A bem da Nação

«L’INVITÉE»

L'INVITÉE, Simone de Beauvoir.png  Uma Convidada que se instala no grupo formado por Françoise e Pierre, representantes ficcionais da relação amorosa que uniu Simone de Beauvoir a Jean-Paul Sartre.

 

Xavière, a Convidada, é uma jovem caprichosa, chegada da província, abominando Rouen, uma rapariga sem o preconceito das boas maneiras, amando e odiando com exclusividade, instável mas original nos seus desabafos e nos seus conceitos por vezes reveladores de uma maturidade surpreendente, a par de uma entrega absoluta às suas paixões contraditórias, sabendo usar truques de sedução embora de aparência involuntária e mesmo infantil, que atrai inegavelmente um Pierre sereno e nobre, par afectuoso e inseparável da honesta Françoise, a narradora correcta que descreve e se descreve com seriedade e verdade, segundo a consciência que cada personagem toma da existência do “outro”.

 

Um romance que li com o entusiasmo que já tivera com a leitura de ”Mémoires d’une jeune fille rangée” e de “La force de l´âge”, ainda em África, “La force des Choses” sendo de leitura posterior, já depois de retornada à pátria do Mestre de Avis, o da Boa Memória, tirando as Canárias e Ceuta que deixaram de fazer parte há mais tempo.

 

Contudo, “L’Invitée” é um romance anterior aos biográficos, publicado em 1943, tinha Simone de Beauvoir 36 anos. Mas a força de vida que imprimirá nos livros posteriores, que retratam dados da sua existência real, é a mesma – esta com mais violência ainda, no seu espaço ficcional da ante guerra (1937/39) – que “L’Invitée” comporta, de uma mocidade que tanto nome traria a uma Paris com os seus bares, cafés, teatros, Montparnasse, passeios, vida nocturna, lascívia e cultura, e o desejo de absorver o mundo, na consciência trágica da guerra iminente.

 

Uma narrativa que vai assim deslizando na tensão dramática de um triângulo amoroso, a que outras figuras se aliarão – Elisabeth, a irmã de Pedro, Gerbert, posterior amante de Xavière e de Françoise, relação que aquela irá descobrir, facto que a intocável Françoise não poderá aceitar. E o crime desta, matando a irredutível Xavière, vem atestar a filosofia de que o existencialismo se fez porta-voz: Cada homem é responsável pelos seus actos, sem condenação nem absolvição de outrem.

 

Um livro esplendoroso, de inteligência e desenho contínuo na articulação dos pensamentos e comportamentos de cada personagem, sem rebuscamentos figurinistas, ou desvios moralistas, verdadeiro, autêntico. É da Gallimard, publicado em 1943, dedicado a Olga Kosakievicz… et pour cause. E na página seguinte está escrita a frase de Hegel, chave deste romance de tese: «Chaque conscience poursuit la mort de l’autre».

 

Tão drástica medida não serve, é claro, de justificação para o gosto actual de matança por este mundo de Cristo. Com Alá à mistura.

 

 Berta Brás.jpg Berta Brás

NOTA:

Este texto deveria ter sido publicado no dia 10 de Agosto, aniversário da Autora, mas as complicações informáticas que levaram à suspensão de publicações no “A bem da Nação”, não permitiram a publicação atempada. Mesmo atrasados, PARABÉNS à Professora Berta Brás. E continuemos…

HSF

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