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A bem da Nação

LIDO COM INTERESSE – 68

Maimónides.jpg

 

Título – O MÉDICO DE CÓRDOVA

 

Autor – Herbert le Porrier

 

Tradutora – Clara Alvarez

 

Editora – Bizâncio

 

Edição – 5ª, Junho de 2016

 

O médico judeu Moisés Ben-Maimon, conhecido no Ocidente por Maimónides, nasceu em Córdova em 1135 e morreu aos 69 anos no Cairo, corria o ano de 1204, depois de a errância o ter levado – com o pai e o irmão – a Fez e à Palestina.

 

Nesta história, cujo narrador é o próprio Maimónides, o autor confessa que, consultados os documentos históricos, foi fiel ao espírito mas não à letra produzindo uma obra de divulgação histórica de muito fácil leitura. Admito que o trabalho tenha partido de um amontoado de informação bruta que o vulgar leitor (eu, por exemplo) se recusaria a folhear e a ler sequer por alto.

 

Para além do pai do nosso personagem central, o rabi Maimon, ficamos a saber coisas interessantes sobre o muçulmano Averróis (Ibn-Rushd) muito pouco ou mesmo nada religioso que Maimónides sempre teve na mais alta consideração e que tomou por mestre desde os 12 anos, sobre o muçulmano de origem berbere (?) nascido em Algeciras de seu nome Al-Hajib al-Mansur por cá conhecido por Almançor que se gabava de ser analfabeto e sobre o curdo Saladino (Salah-al Din Yusuf) que ao conquistar o Egipto se «agarrou» ao nosso herói para dele beber o máximo de cultura.

 

Portanto, com excepção do bruto conquistador almóada da Península, todos eram personalidades da mais elevada cultura. E como nesta história não dá para distinguir com exactidão onde acaba a realidade comprovável pelos estudiosos para começar a imaginação do autor, tudo se enquadra na plausibilidade do que temos como verídico no âmbito do confronto das Civilizações, i. e., das Religiões, ao nível do esmero cultural de cada uma dessas personagens.

 

Trechos que chamaram a minha atenção:

 

Não eras, como eu, educado de pais para filhos para enfrentar a adversidade; não pertencias ao meu povo que nunca deixou extinguir o pavio da esperança no auge da tempestade, no mais escuro da noite. Há mais de doze séculos que temos um encontro capital marcado a que não podemos faltar: no ano que vem, em Jerusalém. (...) Terás certamente notado que nunca invoquei Deus. Ele terá a sua hora. Tem-nas todas. (pág. 13)

[No âmbito da Civilização] quando o fio carnal tinha interrupções, no vínculo do espírito não havia hiatos. (pág. 99)

Um judeu a fingir que é muçulmano para salvar a pele? Mais vale um cão vivo que um leão morto. Os Árabes são senhores da forma e nada distingue, à primeira vista, uma forma vazia de uma forma cheia. Que nos pedem? Que digamos que Alá é grande e que Maomé é o seu Profeta. (...) tudo é permitido desde que não nos deixemos apanhar. (...) cada um é livre de se empenhar à sua maneira no caminho da salvação. (pág. 121)

Para além de ter cortado a cabeça ao responsável máximo da Universidade de Córdova, Almançor mandou queimar a biblioteca num alegre auto-de-fé para gáudio da populaça, ou seja, dos que não tinham [tido] acesso à festa, [para] o prazer daqueles que o prazer [da cultura] havia excluído. (pág. 130)

A constante da nossa herança [judaica] era o hábito do provisório. O exílio não deveria constituir excepção. (pág. 143)

O que é um povo?, interrogava-se o meu pai. São muitos homens que se alimentam do mesmo reservatório de língua e de cultura, que se submetem sem esforço a um complexo de tradições idênticas, que se reclamam duma história comum e dum futuro convergente. (pág. 161)

Averróis descurava o rito da oração. Encontrava-se preso na contradição irredutível entre o peripatetismo e o dogma corânico, principalmente no que respeitava ao conceito da criação. – Que Deus tivesse feito o mundo a partir do nada, era inconcebível para um espírito humano pois nada pode nascer do nada, como nenhuma quantidade pode estar contida no nada, a menos que desviemos a noção de nada do seu significado essencial. (...) Ao que Maimónides respondeu que não convinha tomar à letra a palavra revelada e que havia que a aceitar como pura alegoria. (pág. 164 e seg.)

Que idiotas são os que nos atacam por errarmos pelo mundo. (...) faço questão de me afastar do seu caminho pois nunca ninguém convenceu um idiota da sua idiotice. (pág. 197)

 

Estas, algumas das «coisas» que despertaram o meu interesse. Muitas outras passagens, quiçá mais importantes, ficam à disposição do futuro leitor desta curiosa obra. A não perder.

 

Setembro de 2016

 

Henrique Salles da Fonseca, Delhi.JPG

Henrique Salles da Fonseca

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