Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

A bem da Nação

LIDO COM INTERESSE - 64

A escrava de Córdova

 

 

Título – A ESCRAVA DE CÓRDOVA

Autor – Alberto S. Santos

Editora – Porto Editora

Edição – 3ª, Fevereiro de 2009

 

O romance histórico tem a vantagem de nos contar a História de um modo mais agradável do que habitualmente fazem os compêndios com a crua descrição das ocorrências e raramente com a opinião isenta do relator.

 

Num romance histórico é relativamente fácil distinguir onde acaba a realidade para começar a fantasia e a trama romanesca é, afinal, o amenizador que serve de pretexto ao autor para nos contar certas particularidades a que naturalmente se refere com o seu cunho pessoal. Num romance, mesmo histórico, não se pede rigor factual mas resta sempre a esperança de que a mentira fique por longe.

 

Assim é com a presente obra que se lê com o maior agrado e que refere factos raramente lidos nos círculos por que habitualmente me movo.

Por exemplo, respigo breves trechos que considerei magníficos pela síntese que demonstram:

 

Pág. 349 e seg:

 

Segundo a crença local, por volta do ano 820, governando Afonso II das Astúrias, “O Casto”, nas cercanias da Igreja de S. Félix de Lovio, o eremita Paio foi surpreendido por umas luminárias nocturnas sobre um bosque. Paio não teve qualquer dúvida de que, depois das fantásticas luzes, surgiram no mesmo local anjos em pungente adoração. Rapidamente, vários outros fiéis atestaram as visões do eremita, facto que não tardou a chegar ao conhecimento de Teodomiro, Bispo da Diocese de Iria, que detinha jurisdição sobre a zona das luminosas aparições.

Depois de ter falado pessoalmente com Paio, tomou [o Bispo] a firme decisão de intervir na desvenda do mistério não sem antes jejuar durante três dias. Penetrou então nas profundezas do bosque onde, na zona mais densa, descobriu um pequeno oratório.

Conhecedor das convicções de São Jerónimo, não teve qualquer assomo de hesitação em identifica-lo com o túmulo do Apóstolo Tiago, o evangelizador da Hispânia.

Teodomiro contemplou aquela construção que formava um quadrado irregular com cerca de quatro passos de lado e rodeada por uma colunata e ordenou de imediato que os restos do Apóstolo fossem transladados para um lugar chamado Campo da Estrela, o que deu origem à futura cidade de Compostela.

Afonso II não tardou a derramar honrarias e privilégios sobre a modesta igreja logo erguida sobre o local do túmulo e que Afonso III das Astúrias, “O Grande”, haveria, em 899, de mandar transformar numa rica basílica. Com os passar dos anos, o templo conseguiu aumentar exponencialmente a sua capacidade de atracção. Junto ao sepulcro foi construído o Mosteiro de Antealtares onde uma comunidade de monges passou a assegurar o ofício divino.

Àquele local passou a acudir um grande número de peregrinos oriundos de todas as partes da cristandade ocidental e, bem assim, do próprio al-Andalus. O mesmo acontecia também com os povos de outras culturas e religiões que ali acorriam atraídos fosse pelas riquezas, fosse pela confrontação política e religiosa. Alguns desses povos eram os normandos que tinham especial inclinação por aportar na «Iakobsland» para saquearem a região e os árabes que lhe chamavam «Shant Yakub».

Era essa a razão por que Almançor e todo o seu exército se encontravam perante aquela venerável basílica.

(…)

 

A partir daqui é retomado o agradável romance mas, ante disso, a minha imaginação divaga pela hipótese de o vidente Paio ter, afinal, tido um encontro imediato do terceiro grau com uma nave extraterrestre e respectivos ocupantes… Numa época em que o homem ainda demoraria muitos séculos para conseguir levantar os pés do chão em voo controlado, a fé resolveu todas essas ocorrências que ainda hoje podemos considerar indecifráveis.

 

Pág. 359 e seg:

Ao longo dos séculos do domínio muçulmano peninsular, as pequenas comunidades rurais visigodas do sul haviam dado lugar a uma economia de sofisticado sistema agrário que abastecia e sustentava as cidades protagonistas de um crescente desenvolvimento urbano, reforçado por uma crescente economia monetária.

Com efeito, o engenho árabe lograra instalar um sistema de regadio das ricas terras de aluvião da costa mediterrânica, dos vales do Guadalquivir e do seu maior afluente, o Genil. Com esse sistema a funcionar e com a introdução de novos cultivos, os campos passaram a ter uma rotação de três ou quatro colheitas enquanto antes não passavam de uma. Os próprios colonos melhoraram as suas condições de vida e passaram a entregar uma parte das colheitas aos novos proprietários muçulmanos.

Assim, de uma reduzida produção de alguns cereais, azeitonas e uvas existente ao tempo da chegada dos árabes, os campos andalusinos passaram, com as novas culturas, a produzir intensamente arroz, trigo, cana-de-açúcar e todo o tipo de árvores de fruto, nomeadamente laranjeiras, macieiras, romãzeiras de figueiras, muitas delas vindas a Pérsia e do Extremo Oriente.

 

A descrição das inovações introduzidas pelos árabes continua referindo a laboração têxtil, a extracção mineira, as artes, as letras e as ciências.

 

A Matemática e a Medicina verificaram forte impulso, esta última sobretudo na cura de febres e na cirurgia, bem como a Astronomia, ciência que servia para orientar as mesquitas e elaborar os calendários.

 

Mas Almançor não era Califa de jure e, à semelhança do Doutor Salazar uns quantos séculos mais tarde, era ele que exercia o poder de facto, tendo remetido o Califa verdadeiro a funções meramente honoríficas e a uma vida despreocupada, de prazeres. Por isso, não foi apoiado pela nobreza nem pela demais elite muçulmana de Córdova que, hostilizando-o, perdeu a influência a que se habituara junto da sede do poder. Voltou-se, pois, Almançor para o clero cujo apoio «comprou» desenvolvendo políticas do agrado dos mais radicais. Foi no âmbito desse radicalismo que mandou queimar a biblioteca do Califa anterior, Hakan II, num processo que hoje bem conhecemos e que se intitula jihad islâmica.

 

Muitas outras passagens historicamente interessantes do livro poderia citar mas fico-me por aqui.

 

A História não se discute; com ela se aprende mas para isso há que a conhecer.

 

Aqui fica a sugestão de leitura integral desta obra tão interessante que passa por ser apenas um romance.

 

Julho de 2015

 

Chipre Norte-Mosteiro de Belapais 3.JPG

Henrique Salles da Fonseca

4 comentários

Comentar post

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2018
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2017
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2016
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2015
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2014
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2013
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2012
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2011
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2010
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2009
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2008
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2007
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2006
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D
  209. 2005
  210. J
  211. F
  212. M
  213. A
  214. M
  215. J
  216. J
  217. A
  218. S
  219. O
  220. N
  221. D
  222. 2004
  223. J
  224. F
  225. M
  226. A
  227. M
  228. J
  229. J
  230. A
  231. S
  232. O
  233. N
  234. D