Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

A bem da Nação

KALIMERA – 4

 

POSSEIDON

 

Manhã clara, deu para ver o Sol nascente e por isso me lembrei do «Loro Sae» timorense. Mas logo de seguida tudo se toldou e a chuva começou. E foi sob céu plúmbeo que fizemos o resto do dia.

 

Saidos, então, de Atenas rumo ao Sol nascente, fizemos um pouco mais de 100 kms ao longo da costa sul do Pireu a caminho do Cabo Sounion. Trata-se duma «rivière» de relativamente boa qualidade com inúmeros empreendimentos turísticos e baías – umas a seguir às outras – que se enchem de banhistas e barqueiros no Verão mas que agora estavam vazias. Mas deu para perceber que é assim que a Grécia está a tentar perfilar-se perante as consequências da crise que estoirou em 2014-15.

 

Chegados ao destino, ali estava uma paisagem com vegetação em tudo semelhante à nossa Serra da Arrábida fazendo-me lembrar o que nos ensinaram no Liceu de que, sendo Portugal um país atlântico, tem, mesmo assim, diversos locais de clima mediterrâneo. Mas o que nós não temos é a profusão de templos que os gregos têm. E aqui, no extremo oriental do Pireu, o orago é Posseidon, o deus dos mares.

Templo Posseidon Cabo Sounion, Grécia.jpg

 

E se os gregos antigos tinham o local como místico, também Byron se deixou enamorar pelo local ou por algum guardião das ruinas fazendo de Sounion a morada dos seus quase últimos dias mas acabando-os um pouco mais a Ocidente, em Mesolóngi a 19 de Abril de 1824. De qualquer modo, ainda teve forças para fazer gravar o seu nome numa das pedras fundamentais do templo. E os turistas lá vão tirar fotos como se esse fosse o carisma local. Não é!

 

A questão religiosa centrada em Posseidon era de grande relevância para o rei ateniense Egeu que já sonhava com o crescimento marítimo do seu «império» a fim de ganhar a dimensão que lhe permitisse tornar-se independente da vassalagem a Minos, rei de Creta.

 

Assim como vários séculos mais tarde a mitologia lusitana põe o Infante D. Henrique em Sagres a maquinar os descobrimentos, também a mitologia grega põe Egeu em Sounion a imaginar o domínio sobre o arquipélago fronteiro.

 

Então, quando Minos determinou que os reinos vassalos deveriam enviar anualmente a Creta não sei quantos adolescentes para servirem de alimento ao Minotauro, a ira assumiu proporções de ruptura e Egeu enviou o seu filho ao palácio de Knossos para entrar no labirinto e matar o monstro antropófago. O jovem zarpou de Atenas e deveria regressar hasteando velas brancas se tivesse acabado com a sorte ao Minotauro mas se tivesse sido vencido pelo monstro, os sobreviventes deveriam hastear velas escuras. Só que o jovem príncipe, chegado a Knossos, enamorou-se pela filha de Minos e entre a refrega da luta que levou à morte do Minotauro e os calores dos amores com a princesa cretense, esqueceu-se de hastear as velas brancas e chagando ao largo do Cabo Sounion, induziu Egeu em erro sobre o resultado da missão. O rei, em desespero perante a hipótese de ter ficado sem o seu amado filho, despenhou-se do promontório e afogou-se nas águas do mar que assim passou a chamar-se Egeu.

 

Mais um local onde tentei «viver» a epifania joyceana com algum recolhimento.

 

O autocarro deu meia volta e regressámos a Atenas mas não consta que algum dos meus companheiros de viagem tenha sentido mais Egeu do que Byron.

 

6 de Abril de 2018

Cabo Sounion 1-MAR18.JPG

 Henrique Salles da Fonseca

Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2006
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2005
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2004
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D