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A bem da Nação

KALIMERA – 11

 

O GRANDE CASTELO

 

«Cristo recrucificado», «Zorba, o grego», «A última tentação de Cristo», eis alguns dos livros de Níkos Kazantzákis (1883-1957), esse vulto da cultura universal que nasceu em Heraklion e está sepultado em Martinengo, lugar importante da grande muralha da cidade. Na respectiva lápide mandou escrever «Nada espero, nada temo, sou livre».

Túmulo de Kazantzákis.jpg

 

«Heraklion» (do grego antigo), «Iráclio» (do grego moderno), já foi chamada «el Khandak» pelos árabes, «Cândia» pelos venezianos, «Chandax» e «Megalo Cástro» ("grande castelo") já não sei por quem, é a capital regional de Creta e situa-se sensivelmente a meio da costa norte da ilha onde começa o mar Egeu.

 

A cidade actual tem cerca de 174 mil habitantes, foi fundada pelos árabes em 824 que ali criaram o Emirado de Creta mas o antigo nome Ηeraklion foi recuperado no século XIX e tem origem no vizinho porto romano de Heracleu (Heracleum - local de culto a Herácles), cuja localização exacta não é conhecida. É por ali, algures…

 

A cidade parece ter evoluído pouco durante as épocas clássica, helenística e romana, períodos em que era regularmente pilhada por piratas. Essa, uma das justificações para as muralhas e outras obras de defesa. Contudo, a partir da conquista árabe em 824, essa mesma pirataria passou a ser motivo de progresso pois deu acolhimento aos que operavam contra os navios bizantinos e faziam raides contra os territórios imperiais em redor do Egeu.

 

Mas «tantas vezes vai a cantarinha à fonte que um dia lá deixa a asa». E foi isso mesmo que aconteceu: os bizantinos fartaram-se, cercaram a cidade durante 11 meses e o general atacante, Nicéforo Focas, futuro imperador Nicéforo II Focas (nome patusco, convenhamos), reconquista a cidade, saqueia-a, massacra os árabes e reduz a cidade a cinzas. Permaneceu em poder dos bizantinos durante quase dois séculos e meio.

 

Em 1204, os venezianos compraram Creta a Bonifácio de Montferrat como parte de um complicado acordo que envolvia, entre outras coisas, os cruzados da Quarta Cruzada reporem no trono o imperador bizantino Isaac II Ângelo. Os venezianos modificam o nome árabe Khandak (ou Chandax) para Cândia, que assim se mantém na diplomacia europeia até 1898. Os novos senhores fazem grandes obras nas defesas melhorando o fosso e construindo enormes fortificações, grande parte das quais ainda de pé, que em alguns locais chegam a ter 40 metros de espessura, com sete bastiões e uma fortaleza na entrada do porto.

Heráklion-fortaleza do porto.JPG

Os rogos da Graça não foram suficientes para desviar o candeeiro do meio da foto

 

A cidade passou a ser a capital do Duque de Cândia e a área administrativa veneziana de Creta ficou a chamar-se Reino de Cândia (não confundir com o homónimo reino no centro do Sri Lanka). Para assegurarem o seu domínio, os venezianos começaram a fixar famílias de Veneza em Creta a partir de 1212. A coexistência de duas culturas diferentes e o estímulo da Renascença italiana levou a um florescimento das letras e artes em Cândia e em toda a ilha no que hoje se conhece como Renascença Cretense.

 

Depois dos venezianos seguiram-se os otomanos que cercaram a cidade durante mais de 21 anos (1648 - 1669) no que ficou conhecido como o cerco mais longo da História. Durante a ocupação otomana, o porto ficou assoreado e o poder da cidade caiu.

 

Em 1898 foi criado o Estado Autónomo de Creta sob supervisão internacional mas com o príncipe Jorge da Grécia na qualidade de Alto Comissário. Em 1913, Creta foi incorporada no Reino da Grécia.

 

E do que vive hoje a cidade? Pois bem, como toda a Grécia depois da «débâcle», vive sobretudo do turismo. Misto de Cascais e Amadora, vi uma rua direita cheia daquelas lojas das marcas que todos conhecemos de qualquer parte do mundo, vi esplanadas cheias de gente a comemorar o Domingo de Ramos ortodoxo (uma semana de diferença relativamente ao nosso) mas tivemos que escolher com cuidado para encontrarmos uma loja de gelados genuinamente cretense (ou grega, vá lá) em vez de nos sentarmos numa outra qualquer dessas marcas internacionais.

 

Tirando o comércio global, vimos lojas de «recuerdos» e uma feira de rua com muita orientalice na qual metemos o nariz para fazermos de imediato aquela meia volta que se impunha.

 

Sim, é isso mesmo que o leitor está a pensar: o que é grego (e cretense por maioria de razão), está aflito para sobreviver no meio da invasão estrangeira.

 

A menos que o futuro me troque as voltas, não penso lá voltar.

 

Abril de 2018

 

 

Fonte dos leões-Heráklion.JPG

 Henrique Salles da Fonseca

(frente à «Fonte dos Leões», no centro do fluxo turístico da cidade)

 

BIBLIOGRAFIA: Wikipédia

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