KALIMERA – 1
Petróleo, não obrigado! Quero água! E se alguém disser que o petróleo não faz falta, é claro que mente. Mas a água, essa, sim, é importante. Chipre tem sede.
QUERO ÁGUA!!!
É, pois, com este brado cipriota que começo as minhas crónicas sobre esta viagem que me levou ao Mediterrâneo oriental.
E aquela expressão tão corriqueira de que «não se pode ter tudo» vem muito a propósito da retenção (por mini barragens) que em Chipre foi feita das poucas águas que a Mãe Natureza faria seguir para o mar e que obstaram à continuação da erosão que os séculos anteriores se encarregaram de fazer. Resultado: não há mais erosão mas também não há aluvião e as águas do mar, sendo tendencialmente estéreis por via da salinidade, viram o peixe zarpar para outras paragens. Os peixes querem o plâncton que o aluvião ia promovendo mas que ali, por enquanto, não há.
Eis como Chipre evita viver sobre um rochedo nu e cru. E mesmo que no quintaleco lá de casa um antepassado do Senhor Costas (nome vulgar por aquelas paragens) tenha plantado uma árvore que durante gerações mais pareceu um arbusto raquítico e hoje poderia ser substituída por outra espécie mais adaptada às actuais condições (passou a haver água doméstica proveniente das centrais de dessalinização), é proibido cortar qualquer árvore e só com uma autorização muito especial da Administração Pública isso se poderá fazer.
O cipriota comum queixa-se de ainda não ter sido inventado o método de rega de cereais gota-a-gota. Portanto, a agricultura faz-se de sequeiro ou por rega gota-a-gota e o único pivot que vi mais parecia um brinquedo de crianças.
Sim, Chipre tem uma grande dependência alimentar e bem tenta superar essa pecha chamando propriedade agrícola a qualquer parcela menos pedregosa. Qual o custo de produção duma batata ou de um litro de leite? Não mo disseram mas na verdade lá seguem... E eu vi.
Mas recordemos o que Nuno André Coelho, do Departamento de Estudos Económicos e Financeiros do BPI, nos dizia em 27/03/13 no Diário Económico:
O Chipre aderiu à União Europeia em 2004 e tornou-se num membro da União Económica e Monetária em 2008. Quatro anos depois da adesão ao euro, o país mergulhou numa profunda recessão e viu-se forçado a pedir intervenção externa para evitar o colapso da sua economia. CE/BCE/FMI chegaram a acordo sobre a ajuda financeira ao Chipre no valor de 10 mil milhões de euros (cerca de 56% do Produto Interno Bruto do país), assegurando que os depósitos até 100,000 euros permanecerão intactos. O novo acordo envolve o fecho de actividade do segundo maior banco nacional, o Banco Laiki (será separado num bad bank e num good bank, este último será incorporado no Banco do Chipre), e a reestruturação do Banco do Chipre, o maior banco nacional. Accionistas, obrigacionistas e depositantes não segurados (ou seja, com depósitos superiores a 100,000 euros) serão chamados a contribuir para estes planos de reestruturação, uma vez que o empréstimo de 10 mil milhões de euros não será utilizado para estes fins.
Em 2012, a economia real contraiu 2.4%, depois de em 2011 registar uma taxa de crescimento de 0.5%. A recessão foi particularmente acentuada no último trimestre do ano, com a produção de bens e serviços a diminuir 3.3% face ao período homólogo (dados ajustados pela sazonalidade e pelo número de dias trabalhados). Por sua vez, o desemprego atingiu 12.1% da população activa no terceiro trimestre desse ano (últimos dados divulgados), 15.5% para os que procuram o primeiro emprego. Representando apenas 0.2% do PIB da zona euro, o Chipre é detentor de um sistema financeiro equivalente a 7.2 vezes a produção interna (medido pelo total de activos das instituições financeiras monetárias em relação ao PIB) com uma elevada exposição internacional. Por exemplo, os depósitos de não-residentes correspondem a cerca de 40% dos depósitos totais nas instituições cipriotas e o investimento de carteira da posição de investimento internacional (devedor) corresponde a 120% do PIB nacional.
Nos anos que se seguiram à adesão à União Europeia e até 2008, ano em que a crise do subprime originada nos EUA atingiu o sistema financeiro numa escala global, a economia do Chipre registou um forte período de expansão, com elevadas taxas de crescimento, reduzido desemprego e contas públicas sólidas. Durante estes cinco anos, a taxa média de crescimento anual foi de 4.2%, baseada sobretudo na expansão dos serviços, do sector da construção e do mercado imobiliário, e a taxa de desemprego só em 2005 subiu acima dos 5%. Como consequência do período expansionista que a economia atravessava, as receitas com impostos eram elevadas e das despesas sociais reduzidas, pelo que o saldo orçamental atingiu um excedente de 3.5% do PIB em 2007. Adicionalmente, a dívida pública desceu de 70% do PIB em 2004 para apenas 49% em 2008.
Como passou o Chipre de uma situação económica tão favorável para o cenário actual, em que se viu forçado a pedir a intervenção da troika? Em primeiro lugar, o aumento dos fluxos de capital para o país e a diminuição dos prémios de risco associados ao facto de pertencer a uma união monetária estiveram por detrás de uma redução acentuada das taxas de juro, o que por sua vez facilitou o endividamento - tanto dos particulares e empresas, como do governo. De facto, a dívida privada, em percentagem do PIB, aumentou de 160% em 2004 para 235% no final de 2008. Em segundo lugar, a crise financeira mundial provocou uma contracção da economia em 2009 (em termos reais, o PIB contraiu 1.9%) e o governo respondeu com a introdução de estímulos para relançar a actividade no valor de 4% do PIB, o que evitou uma contracção mais acentuada, mas transformou o excedente orçamental de 3.5% em 2007 em défices de 6.1%, 5.3% e 6.3% nos três anos seguintes. Adicionalmente, a exposição internacional do sistema financeiro estava muito assente em dívida da Grécia, pelo que os bancos sofreram perdas avultadas com o perdão de dívida concedido aos títulos gregos. De facto, no final de 2011, o valor de mercado dos títulos de dívida gregos na posição de investimento internacional do Chipre era de 4.8 mil milhões de euros (27% do PIB do Chipre), enquanto que no final do segundo trimestre de 2012 (últimos dados conhecidos) esse valor era de 3.4 mil milhões. Por último, a destruição da maior central eléctrica do país em Julho de 2011, provocada pela explosão de um depósito de armas, causou um apagão em metade da ilha cipriota e contribuiu para um grande aumento não esperado da despesa pública, com os custos de reparação a atingirem os 3% do PIB.
Fiquemos então hoje por aqui.
24 de Março de 2014


