Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

A bem da Nação

JARDIM DA ESTRELA – 2

A cena passa-se num caminho lateral do jardim junto ao muro do antigo Hospital Militar Principal estando eu sentado debaixo duma grande árvore a descansar da caminhada que fizera desde casa até ali. Aproxima-se um casal de meia idade já passada que mira e remira a árvore. Hesitantes, dirigem-se-me em português mas com uma pronúncia que não duvido de os classificar como emigrantes em França.

Ele – Bom dia, Senhor!

Eu – Bom dia Cavalheiro! – respondi eu para não ser repetitivo.

Ele – O Senhor sabe que árvore é esta com estes ramos pendentes?

Eu – Não são ramos, são raízes aéreas e é uma «Figueira da Índia». Há-de ter um nome científico qualquer mas isso eu já não sei. Como se imagina, é muito antiga.

Ela – E dá frutos?

Eu – Sim, sim, à semelhança de todas as plantas, mas eu creio que a Senhora pergunta se os frutos são comestíveis. Sim, são, mas têm uma casca rija e é preciso dar-lhes pancada para os abrir. Dizem que o miolo é macio mas um pouco ácido. Nunca comi. Há tempos vi aqui um grupo de imigrantes a comê-los e a espalharem as cascas por toda a parte. Vieram os guardas do jardim e obrigaram-nos a varrer tudo. Eles diziam em inglês que no país deles não varriam e que não era aqui que iam varrer. Foi só verem um polícia a vir ali ao fundo e agarraram-se às vassouras e ficou tudo limpo. Ainda pensei que eles agarrassem nas vassouras para desancarem os guardas do jardim mas eram cobardolas e «enfiaram a viola no saco». Nunca mais vi ninguém aqui a comer disto.

Ele – O Senhor não imagina como está em França com os muçulmanos…

Ela - … uma vergonha! Parece que eles é que são os donos da França.

Eu – Por aqui ainda não é assim mas não estamos livres de que tal aconteça. Não temos um muro à nossa volta. Mas quanto mais disso houver em França, mais a Marine le Pen vai ganhar votos e ela pode muito bem construir um muro como o Trump.

Ela – Mas não há-de ser só para não os deixar entrar. Ela vai ter que deportar todos os que se portem mal. E quando eles disserem que já são cidadãos franceses, ela tem que lhes dizer que vão fazer a glória da França no país dos paizinhos deles.

Eu – Julgo que é isso mesmo que o Canadá já faz há bastante tempo.

Ele – Mas nós andamos aqui a fazer turismo, não andamos a fazer política francesa. O Senhor sabe o que é este editício aqui nas nossas costas e que parece abandonado?

Eu – Sim. Até há meia dúzia de anos era o Hospital Militar Principal que esteve aqui durante muitos anos. Mas antes disso era um convento beneditino. Só que, a certa altura, os frades acharam que o clima aqui em cima era insalubre e que lá em baixo, mais próximo do Tejo, era muito melhor. Então, fizeram outro convento lá ao fundo da Calçada da Estrela que é essa rua que vai por aí a baixo (apontei para lá). Por acaso – e dizem as más línguas que foi mesmo por mero acaso – do outro lado da calçada havia outro convento, o das Francesinhas… Talvez tivessem sido elas que lhes tinham dito que os ares eram por ali muito mais puros. Sim, talvez. Entretanto, uma grande parte do convento das freiras foi demolido e o convento dos frades é hoje a «Assembleia da República» cuja nova arquitectura foi inaugurada pelo Rei D. Manuel II.

Ela – O Rei a inaugurar o edifício da República?

Eu – Naquela altura chamavam-lhe «Cortes».

Ele – Bem, acho que já o maçámos muito com perguntas da nossa História. Agora vamos ver a igreja ali à frente.

Eu – Está lá a Rainha D. Maria I. Dêem-lhe os meus cumprimentos.

Feitas as despedidas, seguiram ao caminho deles e eu deixei-me ficar a pensar se a Marine vai mesmo fazer um muro. Nada me admiraria.

Outubro de 2019

69-Omã-Khasab 1.JPG

Henrique Salles da Fonseca

4 comentários

Comentar post

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2017
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2016
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2015
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2014
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2013
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2012
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2011
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2010
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2009
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2008
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2007
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2006
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2005
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D
  209. 2004
  210. J
  211. F
  212. M
  213. A
  214. M
  215. J
  216. J
  217. A
  218. S
  219. O
  220. N
  221. D