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A bem da Nação

HISTÓRIAS DA ÁFRICA

 

POR ONDE OS PORTUGUESES ANDARAM

 

3

 

O COMEÇO DO FIM

 

 

Pela Convenção de Berlim, Portugal, para continuar a manter as suas ligações com África, foi obrigado, como já vimos, a ocupar militar e administrativamente as regiões onde há séculos comerciava, e com quem tinha, em muitos casos, boas relações de entendimento e respeito.

 

A própria Metrópole atravessava um período de total descontrole, com dois partidos políticos que fingiam que eram adversários: os seus componentes passavam-se de um lado para o outro como quem troca de camisa. Como é evidente, dinheiro não havia! Portugal não conseguia sair da grave crise financeira que o acompanhava desde as invasões francesas, que se agravara até mais não durante as Lutas Liberais e que conhecera novo surto com o Ultimatum Inglês e a bancarrota do Reino.

 

Mas houve que mandar tropas para África, o que se verificou ser um outro desastre: em muitos casos combater aliados, ou ser por eles derrotado, e constatar que as finanças do país não suportavam essas despesas. Para mais, o controle da situação não era tão evidente quanto pensava o governo em Lisboa!

 

O caso da moeda no período colonial era outra bagunça. Nos territórios ultramarinos corriam moedas de todos os países, e cada um dava-lhes o câmbio que bem entendia. Faziam-se leis estabelecendo os câmbios que não entravam em execução. Enfim, uma cegueira política e económica sobre a administração colonial.

 

Cabo Verde, o Porto Grande do Mindelo, começava a deixar de ser o principal porto no Atlântico para reabastecimento de carvão aos “novos” navios a vapor – o que lhe dava desafogo financeiro - perdendo para a concorrência dos portos de Dakar e das Canárias, mais modernos e melhor apetrechados.

 

Para se procurar arranjar dinheiro, forjavam-se leis com alguns impostos que alteravam constantemente as pautas aduaneiras, faziam-se reduções às mercadorias transportadas em navios de bandeira portuguesa, mas Portugal estava com a marinha mercante reduzida a quase nada.

 

Além de tudo, Portugal temia que, facilitando os direitos (por exemplo em Angola), os comerciantes poderiam aproveitar e reexportar esses bens para os territórios vizinhos, o que teria sido até um boa jogada comercial. Os interesses dos monopólios em Portugal iam falando mais alto…

 

O tráfico de escravos acabara. Os grandes empresários de Angola, os negociantes, os únicos que tinham tido crédito, cujas notas promissórias circulavam como dinheiro, estavam todos à beira da falência. Angola estava completamente descapitalizada.

 

Sonhava-se em levar colonos de Cabo Verde e das ilhas, sobretudo dos Açores, para colonizar Angola, mas chocava-se sempre no mesmo ponto: transporte e financiamento, apesar de algumas tentativas terem resultado, como por exemplo na Chibia, Huila, Angola, onde até hoje continuam a viver descendentes de açorianos.

 

O problema da moeda, se escasseava em Portugal, em Angola era uma parafernália.

 

Tudo servia de moeda e a escassez chegava a situações que obrigou a muita vez se adoptar a “moeda” africana, como os panos do Luango ou Nzimbo para pagar à tropa, e persistiam em outros tantos negócios a troca directa de bens, sobretudo alimentares.

 

Em 1864 foi criado o BNU, Banco Nacional Ultramarino, para ser o emissor nas colónias, rapidamente entregue a “compadres maçons” sem que tivesse havido concurso público, e que explorou, com juros exorbitantes, agricultores e comerciantes, confiscando propriedades que em vez de se terem desenvolvido, se endividaram ao banco.

 

(Com a lei de 25 de Fevereiro de 1869, proclamou-se a abolição da escravatura em todo o Império Português. Mas... em 1875 o BNU contrata, directamente da Libéria, 600 homens e mulheres para as suas propriedades de S. Tomé e até ao final de 1876 tinha já “importado” da Libéria, cerca de 3000 trabalhadores. A importação de mão de obra da Libéria foi a solução que o F. Chamiço encontrou como ideal para evitar a caça aos navios de escravos que era feita pelos navios de guerra ingleses sobretudo nas costas de Angola. Aliás, em 1877 o navio à vela “Ovarense” ao serviço do BNU, foi arrestado pelos ingleses e confiscada toda a sua carga, sob pretexto de que fazia comércio de escravos. Em 1877 o jornal “O Progresso” de Lisboa refere que em Luanda se encontram 240 escravos comprados pelo BNU com destino a S. Tomé, estando mais 1000 escravos em Novo Redondo, prontos para partir para a “Água Izé”, propriedade do BNU em São Tomé) É bom notar que estas roças, todas em S. Tomé, já propriedade do BNU, foram confiscadas a antigos agricultores que tiveram a infelicidade de pedir dinheiro ao banco!

 

Residência do Administrador da
Roça Água Izê
com seus funcionários em dia de pagamento

 

A situação nas colónias mantém-se, economicamente, um desastre, pouco mais se tendo feito, e com capitais ingleses, do que as três linhas de caminhos-de-ferro – Benguela, Malange e Lobito em Angola e Beira e Lourenço Marques em Moçambique – e criando-se companhias “magestáticas” para substituir os “prazos” de Moçambique, tudo em proveito dos investidores, portugueses e estrangeiros.

 

Por muito grande que tenha sido o projecto vigarista de Alves dos Reis, 1925, com o famoso Banco Angola & Metrópole (que ficou conhecido como “Engrola a Metrópole”), talvez tenha sido uma pena que não tivesse seguido em frente. Angola teria resolvido com esta jogada o seu problema financeiro que certamente a faria crescer com rapidez.

 

A partir dos anos 20 do século XX são as grandes companhias, que vão para Angola e Moçambique, nos mesmos moldes, como a dos diamantes, açucareiras, algodoeiras cujos beneficiados eram os capitalistas e suas fábricas em Portugal. São Tomé, um grande produtor de cacau e café, mandava para os magnates portugueses, incluindo o próprio BNU, todo o lucro das suas explorações.

 

É com a 2ª Guerra Mundial que o dinheiro fácil chega a Portugal, assente nas exportações de volfrâmio e de conservas de peixe para todas as partes beligerantes. E são esses excedentes em divisas que, tempos mais tarde, tornam possível o 1º Plano de Fomento e, com ele, Angola comece a crescer.

 

Só que Portugal tinha perdido quase totalmente a confiança dos povos nativos. E nem parece ter escutado (ou, se escutou, não entendeu) as palavras de De Gaulle aos soldados das suas colónias em África, quando lhes prometeu dar-lhes a independência pela sua contribuição na guerra, ao lado da França.

 

No fim da 2ª Guerra Mundial, como para a população portuguesa o solo natal lhe era adverso e pobre, Angola começa receber gente e a crescer, desta vez em inúmeros sectores, desde o agrícola, comércio, indústria e financeiro, com praticamente todos os bancos da Metrópole a se instalarem, tanto em Angola como em Moçambique.

 

As vozes dos intelectuais africanos, que pouco mais queriam do que ser ouvidos e sobretudo tratados em condições iguais aos europeus que chegavam e ocupavam todos os postos superiores da administração, não são ouvidas. O Governo de Salazar faz ouvidos moucos e criam-se os movimentos que Portugal chamava de “terroristas”, e o, talvez evitável se discutido desde os primeiros momentos, apareceu: a luta pela independência.

 

Angola dá um pulo incrível de desenvolvimento entre 1961 e 1974, mas o mal estava instalado e crescia. A Guerra Colonial podia até estar ganha em Angola. Nunca na Guiné nem em Moçambique, mas o entendimento, a confiança, haviam desaparecido.

 

O alardeado Império Colonial Português, não tivera nem meio século de vida.

 

Os 500 anos de colonialismo também não chegaram a cem (na verdade, vão da 2ª década do séc. XX até 1975)!

 

E assim Portugal se encontrou despido, ainda mal visto por muitos, quase obrigado a aceitar esmolas de Timor para os sinistrados de incêndios (que ao fim de muitos meses, por razões burocráticas!!!, ainda não entregou aos destinatários).

 

Mas continua a ter 50 ministros e secretários de estado, mais de 200 deputados, todos muito contentes com eles-próprios. Para quê?

 

N.- Devo ao Dr. Palhinha Machado o favor de ter feito uma revisão do texto.Mas se algo não estiver correto só tem um que errou: eu!

 

Rio de Janeiro, 22/05/2014

 

 Francisco Gomes de Amorim

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