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A bem da Nação

GUERRA CIVIL DE ESPANHA

 

 

  

Luís Soares de Oliveira

 

Apresentação da 2ª edição no antigo edifício dos Correios do Estoril no dia 27 de Setembro pelas 15,30 H

 

 

PREFÁCIO

 Bernardo Futscher Pereira*

 

  

A historiografia recente da Guerra Civil Espanhola tem-se debruçado essencialmente sobre as dimensões internas da tragédia: a macabra contabilidade das vítimas de ambos os lados; as micro-histórias dos diferentes teatros de guerra e da repressão na retaguarda; as tentativas de reavaliação dos mitos e das narrativas tradicionais sobre o conflito, distorcidas por paixões ideológicas e agendas políticas; e o exame tanto quanto possível desapaixonado dos seus diversos protagonistas. Esses estudos, realizados em grande parte por uma nova geração de investigadores espanhóis, permitem-nos hoje ter uma visão muito mais precisa, completa e imparcial de uma luta que dividiu o mundo e cujas repercussões ainda hoje se fazem sentir na vida política espanhola.

 

Não abundam contudo os trabalhos recentes sobre as dimensões inter-nacionais da Guerra Civil. O livro do Embaixador Soares de Oliveira é uma excepção neste panorama, essencial para compreender como ela influenciou e foi influenciada pelo contexto internacional e os caminhos ínvios através dos quais preparou o terreno para a Segunda Guerra Mundial.

 

A política de não intervenção conduzida pela França e pela Grã-Bretanha – que, como Salazar observou, “constituiu talvez a maior intervenção em Espanha no último século” – foi a antecâmara do apaziguamento de Hitler que culminou na ignominia dos acordos de Munique. A não intervenção, exercício consumado de hipocrisia, foi uma etapa importante nesse caminho resvaladiço que contribuiu poderosamente para a desmoralização das democracias e para a sua incapacidade em se oporem à agressão nazi. Foi em Espanha que se formou e consolidou o Eixo entre Roma e Berlim. Foi em Espanha que muitos liberais, entalados entre fascismo e comunismo, escolheram o primeiro como um mal menor. Foi em Espanha que a França perdeu progressivamente qualquer tipo de iniciativa diplomática. Foi, em boa parte, a atitude das democracias em Espanha, ambígua e timorata, que levou Estaline a descartar a política da segurança colectiva, abrindo o caminho para o pacto nazi-soviético de 21 de Agosto de 1939.

 

Com minúcia, com a experiência acumulada de uma vida dedicada à diplomacia – e com uma atenção, rara neste tipo de obras, ao papel de Portugal nesta trama complexa –, Soares de Oliveira examina as motivações, as influências, as manobras e os objectivos de um vasto leque de intervenientes no drama espanhol e traça os seus retratos políticos e psicológicos de forma vívida e perspicaz.

 

A tarefa não é fácil. Na Guerra Civil, por detrás do conflito entre nacio­nalistas e republicanos entrechocaram-se múltiplas dimensões difíceis de destrinçar: no plano interno, para além das clivagens entre esquerdas e direitas, é necessário levar em conta as tensões entre o centralismo de Madrid e as aspirações bascas e catalãs; os rancores acumulados entre clericais e anticlericais; e as divisões e lutas dentro de cada um dos campos, entre o Exército, os monárquicos e os falangistas no campo nacionalista, e republicanos, socialistas, comunistas e anarquistas no da República.

 

No plano internacional, a guerra teve um fortíssimo efeito polarizador que enfraqueceu todos os sectores moderados e liberais; as suas reverberações ideológicas, amplificadas pelos enormes esforços de propaganda conduzidos pelos dois lados, ecoaram em todo o mundo; diplomaticamente, deixou as potências ocidentais perante verdadeiros dilemas; a opção de Londres e Paris pela não intervenção vibrou um golpe profundo na Sociedade das Nações, contribuindo para a descredibilizar ainda mais; o conflito abriu as portas à intervenção de Mussolini e de Hitler, e à contra intervenção de Estaline; e o seu desenrolar foi acompanhado por uma constante subida de tensão na Europa, que acabaria por desembocar na segunda Guerra Mundial.

 

O impacto da Guerra Civil foi particularmente forte nos países vizinhos: em França, minou por dentro o governo da Frente Popular e ampliou a contestação à III República de uma direita cada vez mais descrente na democracia.

 

As dissensões provocadas pelos acontecimentos espanhóis, poucos meses depois da ocupação da Renânia, acentuaram a dependência de Paris relativamente a Londres, contribuindo para que a França abdicasse de toda a iniciativa diplomática a favor da Grã-Bretanha. Em Portugal, a Guerra Civil teve o efeito contrário: galvanizou a base de apoio do Estado Novo e contribuiu para que este se afirmasse internacionalmente com mais convicção e autonomia.

 

Para Salazar, a guerra foi uma luta existencial, na qual se empenhou a fundo, com determinação mas também com cautelas. Para Mussolini e Hitler, foi mais questão de prestígio e oportunidade para exercitarem os seus músculos. Para Estaline, ao contrário do que apregoava a direita, foi inicialmente incómoda distracção: um apoio declarado à República prejudicaria os seus esforços para construir uma imagem de respeitabilidade diplomática; pior ainda, contudo, seria assistir, impávido e sereno, à destruição da Frente Popular em Espanha pela ação conjugada das potências fascistas. Acusada de ter instigado o processo revolucionário espanhol, na realidade a União Soviética só interveio em Espanha, a contra gosto, depois de a Itália e a Alemanha terem jogado as suas cartadas. Mas foi a coberto dessa intervenção que, pouco a pouco, Moscovo eliminou todos os rivais do Partido Comunista Espanhol e consolidou um domínio sobre este que estenderia depois aos seus congéneres europeus. Foi no laboratório espanhol que a União Soviética estabeleceu a supremacia absoluta sobre as esquerdas europeias.

 

Londres ficou sozinha a segurar os pratos da balança e manobrou com um fim em vista: evitar que as paixões espanholas provocassem uma escalada internacional. Mais livre do que outros de constrangimentos políticos e paixões ideológicas, só a Grã-Bretanha estava em condições de fazer pontes entre a França, a Itália e a Alemanha. A tentativa de conciliar Mussolini, para evitar problemas no Mediterrâneo e separar a Itália da Alemanha, implicava fechar os olhos ao activismo descarado do Duce em Espanha. Foi este um dos motores da política de apaziguamento britânica de que Neville Chamberlain se tornaria o apóstolo. Em Fevereiro de 1938, a vitória definitiva desta linha política levou à saída, celebrada em Roma, Berlim e Madrid, de Anthony Eden do Foreign Office, o último paladino da segurança colectiva.

 

Soares de Oliveira investiga a génese do acordo de não intervenção, uma história até hoje com recantos obscuros, com responsabilidades repartidas entre Paris e Londres; descreve a pressão exercida pelo Gabinete inglês para que todas as partes relevantes, incluindo Portugal, aderissem ao acordo e se fizessem representar no Comité de Controlo; as manobras ocas e labirínticas, no seio do Comité enquanto a intervenção estrangeira alastrava e se impunha no terreno; a inflexão a favor de Franco da posição inglesa, estimulada por Salazar, após a conquista do norte e da costa Atlântica em 1937; as batalhas navais no Mediterrâneo e no Golfo da Biscaia que ameaçaram a precária paz europeia; e o lento estertor da República, paulatinamente acompanhado pela legitimação de Franco como interlocutor internacional válido e respeitado; e, por fim, a desesperada tentativa de Negrín, ao lançar a ofensiva no Ebro, de captar a atenção da Sociedade das Nações e das chancelarias europeias, cada vez mais resignadas a deixar correr o marfim em Espanha.

 

Alheio a agendas ideológicas, Soares de Oliveira guia-nos nos complexos meandros da diplomacia europeia daquele período, recheados, mais ainda do que em tempos normais, de agendas ocultas e pensamentos reservados, elucidando a enorme complexidade dos cálculos de uns e outros. O seu livro ajuda a explicar, mas não a desculpar, a cumplicidade das potências na destruição da República espanhola.

 

+++++++++++++++++++++

 

*Bernardo Futscher Pereira é mestre em Ciência Política e Relações Internacionais pela Universidade de Columbia, em Nova Iorque. Iniciou a sua actividade profissional como jornalista mas, em 1987, ingressou na carreira diplomática. Enquanto diplomata foi colocado em Tel Aviv, Bruxelas, Barcelona e no Ministério da Defesa Nacional. De 1999 a 2006 foi assessor para as Relações Internacionais do Presidente da República, o Dr. Jorge Sampaio. É embaixador em Dublin desde Abril de 2012.

Bernardo Futscher Pereira é autor de vários artigos sobre política externa, história diplomática e política internacional, publicados em revistas especializadas. Em 2012 publicou a obra A Diplomacia de Salazar (1932-1949). Alfragide: Dom Quixote 2012, 591 p.

 

EXTRATOS DAS RECENSÕES CRITICAS

 

De Filipe Ribeiro de Menezes em Negócios Estrangeiros, número 14, Abril de 2009

"Soares de Oliveira optou por acompanhar o desenrolar cronológico da crise espanhola, criando espaços de reflexão … que ajudam a compreender as posturas diplomáticas dos vários intervenientes. Fá-lo com excepcional clareza"

"[O autor] revela grande persistência acompanhando de perto os trabalhos do Comité da Não-Intervenção  e é nesta persistência que reside o mérito do autor e o valor da obra"

 

De Prof. Rui Vieira, in Revista das Relações Internacionais, número 25, Março de 2010.

"O [livro] resulta num exercício clássico em matéria de história política e diplomática, embora em registo distinto daquele que tem caracterizado a produção historiográfica alusiva à conflagração espanhola,… sendo [nele]privilegiada uma visão de conjunto "

"O cuidado posto na análise dos factos é manifesto na perseverança com que escalpeliza os detalhes das andanças diplomáticas …"

"A articulação entre teias complexas de acontecimentos constitui outro ponto forte de Guerra Civil de Espanha."

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