Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

A bem da Nação

GRÉCIA-EUROPA: O CHOQUE FRONTAL. COMO SAÍMOS DESTA?

 

Schäuble e Varoufakis.png

 

O BCE deixou de aceitar títulos de dívida pública grega como colateral para os bancos gregos se financiarem (ler o artigo do Expresso on-line). Trata-se de um primeiro apertão forte às pretensões do Governo helénico, no fundo, uma verdadeira moção de desconfiança.

 

Por outro lado, o encontro de hoje entre Varoufakis e o Ministro das Finanças alemão Schäuble parece um autêntico filme de terror. Sob o sugestivo título: “Showdown in Berlin leaves leading actors poles apart” o “Financial Times” não mascara a situação, a título exemplificativo, passo a reproduzir um excerto significativo (ver o relato completo aqui)

 

“Mr Varoufakis went further, saying they did not “even agree to disagree”. He said: “We did not reach agreement because it was never on the cards that we would. We agreed to enter into deliberations as partners with the orientation of a joint solution to European problems that’s going to put the interests of Europe at the helm.” O que fica por dizer e que se lê nas entrelinhas faz parte do “thriller” e não é relevante: é relevantíssimo. Afirmar que o caldo está entornado é um mero eufemismo que não traduz minimamente a realidade. Como tenho vindo a dizer, estamos em plena rota de colisão à espera do grande embate. Não gosto de repetir a estafada fórmula “eu bem vos disse", mas é exactamente isso o que vai suceder.

 

Preparamo-nos, pois, para a colisão frontal, o que se quadra perfeitamente nas previsões. Recordo que Atenas necessita de 23 mil milhões de Euros até Junho. A decisão do BCE, mais a inflexibilidade alemã, põe em causa todo o programa de Tsipras e de Varoufakis e, mais do que isso, a permanência da Grécia na Euro zona. Ambos os governantes prometeram o que, certamente, não poderão cumprir, enveredaram pela via de contestação às políticas de austeridade, impostas pelos credores – é certo –, mas estes (designadamente o BCE e a Alemanha, mas Hollande também, ao sublinhar que as regras são para se cumprir) querem a implementação das reformas estruturais que Atenas não está em condições de garantir. A Grécia pretendia, efectivamente, ir mais longe, mas entretanto desistiu da ideia (o famoso "haircut), ou seja a anulação parcial da dívida, até porque em termos globais aquela, como se sabe, revela-se, em rigor, impagável e insuportável. A solução poderia passar por uma moratória (20 anos, 30 anos, mais...) ou pela engenharia financeira de Varoufakis tal como exposta na entrevista de há dias ao FT: pagar a dívida ao ritmo de crescimento da economia e as célebres "obrigações perpétuas". Trata-se de um primeiro recuo do Ministro das Finanças grego, uma vez que não há qualquer hipótese para um perdão de dívida, puro e simples. Poder-se-á quando muito, numa segunda etapa, repito, sugerir-se uma eventual dilação dos prazos e das taxas de juro.

 

Estará a Grécia disposta ao compromisso ou vai para o choque frontal?

 

O que se tem verificado é que o discurso de Varoufakis tem-se modulado ao sabor dos interlocutores, portanto trata-se de uma navegação à bolina, sem rumo definido, apalpando-se terreno a cada curva do caminho. Bem sei que a margem de manobra é estreitíssima. Mas quem é que promete o que não pode cumprir, uma vez que o cumprimento não depende de quem foi eleito, mas de outros? Pode-se argumentar – e o argumento tem peso – que a Grécia já sofreu demais e que é preciso pôr termo definitivo à sangria desatada. Aqui poder-se-ia jogar com a compaixão e com a via americana tão gratas, uma e outra, a Obama: portanto, exprimindo pena pelos “poor devils”, pelos “underdogs” e encetar uma politica expansionista (como nos anos 30 e pós-2008, nos EUA, agora com o Quantitative Easing). Só que a Alemanha – e, sobretudo, o contribuinte alemão – considera que, no caso grego, todos os limites foram ultrapassados (Schäuble dixit) e que o caminho da austeridade é o que deve ser trilhado e não outro (o fantasma de Weimar, a hiper inflação e o nazismo estão bem gravados na memória colectiva germânica), contra ventos e marés.

 

Alem disso, caso se ceda às pretensões gregas, subsiste ainda o problema dos "outros". Quaisquer cedências, quer da parte da "Europa" (leia-se BCE, CE, Alemanha e "tutti quanti"), quer da parte da Grécia, serão sempre vistas como provas de fraqueza. Se para Atenas o falhanço representa a inadimplência clara do essencial do programa governamental e, por conseguinte, o falhanço assumido. O risco maior para a Europa "merkeliana," caso ceda a Atenas, implicará idênticas reivindicações por parte de Portugal, Espanha, Itália e Chipre. É claro como água e perfeitamente justificável. Espera-se que haja bom senso e, nesse quadro, vontade de negociar e de chegar a compromissos sem perder a face, caso contrário, o embate redundará na quebra do elo mais fraco – a Grécia. Esta, com efeito, arrisca-se a perder e entrar, assim, em cessação de pagamentos. É ocasião para formularmos a pergunta de um milhão de euros: a moeda comum, a Euro zona e a própria União Europeia aguentarão?

 

Como saímos desta, sim, porque o problema está em cima da mesa e vai sobrar para nós?

 

Francisco Henriques da Silva.jpg

Francisco Henriques da Silva

2 comentários

Comentar post

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2018
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2017
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2016
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2015
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2014
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2013
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2012
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2011
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2010
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2009
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2008
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2007
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2006
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D
  209. 2005
  210. J
  211. F
  212. M
  213. A
  214. M
  215. J
  216. J
  217. A
  218. S
  219. O
  220. N
  221. D
  222. 2004
  223. J
  224. F
  225. M
  226. A
  227. M
  228. J
  229. J
  230. A
  231. S
  232. O
  233. N
  234. D