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A bem da Nação

GOA, JESUÍTAS E IMPÉRIO

 

Após as lutas necessárias, suficientes e convenientes à mudança do paradigma de Goa relativamente ao Islão, foi possível criar as condições para que a região assumisse claramente o epíteto de «Goa doirada». E esse brilhantismo nunca teria sido possível sem a participação essencial dos naturais da terra, os goenkares; teria sido impossível fazê-la doirada só pela arte dos reinóis. Dessa participação activa resultou a criação duma elite que não se limitou a expandir a Fé e o Império pelas demais partes orientais do mundo como também se distinguiu na própria Metrópole onde ocupou/ocupa as mais altas hierarquias. E tudo, não por condescendência ou compadrio mas, isso sim, por mérito próprio.

Goa foi doirada porque foi plataforma de Império e porque contou com uma elite local que fez jus à sua terra. Perdida a perspectiva imperial, ficou o principal, a qualidade das gentes.

Contudo, para além das características naturais e do ambiente social propícios ao elitismo, este teve que ser enquadrado numa Civilização diferente dos cenários que antecederam o século XVI. E o novo enquadramento fez-se no Catolicismo recorrendo a «formadores» tanto reinóis como goeses.

* * *

Reinol [1] mas ordenado em Goa, refiro o

PADRE ANTÓNIO DE ANDRADE, SJ

Português, reinol de Oleiros (1580), foi por amor a Deus e à humanidade que acabou por morrer prematuramente em Goa, corria em 19 de Março o ano de 1634.

Ainda criança, ingressou no «Colégio das Onze Mil Virgens», em Coimbra, instituição para que o fundador jesuíta redigira a «Ratio Studiorum», norma pedagógica que dali vogou para todas as demais instituições de ensino jesuítas espalhadas pelo mundo.

E porque a Fé jesuíta é católica também na acepção literal do termo, aos membros da Companhia de Jesus compete espalhar a Boa Nova entre as gentes de toda a parte e assim foi que ao jovem António cumpriu em Abril de 1600 rumar a Goa para completar a sua formação e, a partir daí, desenvolver as missões que lhe fossem entretanto  determinadas.

Ordenado, cumpriu-lhe rumar a Agra para fundar a «Missão do Mogol». Foi ali que aprendeu com muçulmanos oriundos da Caxemira várias das línguas faladas no norte da Índia e foi ali também que ouviu referências a certos enigmas, nomeadamente sobre uma religião cristã na Ásia Central.

Despertada a curiosidade, foi em 1624 que rumou a Delhi e, daí, acompanhou uma peregrinação hindu às origens do Ganges. Deixados os peregrinos para trás, prosseguiu viagem até um aglomerado de casas de que lhe tinham falado os peregrinos. Chegado a Tsaparang, «reino» perdido nas alturas himalaias, foi recebido pelo «rei» local com grande simpatia a quem explicou o Cristianismo, a quem converteu e de quem recebeu o pedido de cristianização do seu «reino». Só com a garantia do regresso é que foi autorizado a regressar a Agra com o objectivo de recrutar ajudantes para essa sua nova Missão, a primeira (e última) no Tibete. Ao todo, há o registo de seis escaladas que o Padre Andrade fez dos Himalaias mas, contudo, não foi como montanhista que ficou conhecido. Outrossim, a sua fama ficou a dever-se às cartas endereçadas ao seu Superior Geral, P. Muzio Vitelezi, em Roma, descrevendo o Budismo Tibetano até então desconhecido dos europeus daquela primeira metade do séc. XVII. Famosas, as duas primeiras cartas que foram traduzidas em 14 línguas e constituíram um verdadeiro «best seller». Se existem mais cartas, nada se sabe do respectivo conteúdo na certeza, porém, de que à hierarquia jesuíta pareceu bem atribuir nova missão ao Padre António de Andrade deixando assim «cair» a Missão do Tibete.

Mandado regressar a Goa, foi o nosso Reverendo «montanhista» nomeado Provincial do Oriente da Companhia de Jesus com jurisdição desde o Cabo da Boa Esperança a Nagasaki numa dimensão imperial que a maior parte dos goeses ainda hoje esquece.

Sim, era a partir do «Colégio de São Paulo», em Goa, que a Companhia de Jesus governava aquele «seu meio mundo», era ali que formava parte da elite genuinamente goesa, o seu Clero, era dali que irradiava a sua exegese do Deus infinitamente bom e do perdão. Por contraste, o Deus castigador dos dominicanos em Manila cuja influência chegava a Goa através da Inquisição.

Durante os dois primeiros Priorados Gerais da Companhia de Jesus, foram acolhidos muitos cristãos novos no seu seio mas o anti-semitismo sempre foi latente até que em 1593 vingou o «Estatuto da Pureza de Sangue». Assim se suspendeu o humanismo inaciano, a teologia da bondade infinita se viu de algum modo contrariada e os seus adeptos quase passaram à clandestinidade.

Não terá sido fácil ao novo Provincial jesuíta do Oriente encontrar quem se dispusesse a «dar a cara» no trabalho que secretamente havia que levar à prática de neutralização da Inquisição em Goa. Nessa tão perigosa missão se empenhou pessoalmente o Padre Andrade oferecendo-se como membro das Mesas dos julgamentos do Santo Ofício.

Pode ter sido coincidência mas a verdade é que dos autos dos três julgamentos a cujas Mesas pertenceu, não consta nenhuma sentença determinante de morte. Estava em curso a neutralização da acção perniciosa da Inquisição.

Regressando à sua residência jesuíta no Colégio de São Paulo depois de assistir ao auto-de-fé do terceiro julgamento em cuja Mesa participara, eram horas de jantar; o Padre Andrade dirigiu-se ao refeitório presidindo à refeição, fez a oração da praxe, sentou-se, bebeu um trago do copo à sua frente e instantaneamente levou as mãos à garganta. Morreu três dias depois de grande sofrimento. Era o dia 19 de Março de 1634, tinha 54 anos.

Envenenado, claramente.

Porquê? A suposição mais fácil aponta no sentido de uma punição devida à sua participação nas Mesas da Inquisição. Por ter quebrado o humanismo inacuiano? Por ter promovido a brandura das sentenças? Por, sendo português, estar no cargo do mando de meio mundo que alguém espanhol ambicionava? Por causa de alguma carta referindo o que ainda hoje ignoramos?

Tudo conjecturas, apenas especulação. A única certeza é a de que, naquelas épocas, Goa comandava meio mundo, tinha dimensão imperial. E tudo, claro está, em português, a língua franca naquela metade do mundo.

Junho de 2021

Henrique Salles da Fonseca

 

[1] REINOL – natural do Reino de Portugal

Publicado em 27 de Junho de 2021 no jornal diário «O Heraldo» de Pangim, Goa

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